Segunda a Sexta

  • "Aí você vê como tudo é frágil. Uma coisinha pode derrubar tudo"

    Chiquinho, do Mombojó, para a TRIP

    Tema da Semana: FRÁGIL

 

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Luciene Braga

Berta e Isaac nunca se preocuparam com os comentários maliciosos da vizinhança a respeito de suas origens. Moravam no bairro Abajo, na pequena Nova Tóquio, a alguns quilômetros de Nova Orleans, e tinham um pequeno negócio de embutidos no centro da cidade. Já viviam lá há 10 anos e enfrentaram até o Katrina juntos. Seus filhos, Savana e Korio, decidiram estudar na Nova Zelândia e no Qatar, respectivamente. Queriam um pouco mais do mundo, além da pequena ONU que a casa representava.

Isaac tinha somente uma frustração: não ter sido diplomata. Sempre que podia, emendava conversas e análises sobre a situação do mundo com os clientes que, invariavelmente, só pensavam nas linguiças e paios, caríssimos, mas confiáveis.

“Cuspir na embaixada de um país sul-americano diante de câmeras do Le Monde não ajudou muito”, comentava Berta, entre os amigos mais íntimos, sempre que ele iniciava o discurso de lamento. “Eu tinha dor de garganta!”, ele insistia. “Mas as câmeras não viram as suas amígdalas, senhor embaixador. Só eu conheço as suas qualidades conciliatórias e capacidade de intervenção em territórios conflituosos nem sempre dispostos a negociar”, ela brincava, e ele sorria, entregue e submisso ao discurso mais convincente que conhecera. Falava seis idiomas e aventurava-se no Mandarim nos últimos meses.

“Ni Hao!”, dizia, levantando o avental para a mulher, quando a loja estava vazia. “Lo ricevo già con gli onori”, brincando com a língua que ele não dominava. E requebrava até que bem. O Mandarim não lhe descia aos flancos, mas o Português era capaz de transformá-la em odalisca frenética e safada, à brasileira. “Venha, minha leitoa à pururuca!”, ele dizia. Ela se derretia ao ouvir “pururuca”. E trepavam de fechar a loja. A vizinhança já até sabia. E virou hábito aguardarem, para entrar na loja com cheiro de sexo. Era a diversão. E uma aula de Esperanto, a segunda língua universal, convenciam-se.

Diziam que dava sorte comprar presuntos e peças com o astral de uma sessão daquelas. O boato se espalhou, e só não abriram uma segunda loja porque não daria para repetir a estratégia em dois lugares.

Todas as noites, o casal recebia amigos de comunidades várias, com assuntos vastos, sempre com uma boa garrafa de дистиллировано (destilado russo contrabandeado, que com especiarias eram bem anárquicos), a graça da confraternização. E gostavam de ouvir histórias, especialmente de viajantes. Eram eles desertores do estilo de vida nômade, mas tinham saudade e ficavam excitados com olhos brilhantes de quem conta novidades e descobertas.

De minha última visita, guardei a foto dos dois aos beijos, coloridos, como sempre, brindando.

Soube ontem que foram mortos em sua última viagem à Espanha, para encontrar os filhos e conhecer o primeiro neto – Ishtar. Quando passeavam em um dos mais belos parques de Aguaviva, um atentado terrorista de um novo grupo em busca de destaque, em defesa da delimitação de território, atingiu os dois, sob uma árvore que, contam, tinha mais de 2 mil anos.

O ataque teve seus holofotes, e os nomes de Berta e Isaac, assim como os de outros 30 mortos, nunca foi dito.

Acho que agora estão por aí, inspirando cúpulas pela noosfera. Ou cópulas, tanto faz.

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30.11.09 em: Segunda