Figurino
Luciene Braga
No canto da cama, o sobretudo.
“Sobrenada”, ela matutou.
E tirou o relógio caro, depositou na cômoda, disposta a observar seu rosto que assustava um pouco, sem a maquiagem.
“Ai!”, gemeu, ao tirar os pés do sapato. “Liberdade”, percebeu.
Ficou alguns minutos sentada no sofá e sentiu falta de cigarros.
Sentia falta de muita coisa. Tanta, tanta, que sentia dores pelo corpo.
Nessas horas, até o tecido mais fino pesava, fazia com que suasse a saudade, às vezes, sem objeto.
Nua, enfim, abriu a porta, atravessou assim, peladíssima, o corredor até o elevador, cumprimentou o vizinho e decidiu que poderia brincar de bailarina no calçadão. Uma apresentação com direito a aplausos.
