CARTA A MINHA FILHA.
x Convidado Sábado x
Por Francisco Perico
Amanheci com saudades de você. Mesmo estando perto. Então, resolvi lhe escrever. Por vezes, a palavra falada se evapora no ar, e a palavra escrita fica incrustada como talha na madeira.
Quando você ainda vivia no útero de sua mãe, confesso que esperava por um homem. Não tinha consciência disso, pois discursava que tanto fazia. Mas, não era verdade. Desejava um filho varão. Normal para um pai primário.
Quando você nasceu, veio se juntar a nós, mortais, e a vi pela primeira vez, você me surpreendeu. Raramente, os bebês são bonitos. Você, entretanto, tinha uma cor dourada, rechonchuda, sem marcas. Você simplesmente era linda. Apaixonei-me. Nasceu em mim, junto com você, um sentimento novo, um sentimento envolvido por uma capa de carinho, de afeto, de cuidado, de prazer, que tudo somado descobri que era amor.
Quantas vezes a peguei no colo, a embalei, para você cantei, inventei canções, jamais falei em bicho-papão, para não assustá-la. Sempre me preocupei com as palavras que pronunciava, pois sabia que você, de alguma forma, as entendia: DORME NENÉM, NENÉM DO MEU CORAÇÃO, DORME NENÉM, AO SOM DESSA CANÇÃO. Essa canção eu inventei. Cantava, embalava, você dormia em meus braços. Pode parecer piegas, mas eu o fazia com prazer, cheio de alegria. Como eu estava feliz.
O tempo ia passando. Cada dia era uma descoberta: sua, do mundo; minha, de você. Sua coordenação motora era perfeita, seus movimentos eram firmes. Um dia cheguei a casa e você já começara a ensaiar os primeiros movimentos de engatinhar. Depois vieram os movimentos para ficar em pé. Que delícia. Depois, os primeiros passos. Que deslumbramento. Mais tarde, os primeiros balbucios. Enfim, as primeiras palavras. Milagre. Realmente, tudo era um milagre.
Você crescia minha filha. Linda, inteligente, esperta. Vieram os primeiros POR QUÊS. Nunca lhe deixei sem respostas. Quando a pergunta era muito difícil, como por exemplo, COMO SURGIU O MUNDO, eu criava uma situação, simples, curta, e você se contentava. Então, eu entendia que você estava satisfeita com a resposta. Era o bastante.
Hoje, minha filha, você está com 16 anos. Independente, opinião própria. Surpreendo-me porque agora quem faz as perguntas sou eu.
Saudades, sim. Porém, feliz.
19.12.09 em: Sábado
Francisco,
“Amanheci com saudades de você”…
É um amanhecer terno, doce, consciente do tempo que passa, mas não apaga a memória de nada que vivemos.
“Cada dia era uma descoberta:sua do mundo; minha de você” Quando descobrimos o outro, vemos a nós mesmos no outro e nosso mundo ganha uma outra dimensão.
“Vieram os primeiros “POR QUÊS” e a ele se seguirão outros…
“CARTA A MINHA FILHA” é um abraço de saudade, cainhoso e feliz.
Bjs, Lúcia
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Francisco R.Perico Reply:
dezembro 20th, 2009 at 18:36
Lucia,
É muito bom ser pai.
Bjs
Francisco
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Só mesmo quem é pai/mãe pode compreender essas palavras do Francisco…
Penso que a gente só sabe relamente o que é amor depois de termos filhos.
E viva o amor aos filhos, o amor ao próximo, o amor a si mesmo. E viva o amor, enfim! Só assim a vida faz sentido.
beijos
Jackie
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Oi,
“Amanheci com saudades de você. Mesmo estando perto. Então, resolvi lhe escrever. Por vezes, a palavra falada se evapora no ar, e a palavra escrita fica incrustada como talha na madeira”.
E verdade muitas vezes dizemos oralmente o quanto amamos e gostamos das pessoas mas parece que não fica gravado e perdemos a palavra e ela se vai com vento. Quando esta escrito fica registrado e nem o vento pode apagar quando queremos e só olhar e ler.
