Fi-los
Luciene Braga
“Eu não sei de onde tiraram esta porra de sentimento sublime dos pais pelos filhos e, de quebra, associaram essa tal coisa aos libelos religiosos. Filhos irritam, filhos desmascaram e são capazes de olhar com olhos de quem nos conhece por dentro. Só isso é motivo para irritar. Ressalvados alguns casos de adoções tardias, é muito provável que pais zelosos o sejam por verem, nos rebentos, a fragilidade e a graça dos bebês que, um dia, estiveram lá, inseguros, em suas mãos. O que seria do consagrado amor paterno se os filhos já nascessem adultos, drogados, ingratos, desbocados e… casados?”.
Começou assim, entre palavrões, seu discurso em um seminário sobre relações familiares, diante de uma plateia de supostos tecnicos da área psi, pronta para derrubar sua tese que ganhou impacto afora, publicada em livro, e assim considerada empirica. Pessoas se rebolavam nas cadeiras duras, cutucavam-se e berravam reações no silêncio desconcertado. Certo de ter feito seu primeiro contato com a massa, feito líder religioso, continuou.
“Quantos pais podem dizer que não amam seus próprios filhos porque estão, no fundo e amadoramente, direcionando a si próprios o mais egoísta dos amores?”
“Você analisa friamente, porque não teve os seus próprios. Não teve então a felicidade de pegar um filho seu no colo!”, vaticinou um revoltado, ele mesmo em suores desproporcionais de raiva. Ousaram questionar o mais puro dos amores, como ele pensava, até aquele momento.
“Pois, diga-me, se acredita mesmo no contrário. E não diga do divino. Diga do que realmente enxerga nos filhos. Eu os tenho, engana-se. Eu os peguei, sim.”. Desafio lançado.
“E o que diriam eles se o ouvissem agora?”, questionou outro, corporativista e cheio de coragem de emendar um debate em desvantagem.
“Não criei filhos previsíveis”.
E assim respondia, irônico e com altas doses de sarcasmo. O debate perdurou e até conseguiu vencer as certezas de alguns. Balançou diante das perguntas sobre mãe, mas não estava exatamente falando da reciprocidade. Falava de pais para filhos. Deixou o auditório acompanhado de perguntas. Gabou-se. Depois, voltou à casa.
Esperavam-no o mais novo e o mais velho na rede.
Achou-os bem parecidos. Correu e derrubou-os no chão, sobre sua pasta com estudos. Beijou-os como se fossem uma ninhada de cachorrinhos e deu algumas gargalhadas ao ouvir trapalhadas do dia na escola. Tirou do bolso um pacote de figurinhas e foi igualmente beijado. “Vamos lá, quem é que quer ir ao cinema com o papai?”
“Eu, eu, eu!”, ele ouviu, satisfeito e cheio de autoridade fácil.
“Ganhar dinheiro com sentimento dos outros é muito fácil”, disse a mãe, enquanto os via aceitar, quase acólitos católicos, a ordem de tomar banho para ir ao cinema. Já havia visto isso muitas outras vezes.
17.08.09 em: Segunda