Cuspindo caroços
Raquel C. de Medeiros

- É preciso saber escolher o pai dos seus filhos, ela desabafou, em tom de descoberta, depois de desligar o telefone. Eu e uma senhorinha éramos as últimas pacientes do dia e aguardávamos na sala de espera do consultório. A senhorinha concordou com a cabeça.
- Meu filho é um irresponsável…, completou, injuriada.
- Quantos anos ele tem?, perguntou a senhorinha.
- Trinta, mas parece que tem uns dezoito, ela vociferou.
- Mas você acha que a escolha do pai…, eu ia completar a frase e ela me interrompeu.
- Ah, claro…
- Estou na idade de escolher o pai dos meus filhos… provoquei.
- Vou te dar um conselho: não seja tola como eu fui. O pai dos seus filhos será para sempre o pai dos seus filhos, não tem jeito de mudar.
A senhorinha sorriu, cúmplice.
- Por que você acha que errou, heim?, questionei.
- Era deslumbrado, sabe, ele era deslumbrado e preguiçoso. Esse tipo de gente só gosta de si mesmo. Escolha um homem sério, confiável, que cumpra sempre as suas palavras, ela disse. Observe as coisas pequenas, eles sempre dão os sinais nas mínimas atitudes. A gente é que finge que não vê, completou, diminuindo o tom, como se estivéssemos compartilhando um segredo.
- Fuja também dos enrolados, que prometem, prometem e custam para cumprir as coisas- intrometeu-se a senhorinha. E corra também daqueles que usam palavras feias e fortes contra você. O seu filho vai fazer igualzinho.
- Estou anotando tudo, brinquei.
- É sério.., disse a secretária, arregalando os olhos. Sabe aquela história de que uma fruta estragada pode contaminar toda a cesta? Um pai mal escolhido é um problema que pode ir se multiplicando até arrancar a sua vontade de viver. Jogue fora os caroços antes de engoli-los, aconselhou.
- Minha mãe diz para eu me afastar dos homens dramáticos, que estendem as discussões e supervalorizam os pequenos desentendimentos, eu disse. Esses são pesados…
- Ih, ela tem razão, fuja desses chatos também, disse a senhorinha, rindo como se tivesse lembrando de alguém. São como limões.
- Você tem jeitinho de quem vai saber escolher, disse a secretária, piscando para mim.
- Será?, suspirei e fomos interrompidas pela paciente que saía do consultório.
Antes de eu entrar na sala, ela me puxou:
- Ah, e esqueci-me de uma coisa muito importante.
- O quê?
- Tem que ser do tipo que se preocupa em dedetizar a casa antes de se mudar.
- Hã?, sorri, estranhando aquele conselho.
- Um dia você vai entender, ela finalizou, antes de me colocar para dentro do consultório.
Anotado. E seria eu besta de me deixar esquecer?
