Estômago
Aline Leal
Fizeram uma aposta e, quem vencesse, deveria preparar um jantar para os dois. Montar o menu, comprar os ingredientes, pilotar o fogão, colocar a mesa e, depois de tudo, deixar a cozinha um brinco. E a condição era que a refeição fosse à luz de velas, os pratos, finamente servidos, que o maître escolhesse também a bebida mais adequada à degustação, que houvesse entrada, prato principal e sobremesa, ao fundo tocasse uma música que estimulasse os sabores, enfim, que todo o programa remetesse a romantismo. Ah, era importantíssimo surpreender.
Então, apresentaram suas restrições:
Juliana disse que por favor ele não viesse com a idéia de apresentar um cardápio japonês, peixe cru, frio, fedorento, todas aquelas coisas nojentas e gelatinosas: sushi, sashimi, urakami, temaki. Ele sabia muito bem que ela não curtia japonês, que não havia entrado nessa modinha de “fracassados” e, embora Heitor tivesse hesitado torná-la sua namorada após ter tomado consciência disso, a recusa já era um fato consumado. Aliás, nada de carne crua (kibe cru, carpaccio)— já inventaram o fogo, a conta de gás está em dia, e você tem panelas suficientes para o serviço.
Heitor, por sua vez, exigiu que Juliana não lançasse mão daquilo que chamava de “minhas especialidades”: macarrão (cortado) à primavera; fritada de queijo, abóbora, tomate e salsicha (nem tudo que é gostoso combina); miojo com todo o requeijão que resta na geladeira, ovos e bacon (dias inteiros de flatulência). Não queria ser chato, mas esperava um jantar requintado, feito com amor, e não a gororoba sem classe que ela costumava comer. Chegava a achar que se dera mal na aposta, mesmo assim não aceitaria que Juliana encomendasse uma comida ou lhe pagasse um jantar: queria vê-la com a mão na massa.
Juliana refletiu sobre qual seria seu trunfo caso perdesse a aposta (o que achava pouco provável). Entrada: ovinho de codorna com molho rosê e tirinhas de frango à milanesa (para chafurdar no mesmo molho). Prato principal: arroz à grega, bife à milanesa, tutu de feijão, molho vinagrete e salada de batata. Sobremesa: brigadeiro com biscoito de maisena e marshmallow. Para ajudar a descer a comida: sangria.
Heitor, após maquinar sobre o assunto, chegou ao seguinte cardápio: para começar mini-quiche de queijo brie com geléia de damasco. Como prato principal: risoto ao funghi, fricassê de camarão e purê de batata-baroa. Grand Finale: crème brûlée e galletitas de nozes. Para ser degustado com: vinho do Porto branco (aperitivo); vinho tinto vintage (ao longo da refeição), passando para prosecco chegado o momento da sobremesa.
A aposta residia na seguinte questão etimológica: a origem da palavra “enfezado”. Segundo Juliana, na época colonial os escravos carregavam barris de fezes dos seus senhores e, volta e meia, eles rompiam despejando todo o seu conteúdo nesses pobres homens que ficavam putos da vida, portanto, enfezados. Já Heitor achava que a Ju estava viajando e tinha a seguinte explicação: literalmente, enfezado quer dizer cheio de fezes, aquele sujeito que está com constipação intestinal, prisão de ventre e, assim, desenvolve um comportamento irritadiço.
Mas então chegaram ao veredicto: enfezado origina-se do verbo latino “infenso”, que significa “ser hostil a”; “fezes” vem do substantivo “faex”, “faecis”, que significa “lama, resíduo, sedimento, fezes”. Sendo assim, Juliana faz o mercado, Heitor cozinha e dividem a louça.
02.09.09 em: Quarta
Ao começar o texto, achei que pudesse ser baseado em alguma história, até ler que Juliana não gostava de comida japonesa…
Morri de rir ao ler a aposta. Quer dizer que estávamos todas erradas??? E eu que tinha tanta certeza que tinha aprendido a origem da palavra na escola (não lembro se em aula de português ou de biologia…)
Beijocas!
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Achei ótima a definição do “cardápio japonês”. Juliana teve a coragem de dizer o que muita gente acha, mas não fala. Nada como arroz, feijão, bife e batata frita (comida de criança). A versão de Juliana sobre a palavra “enfezado” faz todo sentido, afinal os escravos ficavam realmente “cheio de fezes”, o que concorda com a definição de Heitor(risos). O dicionário também está certo. Afinal quem não fica hostil nas duas situações? Não sei como Heitor cozinhará o mercado feito por Juliana…O verdicto está dado: ambos lavam a louça. Que bênção!!!
Parabéns! O conto é ótimo.
Bjs, Lúcia
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hahaha adorei. Mas fiquei curiosa: qual foi o cardápio?
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Muito bom. Hilário!!
Pelo estômago preferia que eitor tivesse perdido a aposta. O prato requintando dele dá de 10×0 no da Juliana.
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