Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postCARTA A MINHA FILHA.

x Convidado Sábado x

Por Francisco Perico

Amanheci com saudades de você.  Mesmo estando perto. Então, resolvi lhe escrever.  Por vezes, a palavra falada se evapora no ar, e a palavra escrita fica incrustada como talha na madeira.

Quando você ainda vivia no útero de sua mãe, confesso que esperava por um homem.  Não tinha consciência disso, pois discursava que tanto fazia. Mas, não era verdade. Desejava um filho varão. Normal para um pai primário.

Quando você nasceu, veio se juntar a nós, mortais, e a vi pela primeira vez, você me surpreendeu.  Raramente, os bebês são bonitos. Você, entretanto, tinha uma cor dourada, rechonchuda, sem marcas. Você simplesmente era linda. Apaixonei-me.  Nasceu em mim, junto com você, um sentimento novo, um sentimento envolvido por uma capa de carinho, de afeto, de cuidado, de prazer, que tudo somado descobri que era amor.

Quantas vezes a peguei no colo, a embalei, para você cantei, inventei canções, jamais falei em bicho-papão, para não assustá-la. Sempre me preocupei com as palavras que pronunciava, pois sabia que você, de alguma forma, as entendia:  DORME NENÉM, NENÉM DO MEU CORAÇÃO, DORME NENÉM, AO SOM DESSA CANÇÃO.  Essa canção eu inventei.  Cantava, embalava, você dormia em meus braços. Pode parecer piegas, mas eu o fazia com prazer, cheio de alegria.  Como eu estava feliz. 

 

O tempo ia passando. Cada dia era uma descoberta: sua, do mundo; minha, de você. Sua coordenação motora era perfeita, seus movimentos eram firmes. Um dia cheguei a casa e você já começara a ensaiar os primeiros movimentos de engatinhar.  Depois vieram os movimentos para ficar em pé.  Que delícia.  Depois, os primeiros passos.  Que deslumbramento.  Mais tarde, os primeiros balbucios. Enfim, as primeiras palavras. Milagre. Realmente, tudo era um milagre.

Você crescia minha filha.  Linda, inteligente, esperta. Vieram os primeiros POR QUÊS. Nunca lhe deixei sem respostas.  Quando a pergunta era muito difícil, como por exemplo, COMO SURGIU O MUNDO, eu criava uma situação, simples, curta, e você se contentava. Então, eu entendia que você estava satisfeita com a resposta. Era o bastante.

Hoje, minha filha, você está com 16 anos. Independente, opinião própria. Surpreendo-me porque agora quem faz as perguntas sou eu.

Saudades, sim.  Porém, feliz.

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19.12.09 em: Sábado



36 Comentários »

  1. Lúcia disse:

    Francisco,

    “Amanheci com saudades de você”…

    É um amanhecer terno, doce, consciente do tempo que passa, mas não apaga a memória de nada que vivemos.

    “Cada dia era uma descoberta:sua do mundo; minha de você” Quando descobrimos o outro, vemos a nós mesmos no outro e nosso mundo ganha uma outra dimensão.

    “Vieram os primeiros “POR QUÊS” e a ele se seguirão outros…

    “CARTA A MINHA FILHA” é um abraço de saudade, cainhoso e feliz.

    Bjs, Lúcia

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    Francisco R.Perico Reply:

    Lucia,

    É muito bom ser pai.

    Bjs

    Francisco

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  2. jaqueline sperandio disse:

    Só mesmo quem é pai/mãe pode compreender essas palavras do Francisco…
    Penso que a gente só sabe relamente o que é amor depois de termos filhos.

    E viva o amor aos filhos, o amor ao próximo, o amor a si mesmo. E viva o amor, enfim! Só assim a vida faz sentido.

    beijos
    Jackie

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  3. Bia disse:

    Oi,

    “Amanheci com saudades de você. Mesmo estando perto. Então, resolvi lhe escrever. Por vezes, a palavra falada se evapora no ar, e a palavra escrita fica incrustada como talha na madeira”.
    E verdade muitas vezes dizemos oralmente o quanto amamos e gostamos das pessoas mas parece que não fica gravado e perdemos a palavra e ela se vai com vento. Quando esta escrito fica registrado e nem o vento pode apagar quando queremos e só olhar e ler.
    Achei que só era eu. Quando fiquei adolescente perdi a aproximação do meu pai e vice-versa agora estamos pertos e distantes .Isto é muito estranho não sei por que isto aconteceu? O jeito agora e tentar resgatar o que se perdeu no vento. ´
    abrços Beatriz

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    Francisco R.Perico Reply:

    Bia,

    Acho que o 1º passo foi dado: vc já percebeu o distanciamento de seu pai, mas tbém sacou a aproximação. É tudo muito estranho mesmo. Se vc não descobrir como tudo aconteceu, e se não conseguir resgatar o que se perdeu, tente ao menos conquistar as coisas novas que estão por acontecer.

