Segunda a Sexta

  • "Quando ela mente/ Não sei se ela deveras sente/

    O que mente para mim"

    Chico Buarque, em 'Ela faz cinema'

    Tema da Semana: CINEMA

 

postNa feira…

Gazza

Dona maria via na maçã uma ameaça. Religiosamente ia à feira todas as sextas. Religiosamente, não trazia a maçã. Eram discussões intermináveis com a patroa. Não tinha jeito. Dona Maria se recusava. Até mesmo diante das ameaças de demissão. Na feira, sequer chegava perto das barracas que vendiam a fruta. Desde cedo ouvia a vó dizer que tudo havia se perdido numa mordida à maçã. Era a imagem da desgraça na cabeça daquela senhora. Na casa em que trabalhava, há mais de 15 anos, nada era feito com a fruta. A patroa contava mil histórias, metodicamente argumentava a favor da maçã. A velha, viúva há duas décadas, era irredutível mesmo.

Uma certa sexta-feira, dona Maria circulava pela feira, cumpria a rotina. Passava nas barracas onde costumava fazer suas compras de sempre. De repente, um olhar, já marcado pelo tempo, cruza o seu. A velha para, fixa seu olhar sem perceber. Em segundos, já não enchergava outra coisa naquele momento. Completamente hipnotizada, começa a caminhar na direção daqueles olhos. Quanto mais perto chegava, mais perdia o senso da realidade a sua volta. Em instantes, estava diante daquele olhar. Nunca havia sentido nada parecido desde a partida de seu Miraldo.
- Dona patroa, o que vai levar hoje?
A voz, também rouca pelo tempo, se encaixava perfeitamente naquele olhar. A percepção de dona Maria foi imediata. Com os olhos encaixados naquela singular sintonia entre imagem e som, responde.
- O que o senhor me oferece?
- As melhores maçãs da Tijuca.

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20.11.09 em: Sexta