Segunda a Sexta

  • "Quando ela mente/ Não sei se ela deveras sente/

    O que mente para mim"

    Chico Buarque, em 'Ela faz cinema'

    Tema da Semana: CINEMA

 

postO BORDEL DAS MOÇAS FEIAS

x Convidado Sábado x

Por Marcus Veras

CHEGUEI À VILA DE COMENDADOR OLEGÁRIO LÁ PELAS SEIS, SETE HORAS DA NOITE. AO SALTAR DO VELHO ÔNIBUS, LOGO PERCEBI QUE TINHA SIDO EM VÃO AQUELA ESCALA. EXPLICO: JOVEM AINDA, CORRIA OS INTERIORES COM UMA MALA DE LONA CHEIA DE AMOSTRAS DE MEDICAMENTOS COMO O “XAROPE PACA TATU”, O CREME “LISA FEITO BEBÊ”, O TIRA-CALOS “RASPADINHA DO AGRIÃO” E O CÉLEBRE “REGULADOR XAVIER”, BEBERRAGEM QUE NÃO PODIA FALTAR EM CASA ONDE HOUVESSE DAMA. ANOTAVA OS PEDIDOS EM UM ENORME BLOCO DE FOLHAS COLORIDAS, E DEPOIS TRANSMITIA PELO TELÉGRAFO PARA A MATRIZ, EM BELO HORIZONTE. O RESTO DA OPERAÇÃO FICAVA POR CONTA DOS CORREIOS.

MINHA COMISSÃO SÓ CHEGAVA QUANDO O COMPRADOR INTEGRALIZAVA O PAGAMENTO, MAS QUEM SE IMPORTA COM ISSO AOS VINTE E POUCOS ANOS? MEU IMPULSO ERA VARAR AQUELAS TERRAS MINEIRAS DE PONTA A PONTA, CONHECENDO CADA RECANTO, CADA PÉ DE SERRA, CADA BEIRA DO RIO QUE CRUZASSE MEU CAMINHO. MAS COMENDADOR OLEGÁRIO – QUE ME PERDOE A BOA E ACOLHEDORA GENTE DAQUELE TORRÃO! – ERA UM CEMITÉRIO PARA QUALQUER VENDEDOR. UMA PRAÇA, DUAS RUAS SEM CALÇADA, A IGREJA MEIO TRONCHA, MUITO NECESSITADA DE UMA REFORMA COMPLETA, E UM ARMAZÉM QUE OSTENTAVA, PELO MENOS ÀQUELA HORA, O ÚNICO PONTO DE ELETRICIDADE NO LOCAL.

O ARMAZÉM ERA AO MESMO TEMPO BOTICA, POSTO TELEFÔNICO E FUNERÁRIA (O DONO QUIS ME MOSTRAR OS CAIXÕES NO DEPÓSITO, MAS DECLINEI DO CONVITE). INFELIZMENTE, NADA DO QUE EU TRAZIA EM MINHA MALA DE LONA INTERESSAVA, POR ISSO TRATEI DE BUSCAR LOGO UM POUSO SEGURO PARA AQUELA NOITE.

AQUI NÃO HÁ NENHUMA PENSÃO, MAS SE O SENHOR SEGUIR AQUELA TRILHA QUE COMEÇA ATRÁS DO CAMPO DE FUTEBOL, CERTAMENTE VAI ACHAR UM QUARTO, ME EXPLICOU COM O OLHAR MALICIOSO O COMERCIANTE. RAPAZ NOVO AINDA, DESCONHECEDOR DAS MALDADES DESTE (E DO OUTRO) MUNDO, ACEITEI A SUGESTÃO E APERTEI O PASSO PARA APROVEITAR O RESTO DE LUZ QUE A NOITE AINDA NÃO ENGOLIRA DE TODO.

À MEDIDA QUE ME AFASTAVA DA VILA, O CÉU E SUAS MAGNIFICÊNCIAS IAM ME ATIRANDO PARA DENTRO DA BOCA DA NOITE.  AH, O CÉU DO INTERIOR! AO FINAL DA TRILHA REALMENTE HAVIA UMA CASA, MAS A LUZ VERMELHA QUE, DISCRETA, ALUMIAVA O SÃO JORGE AO LADO DA PORTA, NÃO DEIXAVA DÚVIDAS: ERA A ZONA.

