Pecado
Tiana Maciel Ellwanger
Quatorze anos Lorena comemorava, a semana toda.
Vá Lorena, lave essa louça, diacho! Olha esse garfo, gordura pura. Pura. Esfrega, esfrega, Lorena. Presta atenção, tá olhando pra onde? Raspa os pratos para não entupir.
Eu queria ser igual aquele passarinho ali na árvore, comendo minhoca na boca da mãe. Queria nada, eca, eca.
Esfrega, Lorena, que moleza é essa? A missa vai começar e você aí olhando pra janela como se fosse sábado. Acha que Deus não vê?
Vê?, pensei cá comigo. E logo parei de pensar. Xingu de novo voltava à cabeça, beijava como nenhum dos lábios duros da sala sabia beijar. Vinte e seis anos!, gritou a Carlota quando eu contei, nem ligou pro beijo de boca mole, língua seguindo os instintos, quase nada duro (Carlota riu de olho arregalado quando falei isso). E ficava dizendo: vinte e seis anos, vinte e seis anos!
Vá logo colocar a roupa, deixa que eu lavo isso. Tá na hora, garota.
Subi a escada devagar, coxa com coxa sem calcinha. Xingu, abraça, Xingu, aperta minha bunda. Sentei na cama para dar uma deitadinha vuco-vuco.
Lorenaaaaaaa! Desceeeeee!
Fiquei de pé num pulo, fechava os olhos e Xingu passava as pontas dos dedos na perna direita, subindo até chegar. Eu, de olhos fechados, sentia cada milímetro do dedo dele.
Escolhe a roupa, Lorena, anda. Saia não pode, mãe briga. Blusa decotada. Andando, andando, olha pra cima pra espantar o calor, a calça atritando. Cheguei. Missa.
Pega o livrinho de cantos, menina. Sempre esquece!
Senta, ajoelha, senta, levanta.
Vai Lorena, vai comungar. Tá confessada, pode ir, anda.
Cheguei de cabeça baixa, coxa com coxa, calça atritando. Respirei fundo na fila. O padre lembrava Xingu, quando falou:
Corpo de Cristo
Corpo de Cristo.
Amém
Ajoelhei ao lado da mãe e, de olhos fechados, não resisti. Xingu, gemi de prazer passando a língua na óstia do padre.
Olhei para a mãe com vergonha, mas só eu sentia a umidade entre as pernas.
Ela virou e me deu um sorriso satisfeito.
Eu retribuí.
17.11.09 em: Terça