Segunda a Sexta

  • "Aí você vê como tudo é frágil. Uma coisinha pode derrubar tudo"

    Chiquinho, do Mombojó, para a TRIP

    Tema da Semana: FRÁGIL

 

postSimone, Sartre e nós

Raquel C. de Medeiros

 

 

Simone de beauvoir

Nina,

Fernanda Montenegro é Simone de Beauvoir e também eu, você, Aline, Tiana, Luciene, Raquel e todas as moças que tratam o diferente com naturalidade. Fomos, eu e G., assisti-la no teatro outro dia e lamentei você não ter ido conosco. É curioso como a história de amor entre Simone e Sartre me provoca reações diferentes, mas sempre bate forte. É, acima de tudo, uma história de lealdade e de ruptura.

Passamos a peça inteira, eu e G., com as mãos enlaçadas e sentindo coisas: ânsia de amor, de liberdade, de intensidade. Não somos namorados ainda, Nina, somos duas pessoas de mãos dadas caminhando no sentido de alguma coisa tranquila e madura. Somos duas pessoas tentando moldar um relacionamento inovador para nós, que seja seguro e livre e lúcido e feliz. Até que descobertas incompatíveis nos separem.

É claro que quando se fala em Simone e Sartre o tema mais discutido é a liberdade. Eu concluí que existem atos de liberdade, como os dois fizeram. Mas os sentimentos, Nina, os sentimentos acabam tomando a nossa liberdade, mesmo que você aja no sentido dela. Isso aconteceu com a Beauvoir, que se apaixonou por um americano e sentia-se tão ligada a Sartre que continuou com ele, mesmo infeliz. Ela estava afetivamente tão casada com ele como os casais convencionais. Acho que liberdade mesmo, nesse caso, seria ela romper com a liberdade que Sartre lhe proporcionava para sentir-se feliz com o americano. Ou será que estou errada?

A questão, Nina, é que os sentimentos não são tão retos e constantes como gostaríamos. Em algum momento você vai olhar para o seu amor e sentir preguiça dele. Mas acho que se você admira, cultiva e o respeita, você o engrandece de uma maneira que ele acaba prevalecendo e tudo isso passa. Na maior parte das vezes, a preguiça é de nós mesmos.

Mas o que eu quero te contar, Nina, é que quando Simone desapareceu do palco fui tomada por aquele impulso de ousadia tão entranhado em minha personalidade. Perguntei a G. se ele já havia experimentado um relacionamento aberto. Não, ele disse e devolveu a pergunta. Sim, eu disse, e ele se surpreendeu, mas não me interrogou. Então respirei fundo e propus o que ninguém nunca lhe propôs: você gostaria de experimentar? Ele arregalou os olhos e sorriu. Eu sabia, de alguma maneira, que essa proposta seria importante para ele.

Sim, podemos experimentar, ele disse.

 Meu coração bateu como o de Simone, Nina. Mas não tenho certeza se colocaremos em prática. Por mais louco que isso pareça, acho que eu apenas precisava perguntar e ele apenas precisava ouvir a minha proposta. Para nós sabermos que podemos tudo, inclusive cultivar apenas o nosso amor. Para sentirmos a brisa da liberdade, Nina, porque no fundo só existe a brisa da liberdade, que vai e vem e fica e nos escapa. Lembrei-me muito da minha temporada em sua casa em Paris, quando íamos ao Marais para sentir o aroma do café que Simone e Sartre tomavam. Paris é uma festa para todos, Nina, mas vou te confessar: para mim, há uma melancolia beauvariana no ar. Paris me encanta mas me dói, assim como todas as histórias bonitas que escrevo. Agora, estamos eu e G. caminhando para a casa dele e eu não vejo a hora de escrever-lhe esta carta. Só você, Aline, Tiana, Raquel, Luciene e outros poucos saberão das últimas. O resto não compreenderia.

Com ânsia de ficção,

Lorena

P.S: Eu não tenho jeito. Deixo a ousadia me carregar no colo, mas no fundo sou uma romântica incurável. Um blefe!

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13.08.09 em: Quinta