Linda blefadora
Raquel C. de Medeiros

Quando as estrelas de Ana são atiradas no chão, ela cria um céu literário para fazer brilhar a sua dor. E então pode novamente olhar para o alto e sorrir, ela, cujo maior talento é se esconder. Das indelicadezas, da solidão. O pique nunca está com essa moça porque é a dona da brincadeira. Sempre a procuram nos principais personagens, mas engana a todos e diverte-se, escondida onde ninguém aposta. Ana pode estar debaixo da saia rodada da voz secundária ou estendida sob a falta de pontuação de seus textos, é despontuada desde menina. E tem um jeitinho tão confiável que ninguém imagina: deixa pistas falsas entre as verdadeiras e leva todos aonde quer. Chegam a encostar em sua pele, a tatear seus pensamentos. Mas o pique ainda não está com Ana, a linda blefadora, como apelidou ele, o primeiro a descobrir as duas cores dos seus olhos. A ambigüidade dos escritores. Aquele que adivinha seus esconderijos e apaga a luz para garantir-lhe privacidade. E ficam se entreolhando na escuridão enquanto a leitura é eternizada nesse céu de colagens, onde as falsas estrelas são encontradas como se fossem preciosidades. Ela sorri, tão vulnerável e desprotegida como todos nós. E já não consegue disfarçar o medo de ser descoberta antes do ponto final.
27.08.09 em: Quinta