Segunda a Sexta

  • "Aí você vê como tudo é frágil. Uma coisinha pode derrubar tudo"

    Chiquinho, do Mombojó, para a TRIP

    Tema da Semana: FRÁGIL

 

postGrito

Aline Leal

A que a vida enrima
a sair de sua gruta?
Se na vida sou poeta
No poema sou uma puta
 
Se na vida sou uma pedra
sou o atraso, o pêndulo
da conduta
No poema aciono a seta
que assume, introduza
 
Se na vida sou uma reta
os quadrados, dos catetos
a hipotenusa
No poema sou a esfera
que por fora está inclusa
 
Se na vida sou uma guelra
em que o ar se entrecruza
No poema estou na selva
em que eu bicho
solto urras
 
Se na vida eu taciturno
e reclamo, em desespero
as correntes do obscuro
no poema eu discurso
o mesmo enredo
o mesmo sumo
eu grito junto

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30.09.09 em: Quarta

postIntolerância

Tiana Maciel Ellwanger

         Raimundo Gentil era o seu nome perfeito. Gentil era daqueles que aprendeu a amar o poder. Ou melhor, cedo percebeu que assim era mais fácil. Criado numa casa católica-apostólica-romana, seu pai era prefeito de Circo dos Goytacazes. Conviveu desde a infância com o glamour e chatices sociais que era obrigado a presenciar. E participar, mesmo que com a ausência reprimida. Gostava de rock’n roll para o desespero de Antonio Gentil, o pai.

         Margarida era a amiga que mais gostava, desde os treze. Era a preferida só dele, por sorte ou infantilidade dos colegas de classe. Sua voz grave na banda da escola acompanhou seus pensamentos mais sórdidos na adolescência passada nos longos banhos. Aos dezessete, era linda, voluptuosa, e linda, em curvas circulares, e linda. Dentes brancos como o de nenhuma outra mulher, apreciava. O pedido de casamento veio no terceiro mês, sem um beijo sequer.

          Ela aceitou, sem convencimento. Ou convencida pela mãe pragmática. Casaram-se e Gentil percebeu que sua atração por Margarida era nada. Era? E vendo Pedroso, naquela mesa de bar, olhando para as mulheres que não a sua, percebia, mesmo que sua consciência dissesse o contrário, que o que mais gostava nos bares era, sim, de Pedroso. Barbudo, forte, voz firme. Pedroso, que agora levava para seu banho longo. Era mesmo Margarida que levava para os banhos adolescentes ou apenas sua voz?, perguntou-se sabendo da resposta. E a descoberta da atração pelo homem que concordava com suas frases machistas, não tardou, o enlouqueceu. Enlouqueceu.

          Enquanto Margarida exibia-se com a nova lingerie comprada em Friburgo, detalhou o plano em sua mente. No dia seguinte, Pedroso agradeceu o convite ao telefone. Levaria o vinho uruguaio que ganhou de aniversário. Não, não, Enriqueta (mulher de Pedroso), não poderia vir, Gentil inventou desculpa de conversas futebolísticas e estratégicas, decisivas. Pedroso concordou. Estranhou por um momento, mas concordou.

         Gentil pediu a Margarida um jantar especial naquela noite, depois da noite prazerosa com ela, inspirada em Pedroso. À mesa, o amigo contava a história do presente uruguaio. Na verdade, era a terceira vez que falava do assunto, complementando-o com a bebida no copo de Margarida. Foi a deixa. Levantou-se, pegou a faca ainda não usada e afiada, e, à direita do homem sorridente, por um momento, teve vontade de sentir o seu cheiro mais de perto. O desejo acabou com qualquer possível desistência do plano raso. Colocou a faca na garganta dele, e de uma só vez, percorreu, com a lâmina, seis centímetros de seu pescoço.

          Margarida gritava com o sangue na mesa. Sem entender. Ele aumentou o som. “Hold my breath as I wish for death. Oh please God, wake me”. E falou as coisas mais absurdas que ela ouviria até chegar ao manicômio judicial. Aos policiais, Gentil disse que tentou segurá-la, mas que só conseguiu quando já era tarde. Eles acreditaram, ela, fraca, sem ação. A revolta só veio depois, na cadeia. Ele acertara: resolveu dois problemas com uma facada só. Com o perdão, leitores, do trocadilho infame.

