Segunda a Sexta

  • "Aí você vê como tudo é frágil. Uma coisinha pode derrubar tudo"

    Chiquinho, do Mombojó, para a TRIP

    Tema da Semana: FRÁGIL

 

postÀ deriva

Aline Leal

Jean Pierre comprara o seu carnet para o Louvre na semana anterior, era julho, a alta temporada em Paris, verão e os turistas estariam fazendo fila no museu. Saiu com a baguete embaixo do braço, morava na banlieu e tomaria o metrô até a estação do Sena, atravessaria a ponte e seguiria pela entrada sem pegar fila porque fora precavido. Lá dentro faria o percurso de tantas vezes, mas desta vez experimentaria algo diferente. Pela visita guiada cobravam cinco euros, já sabia. Mais uma vez ele a recusou sem responder e seguiu mais de duzentos passos até a Balsa da Medusa. Abriu espaço em volta do quadro e se concentrou, estava estimulado e dedicado ao projeto.

O manto vermelho sobre o homem sentado, olhando na direção oposta aos outros náufragos que pensam avistar salvação apoiados uns sobre os outros nos escombros do navio enquanto as ondas avançam para cima deles. Acomodando um cadáver nu no colo, refletindo talvez sobre a vida que levara e o que ela representava na condição em que se encontrava agora. O olhar longe. Mas o que me intrigava e pelo o que eu estava aqui não era o homem do manto vermelho, que por muito tempo eu supusera ser Jesus e já tenho por conta ser Julio César, o imperador que medita em seu leito de morte sobre o Império Romano e a sua decadência, a vida e a historia. O dono da minha inquietação era o homem cujo tronco se projetava para fora das tábuas de madeira, enquanto o resto do corpo permanece nas águas frias do Atlântico. Estaria ele vivo ou morto? Esta era, na verdade, a minha questão. A pele morena escura, talvez dos dias que passara no mar após o desastre, privado de água e exposto a um sol forte. Mas agora um lampejo me subia pela espinha tal qual eu imaginava que aconteceria, já viera preparado para a epifania e tivera um veredicto sobre a questão. O cara não era um sujeito moreno, chegara a especular que fosse das Índias Orientais. Ele estava roxo, era um cadáver.

A Balsa da Medusa, deTheódore Géricault

 

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12.08.09 em: Quarta