FUI RECEBIDO POR UMA COMISSÃO QUE MAIS PARECIA UMA TRUPE DE CIRCO. À FRENTE, A GORDA MATRONA PERFUMADA E PATETICAMENTE MAQUIADA, EXIBIA JÓIAS FALSAS COMO OS DENTES, MUITO BRANCOS.

MAS QUE HONRA, EXCLAMOU SORRIDENTE.

JESUS, UM HOMEM ÀS SETE DA NOITE, COMENTOU UMA ANÃ, A CARA BORRADA EM CARMIM.

ZELMIRA, NÃO ESPANTE O RAPAZ COM SUA VOZ DE TAQUARA RACHADA, RESMUNGOU UMA MULHER ALTA, MAGRA E CHEIA DE ACNE COMO UM GABIRU DANTESCO.

ERAM, SEM DÚVIDA, AS MULHERES MAIS FEIAS DE TODA MINAS GERAIS – E NÃO ARRISCO A DIZER DO PLANETA PARA NÃO PARECER SOBERBA, PECADO CAPITAL QUE A PROVIDÊNCIA DIVINA COSTUMA CASTIGAR IMPIEDOSAMENTE.

SORRI COM INOCÊNCIA E PEDI UM QUARTO.

AQUI O QUE NÃO FALTA É QUARTO, DISPAROU CURTA GARGALHADA UMA NEGRA CAOLHA E GORDA.

É PARA DORMIR, COMPLETEI, SEM GRAÇA.

MADAME PUXOU-ME PELO BRAÇO E INTRODUZIU-ME NA CASA CAIADA DE JANELAS AZUIS. A SALA, COM ALGUMAS MESAS DE DUAS CADEIRAS, ESTAVA POUCO ILUMINADA POR UM LAMPIÃO. NA PAREDE, A INELUDÍVEL ESTAMPA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS. NA VITROLA, AGOSTINHO DOS SANTOS DESFIAVA SEUS BOLEROS, “AQUELES OLHOS VERDES, TRANSLÚCIDOS, SERENOS…”.

COMO É SEU NOME, MEU FILHO?

MATEUS, RESPONDI, A MÃO PESADA DA MARAFONA TIRANDO A MALA DE MINHAS MÃOS E ME GUIANDO ATÉ UMA MESA.

NOME DE EVANGELISTA… QUAL É A SUA IDADE?

VINTE SETE ANOS, MENTI, SOMANDO PELO MENOS DOIS A MAIS.

MAS É UMA CRIANÇA… PODIA SER MEU FILHO!ESTÁ COM FOME?

UMA CEIA NÃO IA MAL…

JOVELINA, PROVIDENCIE UMA CANJA PARA NOSSO HÓSPEDE!

LOGO EM SEGUIDA SURGIU UMA CERVEJA, UMA PEQUENA CESTA COM ALGUNS PÃES – NÓS É QUE FAZEMOS, EXPLICOU-ME ORGULHOSA A DONA DO LUPANAR. PROVEI E APROVEI, ERAM DELICIOSOS. CHEGOU A CANJA E ME ALIMENTEI COM GOSTO, DIANTE DO OLHAR DE APROVAÇÃO DE TODAS AS MULHERES. REFEITO DA LONGA VIAGEM, PEDI OUTRA CERVEJA, QUE CHEGOU SEM DELONGAS. APÓS TOMÁ-LA SEM PRESSA, CONVIDEI MADAME PARA UM BATE-COXA.

MAS… LOGO EU?

OLHOU EM VOLTA COMO SE APRESENTANDO O ELENCO DE SUAS MULHERES, MAS CONSIDEREI QUE SERIA DE BOM TOM FAZER UM AGRADO, UM CARINHO, UM CHAMEGO EM QUEM ME RECEBERA TÃO BEM. TOMEI-A EM MEUS BRAÇOS E EVOLUÍMOS PELA SALA NA PENUMBRA. ENTRETIDO NA DANÇA, NEM PERCEBI QUE ALGUNS OUTROS HOMENS CHEGARAM À CASA DE TOLERÂNCIA.

