Segunda a Sexta

  • "Quando ela mente/ Não sei se ela deveras sente/

    O que mente para mim"

    Chico Buarque, em 'Ela faz cinema'

    Tema da Semana: CINEMA

 

postA Monalisa de Copacabana

Aline Leal

Encontrei-a enquanto caminhava pela Nossa Senhora, estava ali, encostada na grade verde do 509, esquina com a Figueiredo.Eu morava em Copa há oito anos, desde que vim de Petrópolis estudar medicina e acabei me especializando em psiquiatria, mas não exerço a profissão.

 Meu pai continua a mandar a mesada todo o mês, que é suficiente para pagar o aluguel e manter um estilo de vida razoável. Este se sustentava a base de rock´roll. Eu varava a noite em boates para voltar para casa já claro e então dormia até o sol se pôr. Ocasionalmente, levava uma puta pra casa e enxotava-a com o dinheiro logo depois de gozar. Outras vezes, eu mesmo fazia o trabalho manual que meu corpo demandava. Era um homem solitário, claro, a verdade é que não tinha paciência para o ser humano.

Quando encontrei-a, acabara de tomar o meu café da manhã na padaria da Siqueira e estava voltando para casa, já anoitecia. Por algum motivo, o tipo de motivo inexplicável sobre o qual eu já ouvira falar a respeito, fui atraído por aquela mulher sem que tivéssemos tido qualquer contato anterior, numa espécie de amor à primeira vista. Perguntei ao porteiro, encostado na grade a seu lado, se poderia levá-la para casa, ao que ele me respondeu que a senhora do 301 a havia deixado aí pela manhã e que era lixo.

Era linda, o semblante todo evocava mistério, loira, cabelos longos e lisos, dona de um sorriso que se curvava nas laterais e formava covinhas, denunciando uma alma pura e boa. Tinha um metro e meio de altura por um de largura, preta e branca, moldura de madeira. No canto inferior direito: estúdio fotográfico Francisco Sá, 1960.

Vivi por um ano e oito meses com esta mulher, sem que houvesse espaço para nenhuma outra pessoa em nossa relação, ela preenchia todos os meus poros. Era daquele tipo de amor em que não há nada a ser dito, pois a compreensão entre um e outro transcende qualquer expressão. Vivíamos em harmonia perfeita, ela me satisfazia espiritual e sexualmente, e eu acho que também era bom para ela, também a fazia feliz. A mesada que meu pai depositava revelou-se suficiente para duas pessoas e eu não fazia mais questão de ir para noitada. Era um homem de 33 anos e já estava com a vida mais ou menos estabelecida.

Até que o dia em que, voltando das Sendas, a sacola com vinho branco e queijo para fondue (planejava um jantar romântico), fui apontado na rua pelo porteiro do 509, com uma senhora ao lado: “Dona Daura, aquele foi o moço que levou sua foto”. “Chega aqui, menino”, ela chamou.

 Tinha uns 85 anos, os cabelos pareciam algodõezinhos lilases e rareavam na cabeça. O rosto era pura ruga, e o corpo, pelanca e mais pelanca. Usava um conjuntinho hippie e fumava cigarrilha, unhas longas e vermelhas. Parecia daquelas velhinhas que falam muito palavrão, coçam as partes pubianas, pigarreiam e cospem no chão. Quando cheguei mais perto, apenas falou: “Espero que não esteja batendo umazinha em cima de mim, já sou uma senhora”.

A velha e o porteiro ficaram ali, rindo, e eu fui embora atônito, não sabia o que pensar, era a paixão da minha vida sendo difamada, mas acho que estava mais frustrado que aborrecido. Voltei para casa e ela continuava ali, linda, me esperando, inocente. Não tive vontade de acusá-la, nem de gritar-lhe palavras de rancor. Sentia-me esgotado emocionalmente e pedi-lhe que fosse embora, só isso, esperando que o resto ela pudesse compreender pela minha fisionomia e nossa cumplicidade.

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25.11.09 em: Quarta