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29.09.09 em: Terça

postDiminutivo

Luciene Braga

Estava cansado de tanta falácia retórica. Tinha de seguir hierarquicamente aquela anta de escarpin que dizia: “Poderia botar num envelopinho? Nossa, esse materialzinho que eu preparei foi elogiado pelo pessoal da mídia. Obrigada pela ajuda. Afinal, como está o seu filhinho? Melhorou daquela sinusite? Coitadinho…”, ela perguntou, enquanto comia um bombom barato.
Ela reunia, em uma frase que nem meio minuto durara, tudo o que ele abominava: infindáveis diminutivos da voz falsamente doce, o hábito patético de fazer o próprio elogio, o agradecimento (ele havia executado a eloquente ideia dela, com a ajuda, sim, de muitos orixás, e deu no materialzinho) e, por fim, a pergunta final, que retratava o quanto ela desprezava a vida privada dele. Colocar a sua filha no teatro o irritou profundamente. Ela nem se lembrava que ele tinha filha, não filho. Incrível como podia ser tão insuportavelmente barata.
Respirou fundo e respondeu. “‘Não é filho. É filha. E gastrite, não sinusite. Ela está bem. A crise foi há duas semanas. Felizmente, nem me lembrava mais do episódio. Mas fico grato por perguntar. E seu marido, continua desempregado?”, desferiu, com a maldade compensadora. Sabia que ele estava fora do mercado. Antes que ela respondesse, ele perguntou se o casamento não estava sofrendo as intempéries típicas de homens que passam períodos sem trabalho – e sem dinheiro para comprar paz diante de mulheres opressivas e arrogantes. Além disso, sabia que o cara passava mais tempo com a amante de 20 anos agora.
Uma adrenalina mais forte que a sua razão tomou-lhe apaixonadamente, e ele disse que conhecia um bom terapeuta para casais, enquanto ela engolia o chocolate, sem reação.
Sentiu, enfim, que dera o troco. E continuou a exibir segurança, com gosto de vingança por todas as vezes em que ela o irritou.
Ele disse que ela poderia contar com o apoio dele e chegou a abraçá-la, ao se despedir da conversa mais cruel que já experimentara. E divertida.
Ela jurou que continuaria esmagando o ego dele diariamente. “Obrigada, jamais esquecerei seu apoio. Vamos superar juntos essa fase. Com certeza, o mais breve possível”, ela respondeu, jogando a embalagem do chocolate na lixeira com design holandês completamente amassada. Que insuportável ele era.
Ele virou as costas e sorriu cínico, sabendo que ela o via pelo espelho.
Sentia-se bem.
Descobriu uma nova forma de extravasar ódio. Aprendeu a brincar. Direitinho.

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28.09.09 em: Segunda

postO auto da cigana

x Convidado Sábado x

Francisco Barbosa

             Mãe, mãe de verdade, faz tudo pela filha.

Sou cigana, prazer, ande, sente-se. Está confortável? Ótimo, só assim é que se vê sorte, sem ser assim é impossível. Diga-me, você crê em meu poder ou é só um engraçadinho? Não pense que eu não ouvi o seu risinho. Digo logo: eu sou cara, se você não acredita saia logo, não vale a pena para você. Filmar? Não, não, só faço isso a olho nu, se quiser pode gravar o som, mas a imagem não. Eu? Ah, entendi, você é um jornalista e quer fazer historia me desmascarando, né? Digo já: eu acerto em tudo. Sei, quer saber a historia da minha vida, bem, não acho que faz mal eu lhe dizer, mas então ponha um nome fictício como Maria ou Ana. Já que não quer saber o futuro vou fumar, de acordo? Ótimo, odeio não-fumantes, mas já lhe digo que não lhe darei nem uma tragada do meu! Consegui esse capetinha com dinheiro suado.

Antes eu vivia numa cidadezinha no nordeste. O nome? Coloca um nomezinho comum, como Santos ou Merdinha. Odiava lá. O padre da paróquia local costumava jogar água benta na minha filha e fazer má propagando de nós. Ah é, e ele nos chamava de filhas do coisa-ruim. Era um saco. Um dia voltando de um dia de trabalho vi meu marido se aproveitando de minha filhinha. Não tive duvidas, é como aquele cantor disse: Aja duas vezes antes de pensar. Parti para a briga com ele, lógico que ele me machucou pra caramba, era o meu dobro! Mas eu tinha uma vantagem: o facão de cortar porco tava do meu lado na briga. Não tinha dinheiro para fugir, então fiz o que me fez conhecer meu grande amor: pedi carona.

Vini era religioso, tinha um violão e adorava meter aquelas musicas de igreja na cabeça da Lucinha, mas eu não me importava de verdade não. Ele adorava aquela do Vinicius: Lá vem São Francisco pelo caminho, de pés descalços, tão pobrezinho…

Escuta aqui: você vai ficar só ouvindo e fazer gracinhas? Olha que paro de falar agora mesmo, é difícil contar essas historias para mim, ok? Eu to me sacrificando aqui.

A vida com o Vini era uma eterna viagem. Ele era caminhoneiro e deixávamos Lu com a minha sogra no Rio, nas férias a levávamos pros lugares. Ganhei peso, obviamente, o dia inteiro sentada naquele banco. Um dia por meados de dezembro aconteceu algo terrível…

Desculpe, eu não costumo chorar assim na frente de estranhos, eu vou parar juro. Até aquele dia eu era atéia convicta, nem cigana eu era, o padre me chamava daquelas coisas que eu disse ha pouco tempo porque eu cantava musicas comunistas na porta da igreja alem de vender meu corpo de vez em quando.