ERAM TODOS MUITO RÚSTICOS, COM SEUS CIGARROS DE PALHA, CALÇAS SUJAS DE BARRO,  O OLHAR QUASE SEMPRE NO CHÃO COMO SE PEDISSEM ABSOLVIÇÃO ANTECIPADA AO JESUS NA PAREDE PELO PECADO QUE ESTAVAM EM VIAS DE COMETER.

OFERECI A PRÓXIMA DANÇA PARA A FALSA LOURA QUE DERRAMAVA SEU DECOTE EM UM VESTIDO BEM ESGARÇADO, E PERCEBI QUE A ANÃ SE POSICIONAVA ESTRATEGICAMENTE PARA SER A SEGUINTE. AQUILO ME CAUSOU CERTA ANGÚSTIA: SERÁ QUE EU TERIA QUE PEGÁ-LA NO COLO? ATRÁS DELA, A ENORME NEGRA CAOLHA TAMBÉM ESPERAVA SUA VEZ, E COMECEI A FICAR PREOCUPADO, POIS A FILA SÓ FAZIA AUMENTAR.

ALÉM DO MAIS, AS CERVEJAS E AS PERNAS ESTAVAM ENTRANDO EM ROTA DE COLISÃO. NUNCA FUI FORTE PARA BEBIDA, E O CANSAÇO COMEÇAVA A FAZER SEU ESTRAGO. ERA O MOMENTO PERFEITO PARA PEDIR UM QUARTO. APROVEITEI O FIM DE MAIS UM BOLERO – TALVEZ, TALVEZ, TALVEZ… – LIBERTEI-ME DA FALSA LOURA E SEU PERFUME DE CAPIM-DOCE, IGNOREI A FILA DE MULHERES JUNTO À PORTA E DIRIGI-ME À MADAME.

BEM, ACHO QUE AGORA UM QUARTO…

COM UM TERRÍVEL ESTRONDO, A ESTAMPA DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS ESPATIFOU-SE NO SOLO. VINGANÇA DO TODO PODEROSO? NÃO FIQUEI PARADO: FOI O TEMPO DE APANHAR MINHA MALETA E MERGULHAR PELO CORREDOR, ENQUANTO O LAMPIÃO TAMBÉM ERA ABATIDO, AFUNDANDO A SALA EM TENEBROSA ESCURIDÃO: TIROS!

CORRI COMO SE TIVESSE – TALVEZ FOSSE VERDADE – COM TODOS OS DIABOS EM MEU ENCALÇO, ENTREI NA ÚLTIMA PORTA À ESQUERDA E MERGULHEI SEM PESTANEJAR SOB A CAMA LARGA QUE QUASE NÃO CABIA NO QUARTO. AINDA DEI COM A TESTA NO URINOL, GRAÇAS AOS DEUSES VAZIO. ENQUANTO RESPIRAVA FUNDO PARA TENTAR DETER O MEDO QUE ME SUBIA PELAS PERNAS E ARRISCAVA AFROUXAR A BEXIGA, PERCEBI QUE NÃO ESTAVA SÓ. O RONCO DE UMA RESPIRAÇÃO MEIO ASMÁTICA SUPLANTAVA O MEU.

LÁ FORA, O TIROTEIO CONTINUAVA, BARULHOS DE OBJETOS SE QUEBRANDO, VIDROS PARTIDOS, PORTAS ARREBENTADAS. DE REPENTE, SILÊNCIO.

JESUS… GEMI.

ISSO NÃO É HORA DE CHAMAR O SALVADOR, DISSE UMA VOZ BEM AO MEU LADO.

O QUE ESTÁ HAVENDO?, OUSEI SUSSURRAR.

SÃO OS CAPANGAS DO CORONEL FIRMINO. ESTÃO CAÇANDO O CABRA QUE DESONROU A FILHA DELE.

SÓ POR ISSO?

PARECE QUE PASSOU A MÃE NA CARA TAMBÉM. A VELHA MAIS PARECE UMA UVA-PASSA, MAS NÃO TEVE PERDÃO…

O TIROTEIO RECOMEÇOU POR ALGUNS SEGUNDOS, PAROU NOVAMENTE. EU TREMIA SEM PARAR, AINDA MAIS PORQUE ACHEI QUE MEU COMPANHEIRO DE REFÚGIO ESTAVA SABENDO MUITO SOBRE AQUELA HISTÓRIA TODA. E SE NÃO TEVE DÓ DO BRIOCO DA FILHA DO CORONEL, MOÇA DE RECURSOS E BEM NASCIDA, O QUE DIZER DE MIM, DE FAMÍLIA HONESTA, PORÉM POBRETONA?