    Bjs

    Francisco

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    Celso Reply:

    Bia,

    Vamos resgatar o que se perdeu no vento…eu estou aqui de braços abertos!Beijos. Papai

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    Lúcia Reply:

    Meu irmão,

    Seus braços sempre estiveram abertos.
    Se a Bia não aproveitar, quem corre para eles sou eu.

    Eu te amo.

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  4. Delly da Silva Gomes disse:

    É isso aí Francisco, eu costumo dizer que os filhos somos nós, e quando eles crescem, a gente fica com saudades da gente. É uma sensação estranha, mas são tantos os reconhecimentos de nós mesmos que fazemos neles que fica a saudade, mas a idéia de que neles, através deles e com eles seguimos nosso próprio caminho. Quando rio, ouço o riso de meu pai e para mim ele sorri sempre quando eu rio. É por isso que a gente sente saudades, mas também se sente feliz. Hoje, você também tem 16 anos e a vida sorri pra você. Bom, né?

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    Francisco R.Perico Reply:

    Delly,

    É bom ter novamente 16 anos, né !!!

    Quem sabe outros 20, 25 etc… !!!
    bjs

    Francisco

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  5. Maria disse:

    Muito lindo. Bem reflexivo!
    Não moro com meu pai desde a infância. Mas hoje sou super próxima dele.
    Beijos,
    Maria

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    Francisco R.Perico Reply:

    Maria,

    Que bom vc estar super próxima de seu pai. Afinal, pai só se tem um.

    Espero que continue cada vez mais próxima dele, e ele de vc.
    Bjs

    Francisco

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  6. Discordo da Jacqueline. Não é só quem é pai e mãe que conhece esse sentimento descrito lindamente no texto. Lembrei do meu pai falecido que, doente, no hospital, me confessou “que esperava por um homem”, mesmo já tendo três. E, depois, “o que seria de mim, hoje, sem você”.
    Este é o primeiro texto desse site que me levou às lágrimas.
    Porque lembrei também de minha sobrinha e, novamente, de meu pai: “Surpreendo-me porque agora quem faz as perguntas sou eu. Saudades, sim. Porém, feliz.”
    Lindo. Parabéns. Lindo, mesmo.

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    Francisco R.Perico Reply:

    Valéria,

    Agradeço as palavras carinhosas e fico feliz por contribuir nas lembranças que lhe são caras.

    Bja

    Francisco

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  7. Aline disse:

    Pessoal e universal. Sensivel e realista. Um texto literario e uma carta para filha. Lindo. Parabens!

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  8. Regina disse:

    Me fez lembrar do meu filho, do sentimento de assistir a um bebe tornar-se uma pessoa, desenvolver-se a partir das nossas influencias e de suas proprias vontades, tornando-se este ser que amamos muito, que as vezes entendemos e que as vezes nao. Lindo, me tocou muito.
    Bjos

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  9. Myriam disse:

    Quando eu li este conto fiquei pensando, será ficção ou realidade?

    A mim,tocou muito real. A vida é mesmo um milagre.

    Parabéns!

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    Tiana Maciel Reply:

    Muito tocante mesmo. Esse amor deve ser indescritível. “Surpreendo-me porque agora quem faz as perguntas sou eu”. adorei esse final.

    [Responder este comentário]

    Francisco R.Perico Reply:

    Tiana,

    …não só indescritível, com tbém indizível.

    Bjs

    Francisco

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  10. Tereza disse:

    Lindo o seu conto. Como sua irmã, compreendo e compartilho de suas emoções. Como única sobrinha e única neta do lado de cá, nossa menina chegou trazendo muitas alegrias. Também tenho muitas lembranças gostosas do seu desenvolvimento. E tenho certeza que nossos pais e nossa irmã, apesar de seus problemas, também tem. É bonito ver a sensibilidade com que você escreve isso. Adorei.

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  11. Helena disse:

    Nossa, que coisa linda!
    Gostei muito desta carta de amor de um pai, cheia de sensibilidade.
    Vivemos numa época em que as pessoas não sabem mais dizer “eu te amo”.
    Que Deus te ilumine a continuar nos presenteando com contos tão bonitos.

    Parabéns!

