Gargalhada
Tiana Maciel Ellwanger
“Você acha que é livre? Pois você não passa de um escravo do seu DNA, uma máquina de sobrevivência cuidadosamente montada para que replicadores nanicos, os genes, passem para as próximas gerações o maior número possível de cópias de si mesmos”.
A informação fez com que eu interrompesse a leitura para refletir, como fazia com os melhores livros de Filosofia. Sim, aquela matéria da SuperInteressante deixava-me inquieto. Após me imaginar como um escravo de “replicadores nanicos”, continuei a me colocar no meu lugar passageiro:
“Você nada mais é que uma máquina de sobrevivência para seus genes, um enorme robô ambulante”, o repórter (será que tinha filhos) continuava, simplificando com maestria a tese de biólogos radicais. Robô ambulante? Fechei os olhos e me transformei no robô-gigante dos Changeman dirigido por moléculas de DNA estranhas no comando.
Minha viagem pelos anos 80 acabou com a gargalhada do Pedro, que se divertia rasgando papel. Gargalhei com ele e alimentei sua felicidade com mais jornal.
Quando as páginas do já velho noticiário impresso estavam picadas, ele apontou para a revista na minha mão, que dizia:
“O mesmo vale para quando nos apaixonamos. Se você ama alguém, quer ter filhos com essa pessoa, quer colocar seus replicadores ali e se esfolar para cuidar dos rebentos. Aí, para o futuro dos genes, sua vida só faz sentido se aquela pessoa existir. E o sentimento é tão poderoso que parece eterno enquanto dura”.
Gritei por Clara na cozinha e fiquei olhando para ela, estava linda com aquele avental. Eu ainda a amava, mesmo sem ela poder me dar mais filhos, que eu já não queria. “Não sou escravo, viu?”, disse para o Pedro, que, com uma expressão de choro iminente, apontava novamente para a revista em minhas mãos. Clara perguntou se havia algum problema, respondi que só estava com saudades. Ela sorriu e voltou para a cozinha. Continuei:
“Responda rápido: se você tivesse que decidir entre a morte de 20 estranhos e a vida do seu filho, ficaria com qual opção? Ou melhor: existe algum número de pessoas que valha a vida de um filho? Para a psicologia evolucionista, não. Para o Zé Mané do boteco e a dona Cleide da quitanda também não. O egoísmo dos genes aí dentro é maior do que tudo o que tem do lado de fora”.Eu concordei. E dei a revista para meu filho rasgar e continuar a sorrir, enquanto na TV, milhares de pessoas morriam vítimas de um terremoto. Que maquininha de sobrevivência linda e trabalhosa era o Pedro, pensei enquanto destroçávamos juntos, aos risos, aquela revista colorida.