Foi triste sim esse dia. Eu sei que você não vai acreditar, mas Deus o mandou aqui, eu nunca falei isso para ninguém e eu preciso desabafar. Você vê: eu amava Vini mais que tudo. Naquele dia estúpido, o babaca errou a curva e a caminhonete caiu barranco abaixo. Eu consegui sobreviver, eu estava no banco de trás de cinto e a minha filha insistiu para deixarmos ela ir na frente, nesse momento uma coisa estranhíssima me aconteceu: eu vi Maria, Nossa Senhora.

Pare, não vou discutir com você se ela é virgem, santa ou se mesmo ela existiu, o negocio é que eu vi mesmo ela lá! Estava parada me olhando com um vestido branco me encarando com um sorriso acolhedor no rosto. Ela falou que eu tinha que escolher entre o amor de minha vida e minha filha, carne da minha carne, para sobreviver. Maldita ela por colocar em minhas mãos essa decisão! Só dois dias de minha vida que eu chorei: esse que eu estou relatando e o de hoje! Deus me perdoe, eu escolhi a vida dela.

Não sei se escolhi certo ou errado. Nossa Senhora me deu a benção (se bem que eu prefiro o termo ‘maldição’) de ver o futuro desde então. O senhor não imagina as desgraças que vão cair sobre nós.

Acho que minha filha também está desenvolvendo esse dom, vivemos agora com a caminhonete consertada a visitar cidades, em eterna viagem. Acho que é tudo que tenho a contar ao senhor. Me perdoe pelas lágrimas.

“Há muito tempo deixara a vergonha para trás; da mesma forma que o temor a Deus, o amor ao pai e a preocupação com as opiniões dos homens. Dizia-se que era possuída por sete demônios, mas seu coração não continha sete demônios; e sim, sete facas cravadas” (Nikos Kazantzakis descrevendo Maria Madalena em “A Ultima Tentação de Cristo”)

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26.09.09 em: Sábado

postSentidos…

Gazza

Euforia
Eu poria
Eu faria
Eu queria
Eu seria
Toda essa alegria
Do amor em alforria

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25.09.09 em: Sexta

postCanção da sorte

Raquel C. de Medeiros

Dont wait too long

     Estava cada vez mais longe daquela que ainda amava. A dor, insistente, parecia que não o abandonaria tão cedo, mas lá no fundo sabia que aquele era seu caminho. O caminho da paz. Da serenidade. No fundo sabia, mas ainda não se acostumara àquele novo mundo sem sua presença. Era como se tudo estivesse apagado e ele precisasse tatear os acontecimentos em busca de um fio de luz. Sentia vontade de ficar deitado eternamente porque sabia que levantar exigiria esforço. E, sem querer, ainda pensava em dividir com ela a cena engraçada do seriado. Os filmes que ainda entrariam em cartaz. Tentava livrar-se daquela melancolia quando uma voz o despertou.
     E foi como um encanto: sentiu o corpo esquentar, o coração bater disposto. Selvagem. Sometimes you got to lose it all, before you find your way. E os novos acontecimentos entravam quase realizados em seu pulmão gigante de dono do mundo. If you think that time will change your ways. Don’t wait too long.
     E ele já não tinha um só segundo para esperar. Estava vivendo menos do que podia e seu corpo, de repente, pedia inundações. Parem o mundo porque eu preciso subir, pensava, inquieto, os planos puxando sua alma para o lugar sagrado dos milagres. Os passos decididos quase afundavam o chão e puxavam a sorte, a sorte que vem fácil quando a pisada é firme. Take a chance, play your part, make romance, it might brake your heart. But if you think that time will change your ways. Don’t wait too long.

Naquela mesma noite já não tinha certeza se encontraria um caminho tão motivador.
Apagou o abajur antes que o desânimo roubasse sua sorte.
Talvez no dia seguinte nada daquilo fizesse mais sentido.
Mas tudo bem: já tinha feito.

Don’t wait too long
Madeleine Peyroux

You can cry a million tears
You can wait a million years
If you think that time will change your ways
Don’t wait too long

When your morning turns to night
Who’ll be loving you by candlelight
If you think that time will change your ways
Don’t wait too long

Maybe I got a lot to learn
Time can slip away
Sometimes you got to lose it all
Before you find your way

Take a chance, play your part
Make romance, it might brake your heart
But if you think that time will change your ways
Don’t wait too long

It may rain, it may shine
Love will age like fine red wine
But if you think that time will change your ways
Don’t wait too long

Maybe you and I got a lot to learn
Don’t waist another day
Maybe you got to lose it all
Before you find your way

Take a chance, play your part
Make romance, it might brake your heart
But if you think that time will change your ways
Don’t wait too long
Don’t wait
Hmm… Don’t wait

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24.09.09 em: Quinta
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