Pecados escondidos
Raquel C. de Medeiros
Quase sem querer, entrei em uma enorme farmácia na Avenida Paulista, e procurava algo pouco necessário naquelas intermináveis prateleiras, quando ouvi a conversa entre as duas funcionárias que estavam paradas em um dos cantos do lugar:
- Deixe estar, Lívia. Minha mãe sempre me dizia que a soberba é uma burrice. Mesmo essas pessoas que têm muito dinheiro precisam dos que fazem o dinheiro para elas. Mais cedo ou mais tarde a vida lhes mostra isso.
- Eu fico com muita raiva, Maria. Ele só respeita os que ele acha que não dependem dele. Conosco se esquece da educação, da paciência, da generosidade.
- O mundo dá muitas voltas, Lívia.
- Às vezes devagar demais – reclamou a outra.
Eu ri e continuei a olhar as prateleiras, à procura de que mesmo? Estava curiosa em ver o rosto das duas moças, mas, sem jeito de parecer interessada na conversa, continuei a mexer nas prateleiras.
- Esses tolos, Lívia, não conseguem enxergar as coisas mais importantes. Eles apenas sentem a vibração negativa, provocada por dezenas de olhares que lhe desejam mal.
Bravo, quis gritar, lembrando-me de algumas pessoas. A minha vontade era juntar-me as duas mulheres naquela prosa tão mais interessante do que tantas que ando tendo por aí.
- É… Você tem razão. Por isso ele é sempre tão insatisfeito: acha-se poderoso, mas não enxerga a energia ruim que lhe transmitimos, às vezes mesmo sem querer.
Senti que haviam notado que eu continuava ali apenas para ouvi-las e, tímida, saí da farmácia, não antes de olhar para elas e sorrir sem nada nas mãos.
19.11.09 em: Quinta