Achei que só era eu. Quando fiquei adolescente perdi a aproximação do meu pai e vice-versa agora estamos pertos e distantes .Isto é muito estranho não sei por que isto aconteceu? O jeito agora e tentar resgatar o que se perdeu no vento. ´
abrços Beatriz
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Francisco R.Perico Reply:
dezembro 20th, 2009 at 18:34
Bia,
Acho que o 1º passo foi dado: vc já percebeu o distanciamento de seu pai, mas tbém sacou a aproximação. É tudo muito estranho mesmo. Se vc não descobrir como tudo aconteceu, e se não conseguir resgatar o que se perdeu, tente ao menos conquistar as coisas novas que estão por acontecer.
Bjs
Francisco
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Celso Reply:
dezembro 20th, 2009 at 19:34
Bia,
Vamos resgatar o que se perdeu no vento…eu estou aqui de braços abertos!Beijos. Papai
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Lúcia Reply:
dezembro 21st, 2009 at 12:19
Meu irmão,
Seus braços sempre estiveram abertos.
Se a Bia não aproveitar, quem corre para eles sou eu.
Eu te amo.
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É isso aí Francisco, eu costumo dizer que os filhos somos nós, e quando eles crescem, a gente fica com saudades da gente. É uma sensação estranha, mas são tantos os reconhecimentos de nós mesmos que fazemos neles que fica a saudade, mas a idéia de que neles, através deles e com eles seguimos nosso próprio caminho. Quando rio, ouço o riso de meu pai e para mim ele sorri sempre quando eu rio. É por isso que a gente sente saudades, mas também se sente feliz. Hoje, você também tem 16 anos e a vida sorri pra você. Bom, né?
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Francisco R.Perico Reply:
dezembro 20th, 2009 at 18:26
Delly,
É bom ter novamente 16 anos, né !!!
Quem sabe outros 20, 25 etc… !!!
bjs
Francisco
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Muito lindo. Bem reflexivo!
Não moro com meu pai desde a infância. Mas hoje sou super próxima dele.
Beijos,
Maria
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Francisco R.Perico Reply:
dezembro 20th, 2009 at 18:29
Maria,
Que bom vc estar super próxima de seu pai. Afinal, pai só se tem um.
Espero que continue cada vez mais próxima dele, e ele de vc.
Bjs
Francisco
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Discordo da Jacqueline. Não é só quem é pai e mãe que conhece esse sentimento descrito lindamente no texto. Lembrei do meu pai falecido que, doente, no hospital, me confessou “que esperava por um homem”, mesmo já tendo três. E, depois, “o que seria de mim, hoje, sem você”.
Este é o primeiro texto desse site que me levou às lágrimas.
Porque lembrei também de minha sobrinha e, novamente, de meu pai: “Surpreendo-me porque agora quem faz as perguntas sou eu. Saudades, sim. Porém, feliz.”
Lindo. Parabéns. Lindo, mesmo.
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Francisco R.Perico Reply:
dezembro 20th, 2009 at 18:24
Valéria,
Agradeço as palavras carinhosas e fico feliz por contribuir nas lembranças que lhe são caras.
Bja
Francisco
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Pessoal e universal. Sensivel e realista. Um texto literario e uma carta para filha. Lindo. Parabens!
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Me fez lembrar do meu filho, do sentimento de assistir a um bebe tornar-se uma pessoa, desenvolver-se a partir das nossas influencias e de suas proprias vontades, tornando-se este ser que amamos muito, que as vezes entendemos e que as vezes nao. Lindo, me tocou muito.
Bjos
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Quando eu li este conto fiquei pensando, será ficção ou realidade?
A mim,tocou muito real. A vida é mesmo um milagre.
Parabéns!
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Tiana Maciel Reply:
dezembro 19th, 2009 at 17:45
Muito tocante mesmo. Esse amor deve ser indescritível. “Surpreendo-me porque agora quem faz as perguntas sou eu”. adorei esse final.
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Francisco R.Perico Reply:
dezembro 20th, 2009 at 18:37
Tiana,
…não só indescritível, com tbém indizível.
Bjs
Francisco
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Lindo o seu conto. Como sua irmã, compreendo e compartilho de suas emoções. Como única sobrinha e única neta do lado de cá, nossa menina chegou trazendo muitas alegrias. Também tenho muitas lembranças gostosas do seu desenvolvimento. E tenho certeza que nossos pais e nossa irmã, apesar de seus problemas, também tem. É bonito ver a sensibilidade com que você escreve isso. Adorei.
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Nossa, que coisa linda!
Gostei muito desta carta de amor de um pai, cheia de sensibilidade.
Vivemos numa época em que as pessoas não sabem mais dizer “eu te amo”.
