Segunda a Sexta

  • "Quando ela mente/ Não sei se ela deveras sente/

    O que mente para mim"

    Chico Buarque, em 'Ela faz cinema'

    Tema da Semana: CINEMA

 

postFim de Linha

Luciene Braga

Abri os olhos e perguntei: “É só isso? Sem filminho e sem almas desorientadas que tentam sugar algo de mim, vindo tão fresquinho do mundo dos sei-lá-o-que-são hoje ou mesmo se há hoje lá onde era ou se era de fato?”

Queria companhia. Só isso. Nem encosto tinha. Pensou que poderia virar um, mas se perdeu na imensidão do espaço por todos os lados. “Porra, nem para ser fantasma assombrador…”.

Sentou em um computador (que bom que pelo menos isso tem aqui) e resolveu fazer uma pesquisa para descobrir o que aconteceu com todo mundo, tentando montar o quebra-cabeças dos últimos dias.

Deu lá: a profecia Maia do fim dos tempos.

Em 2011.

Sentiu saudades. Irreversivelmente só e triste, quis se matar, mas era tarde. Morreu na varanda de casa, enquanto procurava um isqueiro sabe lá quando, porque nem poderia ter certeza de que 2011 aconteceu há muito tempo. Vagamente, sabia que a coisa esquentou. E a coisa era o ar. Não viu mais nada. Nem lembrou. “Estranho esse negócio aqui. Não dá nem para chorar. Ahh! E se eu estiver perto de anos antes? E se eu puder entrar no passado?”, levantou, num salto, e tomou um estabaco. Nunca pensou que almas penadas ou depenadas caíssem. Então, perdeu o chão. Curiosamente, ergueu os braços e viu que estava em algum lugar no interior de um carro. Nasceu numa ambulância, a caminho do hospital. Sua mãe, professora muito da bem fornida, morava em Magalhães Bastos. Adorava baile funk. Levava um MP3 com músicas para o hospital. “Eu pensava em algo assim meio Londres, mas isso não é agência de viagens. Está bem, vamos recomeçar. Mulher divertida a minha mãe”, e até sorriu, achando que ganhou a vida.

Acordou, quando a voz do altofalante do metrô quase berrou, na estação da Pavuna, e a passageira sentada ao lado deu um esbarrão: “Senhores passageiros, está é a última estação. Obrigada pela preferência”. Esfregou os olhos e procurou a pasta que deixou no chão. “Merda!”, xingou. “E ainda roubaram o meu maço de cigarros”.

 

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02.11.09 em: Segunda