Segunda a Sexta

  • "Aí você vê como tudo é frágil. Uma coisinha pode derrubar tudo"

    Chiquinho, do Mombojó, para a TRIP

    Tema da Semana: FRÁGIL

 

postHomem invisível

Tiana Maciel Ellwanger

          Com o controle remoto, apagou as luzes da casa. Pegou o elevador e pediu ao motorista para deixá-lo ali, naquele apartamento no Leblon, onde quase todos os convidados o conheciam e o bajulavam. Não hoje.

          Subiu pelo elevador de serviço, foi à cozinha e cumprimentou os que serviriam, junto com ele, os mais de cem convidados que em algumas horas estariam sem limites. Para a alegria dos contratados, pediu para servir pouco e limpar o que fosse necessário. E assim fez durante a festa: distribuiu espumantes, ofereceu vinhos tintos e brancos e caros, pediu licença para recolher os cacos de vidro no chão, que aumentavam conforme subia o grau etílico dos dançantes.

          Não ser notado foi mais fácil do que esperava. Na primeira meia hora, andava de cabeça baixa, virava o rosto ao encher as taças. Mas logo percebeu que ninguém olhava para seu rosto, que a única atração para aqueles homens e mulheres bem vestidos era o que levava na bandeja. Sim, estava gostando da experiência mais do que imaginava.

          Foi em direção à varanda. Ouviu seu nome e tremendo, por um momento, parou de limpar o piso branco estampado de vinho tinto.

         ― Ele não vai durar muito tempo na presidência. É muito passional. Lembra do dia que tremia ao falar à equipe que haveria demissões? Foi patético.

          Lembrou daquele dia triste e a sensação foi a mesma quando deu a notícia para os funcionários que o acompanhavam há anos. A angústia com a lembrança misturava-se agora à raiva com o comentário que acabara de ouvir. Quis continuar a escutar, mas achou arriscado.

          Na cozinha, os garçons riam da mulher de vestido longo que rebolava até o chão ao som de “Só as cachorras”. Ficou ali mais alguns minutos e divertiu-se, silencioso, com a autenticidade com que já não estava acostumado.

          Na varanda, novamente, o assunto ainda era ele. Surpreendeu-se com a defesa da secretária que nunca tinha olhado nos olhos. “O Jorge preocupa-se com as pessoas, defende o que acha justo”, ela dizia. “O cara cobre a careca com o cabelo para o lado. Só na Segure Bem isso acontece”, ria o homem que tantas vezes o substituiu em reuniões. Todos gargalhavam, até a secretária sorria, enquanto ele passava a mão no pouco cabelo e continuava a ouvir.

          “Gosto do Jorge, mas ele tem medo de arriscar. Uma seguradora vive de riscos, de ousadia. Não pode ter um medroso no comando”, acrescentava a mulher que ele promovera mês passado. As palavras que ele disse a ela, quando lhe comunicou o novo cargo, vieram a sua mente: “Olha, eu gosto muito do seu estilo, acho que tem muito a acrescentar à Segure Bem. Mas evite impulsos, lembra aquele contrato que você defendeu com a Voe Mais? Teríamos falido e estaríamos enfrentando processos de centenas de famílias que perderam seus entes queridos. Mas acho que você tem potencial”. A lembrança do sorriso dela com o dobro do salário e o triplo do prestígio ao sair da sala de reuniões quase fez com que ele atirasse, agora, a vassoura em sua direção. Quase.

          Ao ser deixado em casa, acendeu as luzes com o controle remoto, jogou-se na cama convidativa, esticou a coluna e assumiu a careca. Nos próximos meses, pensou, demitiria os infiéis, passaria mais tempo com a mulher, olharia nos olhos da secretária e, sim, seria garçom nas noites vagas.

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25.08.09 em: Terça