Segunda a Sexta

  • "Aí você vê como tudo é frágil. Uma coisinha pode derrubar tudo"

    Chiquinho, do Mombojó, para a TRIP

    Tema da Semana: FRÁGIL

 

postBonecas desencantadas

Raquel C. de Medeiros

bonecas 3

Bom mesmo era fechar os olhos apertados e imaginar-se linda como Tina, a boneca preferida da infância, aquela com os traços finos, cintura de pilão, blusa decotada e vestido de fustão. Aquela com a face leve e rosada de despreocupação. Enfeitava a boneca como se fosse ela mesma no futuro que tão rapidamente chegara. E agora olhava-se no espelho e lembrava de Tina, enquanto se preparava para ele.

E colocou o vestido rendado.
A meia-calça.
O salto-alto.
O pó de arroz.
Perfume no regaço.
Sombra nos olhos.
Fita no cabelo.

E o espelho já não a maltratava: aprendera a respeitá-la. Ela também já não tentava enganá-lo. Sorriu da tola tentativa, debochando de si mesma. Tirou o vestido apertado, a meia-calça, o salto alto, a sombra verde, a fita do cabelo, detalhes que, afinal, só realçavam a sua feiúra.

Bom mesmo era fechar os olhos apertados, defeituosos, e imaginar-se bela como Tina, a boneca preferida, aquela que um dia, quando lhe apelidaram de caolha, ela tacou do décimo primeiro andar. Naquele cimento de infância ainda sobreviveria alguma ilusão de beleza. A morte seria aos poucos, dolorosa e cruel. Solitária. Mas agora ela estava ali, em frente ao seu grande inimigo da vida inteira, livre, completamente livre daquela pretensão. E já não era tão só, havia um amor, um amor que a preferia assim: feia, sem reparos. Ela também.

 

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12.11.09 em: Quinta