    [Responder este comentário]

    Francisco R.Perico Reply:

    Helena,

    Que milagre faz uma filha!!!

    bjs

    Francisco

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  12. João disse:

    Tive três filhos homens. Você desejava um. Nenhum deles eu coloquei para dormir.
    Creio que tenha me faltado uma menina para embalar no colo.
    Talvez isto me ensinasse a compreender melhor as mulheres e eu soubesse, pelo menos, fazer perguntas.
    Sucesso.

    [Responder este comentário]

    Francisco R.Perico Reply:

    Caro João,

    Se vc me permitir uma observação, não foi a falta da menina que lhe causou a dificuldade de fazer perguntas ou compreender melhor as mulheres; acho que foi a falta de embalar os filhos no colo: afinal, criança é aquela força que nos impulsiona pra frente e a fazer grandes indagações.

    Pense nisso, e um forte

    Abraço

    Francisco

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  13. Marcela disse:

    Lindo e sensível.

    Meus pais são separados, mas sei que ele me ama e sempre estamos juntos.
    Há laços que não se apagam, como a palavra escrita ou “como talha na madeira”.

    Parabéns!

    [Responder este comentário]

    Francisco R.Perico Reply:

    Marcela,

    Vc tem inteira razão. Só o fato de vc saber que seu pai a ama, já basta.
    A separação dos pais podem significar “ex-mulher ou ex-marido”, mas jamais significam “ex-mãe” ou “ex-pai”.

    Bjs

    Francisco

    [Responder este comentário]

  14. Alice disse:

    Líndo conto!!
    Sensível e real na dose certa, por isso, muito gostoso de ler.
    Parabéns,
    Alice

    [Responder este comentário]

  15. Celso disse:

    Francisco,

    Aproveito para “roubar” um pouco de suas palavras e lembranças….parece que você se confunde comigo neste conto bonito e com verdades que os pais se deparam ao longo do crescimento dos nossos filhos. Você mostra com carinho e boas lembranças o que sempre me pergunto…Porquê a vida nos faz sentir saudade do que passou…

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    Francisco R.Perico Reply:

    Caro Celso,

    Respondo a sua pergunta: ” porque sentimos falta do que não vivemos, ou não nos demos chance de viver, mas sabemos que está presente na nossa alma”. Acho que é isso.

    A propósito, vc não roubou nada. As minhas palavras não são minhas, são nossas.

    Abçs

    Francisco

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  16. Joaquim disse:

    Texto simples e sublime. Uma canção de ninar.
    Envolvente e bem escrito.

    Abraços

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  17. Roberto disse:

    O começo é muito bom. O final é muito bom.
    Sinto saudades dos filhos que não tive. O tempo passa muito rápido.
    Talvez eles pudessem dar-me as respostas que não tenho, das perguntas que não fiz.
    Mora aqui dentro uma canção de ninar.

    [Responder este comentário]

    Francisco R.Perico Reply:

    Prezado Roberto,

    Vc me encostou na parede. Como posso falar do que não tive? Pra mim, é difícil. Prefiro falar do que tenho. Se não posso falar do que não tive, falo então do que tenho e do que ainda poderei ter.

    Abçs

    Francisco

    [Responder este comentário]

  18. Fernando disse:

    Seu texto me remeteu há muito tempo.
    Esse sentimento voltou com seu texto.
    Obrigado.

    [Responder este comentário]

    Francisco R.Perico Reply:

    Caro Fernando,

    Só posso lhe desejar BOA VIAGEM.

    Abçs

    Francisco

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  19. Raquel disse:

    Francisco, que carta linda!

    “Por vezes, a palavra falada se evapora no ar, e a palavra escrita fica incrustada como talha na madeira”.

    Que bom que você decidiu registrar esse sentimento e compartilhar conosco. Lembrei-me do meu pai, que já confessou a mesma coisa e hoje diz que não se imagina sem suas meninas (eu e minha irmã).

    ‘Surpreendo-me porque agora quem faz as perguntas sou eu’.
    Consigo imaginá-lo, surpreso e orgulhoso de sua menina.

    Parabéns e obrigada pelo texto, um presente para nós.
    Beijos,
    Raquel

    [Responder este comentário]

    Francisco R.Perico Reply:

    Raquel,

    Fico feliz em proporcionar a vc doces lembranças de seu pai. Parece que somos parecidos.

    Bjs
    Francisco

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  20. Márcia Helena disse:

    Os filhos crescem e muitas vezes esquecem de quantas vezes abrimos mão de nós mesmas para sermos deles.
    Eu já não faço perguntas. Aceito as respostas que vieram com os netos. A vida se reiventa.
    Gostei muito.

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