CHEGOU A HORA DE ALGUÉM ENFRENTAR ESSES CAPACHOS DE CORONEL: NÓS VAMOS RESISTIR, O BOCA-DE-FOGO SENTENCIOU.

NÓS QUEM? NEM ME ARRISQUEI A FAZER A PERGUNTA, MESMO PORQUE LOGO EM SEGUIDA SENTI UMA COISA DURA ENCOSTAR-SE À MINHA PERNA. TEMENDO PELA RESPOSTA, NEM PERGUNTEI, MAS A EXPLICAÇÃO VEIO EM SEGUIDA.

É UM TRINTA E DOIS DE SEIS TIROS, PIPOCA QUE É UMA BELEZA.

COM O PENSAMENTO A MIL, TRATEI DE ARRUMAR UMA DESCULPA COM TODA A RAPIDEZ QUE O MOMENTO EXIGIA.

ME DESCULPE, MAS NÃO POSSO ACEITAR. FIZ UMA PROMESSA A SÃO LÁZARO QUANDO FIZ DEZOITO ANOS DE JAMAIS EMPUNHAR UMA ARMA.

MAS QUE DIABO DE PROMESSA MAIS SEM SENTIDO! QUAL FOI O MOTIVO?

FOI ME CURAR.

CURAR DE QUÊ?

DA… DA… DA LEPRA.

FICOU UM SILÊNCIO QUE DAVA PARA OUVIR O CHORO DAS MOÇAS LÁ FORA.

E SE CUROU?

BEM, ELA FICOU BEM FRAQUINHA…., RESPONDI, E , AGONIADO, TENTEI ESPICHAR AS PERNAS, ESBARRANDO NO INDIGITADO DESCABAÇADOR.

SE ENCOSTAR DE NOVO EM MIM EU PASSO FOGO EM VOCÊ, SEU LAZARENTO FILHO DE UMA PUTA! VOU CONTAR ATÉ TRÊS PARA VOCÊ SE ARRANCAR DAQUI! UM…

NEM PRECISOU DE TANTO. ME ARRASTEI PARA FORA DO ESCONDERIJO, BATI COM A CABEÇA DE NOVO NO URINOL, E SAÍ DO QUARTO COM AS MÃOS PARA CIMA, A MALA PESAVA QUASE CEM QUILOS. DEI DE CARA COM UM CAPANGA ENORME, WINCHESTER 44 NA MÃO DIREITA, QUE AO ME VER LOGO PERCEBEU QUE EU NÃO ERA HOMEM PARA PROEZA DE TAL ENVERGADURA, E BOTA VERGA DURA NISSO.

ATRAVESSEI A COZINHA EM DOIS PULOS, LOGO ESTAVA NO QUINTAL, DALI NA TRILHA, E QUANDO ME AFUNDEI NO MATO RECOMEÇOU O BALACEIRO. DE VOLTA À PRACINHA DE COMENDADOR OLEGÁRIO, A CIDADE PARECIA TER SIDO TOMADA POR FANTASMAS, NENHUMA LUZ ACESA, NENHUMA JANELA ABERTA. DORMI DEBAIXO DE UM BANCO DE CIMENTO, ACORDEI COM UM CACHORRO A LAMBER-ME A CARA, MAS LOGO CHEGOU UM ÔNIBUS PARA ME TIRAR DALI.

DESPEDI-ME DE COMENDADOR OLEGÁRIO E NUNCA MAIS VOLTEI. AFINAL SAÍ DALI NO LUCRO: A PELE SOBRE OS OSSOS E AS PREGAS INTACTAS, O QUE NÃO É POUCA COISA PARA AVENTURA TÃO DESCABELADA. VOCÊ NÃO ACHA?

[Post to Twitter]  [Post to Delicious]  [Post to Digg]  [Post to StumbleUpon] 

17.10.09 em: Sábado