Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postEntre Atos

Luciene Braga

- “Calma, meu bem, eu posso explicar…”, ele respondeu, pensando no que diria, ainda tonto.
- “Obviamente, foi um engano. Um recado na secretária eletrônica desmarcando tudo, porque ela descobriu que você era… casado”, ela completou, irônica, fingindo um equilíbrio que nem em sonho já teve. A voz ficava meio estridente e meio grossa, escapando do tom de estudada. Mas o uísque ajudou, enquanto esperava que ele chegasse, despreparado para o açoite.
- “Filha, essas mulheres são loucas. Você dá o telefone, e elas já ficam imaginando que é chance de casar. Ela é corretora de imóveis, faz tudo para fechar um negócio”, ele explicou, tentando contornar o estrago, desastrado.
- “Eu pensei que ela queria abrir um negócio contigo. Aliás, seu negócio nem anda tão bem assim, depois da crise. Isso explica o recado. Aliás, você já foi mais sofisticado. Levar fora via secretária eletrônica?”, alfinetou.
-” Agora vai me esculachar? Pensa o quê? Você fique sabendo que esta mulher fez tudo para me seduzir. E me exibia para as amigas como se eu fosse um troféu”, ele atacou, sem conter o alívio de humilhá-la. “Sim, você é uma corna tão corna que nem merece o segredo dos que fingem dignidade”, pensou, antes de falar. Mas não falou, enquanto tentava olhá-la nos olhos, mas ainda não conseguia driblar a rigidez do pescoço tenso.
- “Troféu? De campeonato de pelada de quinta!”, aproveitou e desdenhou, ainda assustada com a coragem dele de assumir a culpa, apesar da arrogância incompreensível.
E pensou como ele podia se exibir assim. Começou a ficar com um medo estranho. Estranho, porque já não se importava, mas deu a entender que sim.
- “Então, você admite”, ela grunhiu, manhosa.
- “Quer que eu filme para você se convencer?”, abusou, sentindo-se mais forte. Nào conseguia conter.
- “Agora você passou dos limites!”, ela berrou, correndo na direção dele.
- “Você nunca me viu passar dos limites!”, gritou ele, e saiu, batendo a porta e descendo a rua, tão decidido que, meia hora depois, andando em círculos viu que não estava nem um pouco decidido. Ao contrário, ele não sabia para onde ir, o que dizia sobre a mulher era verdade. A corretora de imóveis não quis mais atendê-lo porque ele a enganou, dizendo que era solteiro. Achou que seria mais bem atendido. Pretendia fazer uma surpresa para ela. Para provar que também podia ser romântico. A acusação o assustou, mexeu com ele, e ele não sabia o que tinha dado em sua cabeça para falar tantas inverdades e destruir o seu casamento com somente uma conversa. Resolveu voltar e dizer toda a verdade a ela. A situação toda até que serviu para que ele se desse conta da força que tinha, mesmo que forjada.
Entrou em casa, porque a porta estava destravada, e ouviu a voz da mulher, eufórica e lânguida, falando com alguém ao telefone. Perplexo, ele retomou o caminho da rua. Dentro da cabeça, ecoavam as palavras dela: “Querido, eu simplesmente não acreditei. Nem precisei fazer esforço. Ele saiu, pensando que era o mais cruel e vingativo dos maridos. Agora, vem aqui consolar a mulherzinha traída, vem…”

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24.08.09 em: Segunda