Segunda a Sexta

  • "Aí você vê como tudo é frágil. Uma coisinha pode derrubar tudo"

    Chiquinho, do Mombojó, para a TRIP

    Tema da Semana: FRÁGIL

 

postHoróscopo

x Convidado Sábado x

Por João Jr.

“Plutão na casa de sagitário torna essa uma ótima época para resolver assuntos pessoais inacabados. Resista à tentação de apenas esquecer e admita a falta que algumas pessoas fazem.”

      E esse era o meu horóscopo do dia. Se eu acreditasse em horóscopo, talvez fizesse algum sentido. Mas eu sinceramente não acredito. Na verdade não é nem “não acreditar”. Afinal, eu também não acredito em vida fora da Terra, em políticos, na polícia, em funcionários públicos, em ex-namoradas, mas com a astrologia é diferente. Eu não só não acredito, como acho uma imensa babaquice, dessas que dão vontade de bater em quem acredita. Afinal, como eu posso acreditar em astrologia se o planeta que “rege” meu signo nem é um planeta? Plutão agora é só uma bolota gelada, não?

      Por isso foi muito estranho o jeito como uma previsão idiota dessas mexeu comigo. Óbvio, não tinha sido a previsão que tinha mexido comigo, não tinha nada a ver com sinais, com pistas do destino, tinha a ver com um assunto inacabado no qual eu não tinha conseguido parar de pensar nos últimos dias. Semanas. Meses?

      ”Desde que eu e ela tínhamos brigado e a minha última frase tinha sido um “olha, não temos mais nada pra conversar” (a dela tinha sido mais…contundente… “morra, seu perdedor covarde!”), ela não saía da minha cabeça. Estranho, já que tudo tinha terminado desse jeito exatamente porque eu não dei atenção o bastante pra ela, menti, coisas do tipo. E se me lembrava bem, porque eu fui um imbecil. O caso clássico: garoto conhece garota, os dois se apaixonam, garoto age como um imbecil. Simples e bonito como toda história é.

      Pensei em telefonar. Telefonar seria uma boa. Não, não seria. Ela provavelmente já estava namorando um cara, desses espetaculares, desses que eu você gostaria que namorassem a sua filha, e um telefonema atendido por um namorado era tudo que eu não precisava pra me sentir ainda pior. Deixei a idéia de lado. Horóscopo é pra babacas.

      Cheguei em casa meio bêbado. De novo. Beber fazia com que dormir fosse mais fácil e mais divertido. Infelizmente fazia com que tomar banho fosse uma atividade extremamente arriscada e acordar fosse uma droga, mas eu estava numa fase Rick Blaine de não me preocupar com o futuro distante que aconteceria dali a oito horas. Deitei no sofá da sala e fiquei olhando pro teto. Peguei o controle, liguei a TV e procurei alguma coisa pra assistir, mas rapidamente notei que o teto ainda era a minha melhor opção.

      Bêbado, no meio da noite, sem nada pra fazer, brincando de passar o celular de uma mão pra outra. Esse era um cenário tentador demais. “Resista à tentação de apenas esquecer e admita a falta que algumas pessoas fazem.” Pensei num leve ensaio do que eu diria. Telefonar, perguntar se ela ainda se lembrava de mim. Ela, surpresa pela hora, pela ligação, diria, com um leve tom de irritação, que sim. Então eu começaria uma sequencia de declarações, intercaladas com piadas charmosas, sobre como eu sentia falta dela, como ela tinha sido a melhor coisa que aconteceu na minha vida (pelo menos num período relativamente extenso de tempo) e como eu tinha sido um idiota. Tudo muito legal, se não pelas piadas charmosas. Eu nunca soube fazer isso direito. Mas na hora parecia uma boa idéia.

      Sentei, apoiei a cabeça na beirada do sofá e liguei. Ignorei o relógio avisando que eram 02:17 da manhã. Era complicado, mas eu ignorei. O telefone chamou. Chamou bastante, pra ser sincero.

      “Alô…Quem é?”

      “Hummm…Bem, sou eu, Adolfo, lembra de mim?”

      Silêncio. Na verdade silêncio não era bem o que eu esperava. Assim como aquela voz que variava entre cansada e nervosa. Tentei pensar que não era nada contra mim e sim contra ser um bêbado no meio da madrugada. Nada pessoal, digamos assim. E mais silêncio. Mas eu sabia que ela tinha reconhecido a minha voz. Eu tinha reconhecido a dela.

      “Adolfo? Não…Não me lembro de ninguém com esse nome…”

      Minha vez de ficar em silêncio.

      “É..Devo ter ligado pro número errado.”

      “É, você ligou sim.”

      Deitei, olhei pro teto e fechei os olhos.

      Horóscopo definitivamente é pra babacas. 

