Carmelo e Allana
Tiana Maciel Ellwanger
Abriu os Classificados do jornal gratuito para seu encontro diário com ela. Allana era seu nome; ficava abaixo do escandaloso “Pai Claudio do Diabo”, que prometia Deus e o mundo. A foto estampada na página cinza só mostrava-a de costas, mas a imaginação dava conta do seu belo rosto. Era bronzeada, seios turbinadíssimos, extremamente carinhosa, lábios atrevidos, pernambucana, olhos de mel, adorava beijar e ainda fazia massagens excitantes, dizia o anúncio, alternando as qualidades conforme o dia da semana.
Allana era, há anos, a companhia de Carmelo nas manhãs viúvas; o recheio de pecado na rotina pacata; o conteúdo dos sonhos cada dia mais ardentes. Neles, Allana tinha gemidos de loba e olhos melados, hipnotizantes. Com seu mindinho direito, acariciava seus pelos formando espirais e, ao acordar, ele ainda sentia os movimento circular das mãos em seu peito, as palavras infantis ao pé da orelha.
O quinto ano de solidão foi a gota d’água para transformar o amor platônico em palpável. Ligou e desligou algumas. Ligou novamente, respirando fundo. “Allana?” Uma voz grave, diferente da de suas noites oníricas respondeu: “Oi amor”. Emudeceu por momentos. “Alô?”, disse a voz pedindo resposta. “Oi, meu nome é Carmelo, gostaria de te encontrar”. “Claro, amor, Rua do Senado, número sete, apartamento 305. Que tal às oito?” “Hoje? Já? Pode ser”, disse para desligar ainda assustado com o timbre graúdo.
O dia foi o mais longo da sua lembrança. Pegou os desenhos que fizera de Allana na gaveta e, com a voz dela ecoando na mente, já não conseguia enxergá-la nas silhuetas rabiscadas, longilíneas. Antes das seis, saiu de casa e tomou o ônibus para o Centro da cidade, por onde andou olhando azulejos e azulejos que não o distraíam.
Sete e quarenta e cinco. Subiu os lances de escada e bateu na porta. A voz disse algo que não registrou. Olhava para o gogó, ombros, gogó. “Oi amor, entre. Homem pontual, assim que eu gosto”. Carmelo não conseguia pronunciar palavra. “Fique à vontade, quer um drinque?” “Não, obrigada, não bebo”. Gogó, ombros, gogó. “Desculpa, você é maior do que pensei”, disse ele. “Você ainda não viu nada, querido”, a voz que agora lembrava a de seu tio bronco respondeu, aproximando-se quente do pescoço.
Olhos fechados, buscou as rezas na memória. “Meu Santo Expedito das causas justas e urgentes, socorrei-me nesta hora de aflição e desespero”, disse baixinho de olhos fechados, saindo pela porta que entrara. “Vai não, amor, sou quase mulher, você vai ver”, foram as últimas palavras ouvidas antes de bater a porta.
Ingênuo, tolo, xingava a si ao passar pelos azulejos na volta para casa. Ligou para Dirceu, o ex-colega de trabalho aposentado e contou a história patética. As gargalhadas ao telefone amenizavam um pouco o sentimento não sabia bem de quê. Depois descobriu: a dor de não ter quem amar dilacerava mais que a solidão das manhãs platônicas. Abriu os Classificados.
24.11.09 em: Terça