Que Deus te ilumine a continuar nos presenteando com contos tão bonitos.
Parabéns!
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Francisco R.Perico Reply:
dezembro 20th, 2009 at 21:21
Helena,
Que milagre faz uma filha!!!
bjs
Francisco
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Tive três filhos homens. Você desejava um. Nenhum deles eu coloquei para dormir.
Creio que tenha me faltado uma menina para embalar no colo.
Talvez isto me ensinasse a compreender melhor as mulheres e eu soubesse, pelo menos, fazer perguntas.
Sucesso.
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Francisco R.Perico Reply:
dezembro 20th, 2009 at 21:27
Caro João,
Se vc me permitir uma observação, não foi a falta da menina que lhe causou a dificuldade de fazer perguntas ou compreender melhor as mulheres; acho que foi a falta de embalar os filhos no colo: afinal, criança é aquela força que nos impulsiona pra frente e a fazer grandes indagações.
Pense nisso, e um forte
Abraço
Francisco
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Lindo e sensível.
Meus pais são separados, mas sei que ele me ama e sempre estamos juntos.
Há laços que não se apagam, como a palavra escrita ou “como talha na madeira”.
Parabéns!
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Francisco R.Perico Reply:
dezembro 20th, 2009 at 21:30
Marcela,
Vc tem inteira razão. Só o fato de vc saber que seu pai a ama, já basta.
A separação dos pais podem significar “ex-mulher ou ex-marido”, mas jamais significam “ex-mãe” ou “ex-pai”.
Bjs
Francisco
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Líndo conto!!
Sensível e real na dose certa, por isso, muito gostoso de ler.
Parabéns,
Alice
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Francisco,
Aproveito para “roubar” um pouco de suas palavras e lembranças….parece que você se confunde comigo neste conto bonito e com verdades que os pais se deparam ao longo do crescimento dos nossos filhos. Você mostra com carinho e boas lembranças o que sempre me pergunto…Porquê a vida nos faz sentir saudade do que passou…
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Francisco R.Perico Reply:
dezembro 20th, 2009 at 21:13
Caro Celso,
Respondo a sua pergunta: ” porque sentimos falta do que não vivemos, ou não nos demos chance de viver, mas sabemos que está presente na nossa alma”. Acho que é isso.
A propósito, vc não roubou nada. As minhas palavras não são minhas, são nossas.
Abçs
Francisco
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Texto simples e sublime. Uma canção de ninar.
Envolvente e bem escrito.
Abraços
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O começo é muito bom. O final é muito bom.
Sinto saudades dos filhos que não tive. O tempo passa muito rápido.
Talvez eles pudessem dar-me as respostas que não tenho, das perguntas que não fiz.
Mora aqui dentro uma canção de ninar.
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Francisco R.Perico Reply:
dezembro 20th, 2009 at 21:19
Prezado Roberto,
Vc me encostou na parede. Como posso falar do que não tive? Pra mim, é difícil. Prefiro falar do que tenho. Se não posso falar do que não tive, falo então do que tenho e do que ainda poderei ter.
Abçs
Francisco
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Seu texto me remeteu há muito tempo.
Esse sentimento voltou com seu texto.
Obrigado.
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Francisco R.Perico Reply:
dezembro 21st, 2009 at 9:39
Caro Fernando,
Só posso lhe desejar BOA VIAGEM.
Abçs
Francisco
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Francisco, que carta linda!
“Por vezes, a palavra falada se evapora no ar, e a palavra escrita fica incrustada como talha na madeira”.
Que bom que você decidiu registrar esse sentimento e compartilhar conosco. Lembrei-me do meu pai, que já confessou a mesma coisa e hoje diz que não se imagina sem suas meninas (eu e minha irmã).
‘Surpreendo-me porque agora quem faz as perguntas sou eu’.
Consigo imaginá-lo, surpreso e orgulhoso de sua menina.
Parabéns e obrigada pelo texto, um presente para nós.
Beijos,
Raquel
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Francisco R.Perico Reply:
dezembro 21st, 2009 at 17:11
Raquel,
Fico feliz em proporcionar a vc doces lembranças de seu pai. Parece que somos parecidos.
Bjs
Francisco
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Os filhos crescem e muitas vezes esquecem de quantas vezes abrimos mão de nós mesmas para sermos deles.
Eu já não faço perguntas. Aceito as respostas que vieram com os netos. A vida se reiventa.
Gostei muito.
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