[Post to Twitter]  [Post to Delicious]  [Post to Digg]  [Post to StumbleUpon] 

24.10.09 em: Sábado



12 Comentários »

  1. [...] a Sexta” como autor convidado, com um conto chamado “Horóscopo”. Para ler clique aqui. Ah, e obrigado Tiana pelo convite, pela boa vontade e pela carona aquele dia no vôlei. Valeu) [...]

  2. Raquel disse:

    Texto delicioso. Parabéns!
    Beijos,
    Raquel

    [Responder este comentário]

  3. Tiana disse:

    Adorei o ritmo, a história, os detalhes! Muito bom mesmo!

    [Responder este comentário]

  4. Lúcia disse:

    João,

    Não lhe conheço e me sinto sempre constrangida a fazer um comentário que não seja gratificante para o autor. Eu li também o outro que vc colocou.
    No entanto, li o seu conto no sábado, reli no domingo, e vou dizer, de coração aberto o que senti. Gostaria que vc me deissesse o que acha.

    O conto vai muito bem até começarem os diálogos. Eu senti que eles roubaram toda a introspecção do eu-narrador. Li, reli, como disse. Parei aqui: “Sentei, apoiei a cabeça na beirada do sofá e liguei. O telefone chamou. Chamou bastante, para ser sincero.” “Deitei, olhei pro o teto e fechei os olhos.” Assim, para mim, está pleno. Segue na linha anterior, das sucessivas imaginações do personagem. Coincide com o título “Horóscopo”, uma previsão.

    O que acha?

    [Responder este comentário]

  5. João disse:

    Bem, primeiro obrigado pela opinião e pela crítica. Eu acabei relendo o texto todo depois do seu comentário e achei duas linhas de pensamento pra responder isso (lembrando sempre que eu realmente não tenho controle ou consciência o bastante do que eu escrevo pra dizer que a decisão tenha sido proposital) e acho que elas tem muito a ver com o que cada um de nós acha da questão do “horóscopo”:

    a)O conto é sobre o conflito entre o que você imagina e o que é real, expectativa e resultado. O baque entre o pensamento e o diálogo é exatamente o choque entre o que o narrador espera e controla e o que está acima do poder dele. Pra mim a questão do horóscopo está aí, na previsão que falha, no que se espera mas foge do controle.

    b)O conto poderia parar onde você imaginou. Seria completo, de uma certa forma, mas completo porque nunca saberíamos se a previsão era verdade ou não, ficaria tudo na mente do narrador, como uma previsão que nunca se comprova nem se desmente. Mas aí é uma outra visão de horóscopo.

    (E bem, eu não sou exatamente um grande escritor de diálogos, pode ser que a culpa seja disso também.rs)

    [Responder este comentário]

    Lúcia Reply:

    Obrigada por responder-me, João.

    É que eu sinto assim, como você falou, “uma previsão que nunca se comprova nem se desmente”. Tudo ficaria na mente do narrador. E, por consequência, na do leitor…Assim, me dei ao direito de fechar os olhos e sonhar.

    A previsão que falha, o que esperamos e nos escapa, é da vida.É humano.

    Qual o seu signo? (risos)

    [Responder este comentário]

    João Reply:

    Escorpião. Teoricamente isso deveria explicar alguma coisa, não? rs

    [Responder este comentário]

    Lúcia Reply:

    Não sei…Eu não leio horóscopo. Mas hoje, li o seu, de propósito. Veja:

    “Não deixe passar boas oportunidades por causa de sentimentos destrutivos”

    Na prática não explica nada, mas pode ser uma boa idéia para um outro conto.

  6. Fábio Malta disse:

    Obrigado João, por me lembrar como escrevo mal e como preciso voltar a escrever coisas não-jornalísticas. Textos como o seu me fazem continuar a acreditar que existe coisa boa ainda não lida. Vou guardar os palavrões de elogio para a próxima cerveja com o autor.

    [Responder este comentário]

  7. Zengo disse:

    Esse autor é meu ídolo!!!! Pena que agora está namorando de novo!!!! Se o namoro não der certo, pelo menos mais um belo conto já está garantido!!! Parabéns Muleke!!!!

    [Responder este comentário]

  8. Kaká disse:

    Joãozinho!

    confessaí… Vc já fez isso, né?!
    Ligar as 2h da matina pra ex-namorada! Num tem ex que se lembre!

    Mas o texto tá muito bom. Está envolvente e cria uma certa expectativa no leitor.

    bjimmm

    [Responder este comentário]

  9. Adriane Lima disse:

    João, tem pelo menos uns 2 amigos meus que passaram pelo mesmo drama do seu, er, amigo Adolfo, rsrs.

    Ou melhor, ainda passam, pois, a não ser que estejam me escondendo o desfecho até hoje, continuam brincando com o celular de uma mão pra outra, durante a noite.

    [Responder este comentário]

Feed RSS dos comentários deste post URL de TrackBack

Deixe um comentário