Traje oficial
Aline Leal
Só conseguia dormir pelado. Não importava o frio que fizesse, qualquer blusa, meia ou bermuda lhe dariam coceira e ele arrancaria as peças no meio da noite, sentindo seus movimentos comprimidos, o bicho preso, o tecido arranhando a pele. É possível que sentisse até falta de ar. Usava, com a freqüência de uma a duas vezes por semana, a pele de uma mulher envolvendo-lhe o corpo e, mesmo assim, acordavam já bem distantes um do outro na cama.
A coisa chata é que tinha que vestir terno e gravata pela manhã, a camisa engomada lhe dava faniquito. Mas, como se diz por aí: ossos do ofício. Apesar do espírito livre em relação às roupas, Marcelo não escolhera uma profissão que lhe permitisse exercitar esse espírito. Por fim, sofria no calor do centro do Rio, sabendo que a culpa era só sua por não ter tido a inclinação para ser produtor, editor de vídeo, ator, jornalista, ou qualquer coisa mais liberal.
Fora os ternos que ia comprar com a mãe no shopping de ano em ano, Marcelo não se interessava em nada por roupas e é mesmo possível que nunca tivesse comprado uma blusa ou uma calça por conta própria. O seu guarda-roupa consistia basicamente de peças que ele havia ganhado dos pais, das ex-namoradas e assim ia levando com uma blusa com um furo aqui, uma calça com a bainha curta. Realmente não lhe importava.
O único traje oficial, velho de guerra, que ele sentia-se bem ao vestir, era a velha camisa do Fogão, o número seis nas costas em homenagem ao craque Nilton Santos. Então, permitia uma sensibilidade que não se via em outros trajes. O Engenhão lotado, a paixão clubística, o uniforme do craque, e era capaz que se visse uma lágrima escorrer-lhe dos olhos.
11.11.09 em: Quarta