Pudor
Tiana Maciel Ellwanger
Estava cansada de não poder tirar a roupa onde quisesse. Atentado ao pudor? Cansou do pudor. Dela e dos outros.
E da moda, que “falava” por ela sem que assim decidisse. Também de todos os que discursavam sobre estilo e a obrigavam a ter um.
Cansou também de não poder pisar na grama, nem descalça. Pra quê? Se não podia senti-la com os pés nus?
Cansada na mente e disposta no corpo, correu como seu filho faria com os pés descalços no parque gramado.
Tirou a blusa e mergulhou de bariga no chão macio. Sentiu a umidade das folhas em cada parte do colo.
Depois tirou as outras peças e nadou naquele mundo verde que há anos a convidava, sem que o pudor a deixasse ir adiante.
Quando o guarda municipal aproximou-se, saiu correndo e abraçou a árvore. Disse que continuaria ali e que o pudor era dele, não dela. Dane-se se te atenta!
Ele saiu assustado em busca de reforço.
Antes do retorno, ela vestiu a blusa, a calça, os sapatos e, depois de jogar a calcinha e o sutiã para o alto, foi para o trabalho.
