O mar não tem cabelo
x Convidado Sábado x
Por Lúcia Gomes
Assim dizia e diz a idade de quem viveu muito, sabedoria popular para avisar das águas que não brincam, de suas bocas enormes rodopiando para o fundo onde a garganta espreita os inocentes.
Dizem que medo é coisa que ninguém deve ter, bloqueia o raciocínio, cria um engarrafamento medonho no cérebro, o corpo começa a suar e criança escreve tudo errado na prova. Isto digo eu que não inventei as avaliações.
Talvez muita gente não se lembre do Posto Doze, no Leblon. Não do atual “Baixo Bebê”. Falo da ponta da praia de anos atrás, quando o Leblon não frequentava a novela das oito. Mas a gente estava lá. Porque era pertinho da Gávea e dava para ir a pé, porque só tinha gente conhecida do lugar, porque uns falavam com os outros, e as crianças tinham amigos da praia. Eram as mães quem levavam, profissão valorizada e reconhecida por toda a eternidade.
Naquela manhã, os meninos, quase todos com seis anos, jogavam bola. Areia para todos os lados. Depois a comemoração, pegando jacaré e rolando no chão até parecer um bife à milanesa. As meninas também jogavam, às vezes a bola, outras vezes areia. Quando emburravam iam fazer castelos e construir histórias.
As mães estavam lá, olhando por eles como anjos da guarda.Algumas deixavam os filhos por conta das amigas. Outras tomavam conta até dos filhos que não conheciam, olhos de ave, alcance trezentos e sessenta graus. Nada escapava. Nem sorvete com areia, nem o cocô enterrado.
Talvez muita gente não se lembre de como era gostoso ficar sentada na beirinha da praia esperando a onda fazer cócegas nos pés. Talvez ser surpreendida por um banho inteiro. Talvez fugir correndo, rindo. A praia, e a gente estava lá, guardava só alegria.
Dizem que medo é coisa que ninguém deve ter. Aquelas meninas não tinham. Do castelo de sonhos, derrubado pelo mar, resolveram mergulhar. O mar não estava para peixe, que dirá para duas crianças pequenas, confiantes, heroínas por acaso, todos os dias. A onda as sugou. Elas ficaram ali, sem ter onde apoiar os pés. O pânico tomou conta da mais nova. Agarrada ao pescoço da irmã, chorava, gritando socorro. A outra, apenas um ano mais velha, gritava que estava morrendo enforcada. Mergulhou e conseguiu se livrar das mãos no pescoço e mandou que a menor segurasse nos cabelos dela e batesse os pés. Pareceu não surtir muito efeito, mas foi assim.
Naquela manhã o mar ficou enorme, a areia parecia um deserto imenso, as barracas, as pessoas, uma verdadeira miragem, os olhos ardendo com o sal. Ninguém viu. Os cabelos de uma encostados nos cabelos da outra, a menor segurando os fios da maior, os pezinhos ágeis, o círculo das águas e nada, nada, nada.
Elas ficaram ali. A onda que as sugou, recuou diante de outra onda maior que o mar, imensa como as areias de um deserto. As duas foram jogadas na beira da praia. Os cabelos de uma encostados nos cabelos da outra, a menor segurando os fios da maior, pareciam duas algas descabeladas.
Maior do que o mar, maior do que um deserto, maior do que um monstro marinho, estava a irmã mais velha aos gritos, com um chinelo cheio de areia batendo nas duas.
Tiveram que voltar a pé para casa. Mas isto já fazia parte do acordo. Voltavam todos a pé e compravam sorvete. Só que neste dia não teve sorvete. Nem pasta de álcool com maisena.
À noite as duas irmãs foram dormir no sofá-cama de plástico branco que ficava na sala e causava um calor insuportável, mas era a cama que dividiam sempre. As luzes da casa se apagaram. À noite se fez silêncio. A menor espiou o entorno com os seus olhos negros como duas jabuticabas. Cobriu a cabeça e cochichou, você trouxe? A outra riu e pegou o segredo das águas. Uma concha rosa, com as duas partes unidas como uma borboleta de asas fechadas. Riram baixinho e dormiram abraçadas, partes da mesma concha.
Ninguém viu. Nem as gaivotas, nem os tatuís que desapareceram para sempre do Leblon.

