Segunda a Sexta

  • "Aí você vê como tudo é frágil. Uma coisinha pode derrubar tudo"

    Chiquinho, do Mombojó, para a TRIP

    Tema da Semana: FRÁGIL

 

postRegistros de um agosto distante

Raquel C. de Medeiros

É noite de inverno e Marte se aproxima da Terra. Os amores estão longe e quietos, renascendo na sabedoria dos movimentos. Olho para o céu em busca do brilho vermelho, mas o mau tempo ofusca a constatação dos astrônomos. Sei que a aproximação recorde decorre da trajetória elíptica com que ambos os planetas giram em torno do sol, vi no noticiário. Mas parece que a rotação das órbitas está girando ao contrário. O fenômeno invisível. Os amores fora do sistema solar. O nada muito ligado ao tudo e o gato doente.

 

Sempre companheiro, o gato me acompanhava nas horas dedicadas à escrita. O escritório era nosso, mas a poltrona herdada de família era mais dele do que de qualquer outra pessoa da casa. Cacau dormia enquanto eu digitava linhas e mais linhas de sentimentos violentíssimos. Às vezes, ele já me aguardava no escritório. Outras, batia a porta para que eu a abrisse. E devagar, sempre devagar, entrava sem me incomodar. Respeitador como eu. Doce como eu. Corajoso como eu. Não tão atarefado. Como eu queria ter o seu tempo disponível para escrever mais, seu dorminhoco!, eu lhe dizia. E muitas vezes a minha anemia me jogava na cama, onde eu ficava estirada por horas, lenta como ele.

 

Nesses dias em que Marte se aproximava da Terra, os amores se despediram, o nada quase se esbarrou com o tudo e Cacau adoeceu. O gato já não conseguia chegar ao escritório para me pedir para entrar. Não se movimentava para ficar perto de nós, quase não comia. O colo morno dos meus textos me acolhia naquelas noites lentas e melancólicas de amores distantes e fenômenos bissextos. Pensava muito, escrevia muito, sofria muito. Já muito doente, Cacau tinha o olhar de doação. Faleceu no fim da tarde de um sábado, quando eu não estava em casa.

 

O enterro aconteceu quase à meia-noite, no nosso jardim. Lágrimas, caixa de papelão, flores, terra, dor. Marte já se distanciava de nós. Os amores acenaram reaproximação, o nada enxergou sua real condição e o meu sangue voltou a circular no ritmo da Terra. Agosto se despedia.

 

 

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26.11.09 em: Quinta



5 Comentários »

  1. Luciene disse:

    nossa. que lamento.

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  2. Você, como sempre, surpreendendo, Raquel.
    Beijos.

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  3. Manu disse:

    Amiga, vc é linda e impressionante!
    Mais uma vez, parabéns!

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  4. Lucia disse:

    “o nada muito ligado ao tudo” me faz lembrar dos planetas girando em torno do Sol.
    “Os amores fora do sistema solar” …o coração parece não ter uma estrela para guiá-lo, nem de quinta grandeza (risos).
    “O nada quase se esbarrou com o tudo”. Estes encontros, Raquel, que você consegue flagrar, guardam toda a poesia dos seu contos, o caminhar lento do gato, o seu local preferido, os passos deste “Registro de um agosto distante”.
    Você tem uma sensibilidade para registrar o cotidiano que me emociona.

    Parabéns!

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  5. Tiana disse:

    Faço minhas as palavras da Lucia. beijos

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