Segunda a Sexta

  • "Quando ela mente/ Não sei se ela deveras sente/

    O que mente para mim"

    Chico Buarque, em 'Ela faz cinema'

    Tema da Semana: CINEMA

 

postCarta para Roberto *

Raquel C. de Medeiros

Roberto,
Outro dia ganhei uma maçã no meio da rua e me lembrei muito de você. Foi uma das maiores surpresas (e coincidências) dos últimos tempos: não é muito freqüente eu sentir vontade de comer maçã. E menos ainda ganhar uma no meio da rua (e no mesmo dia!). Mas a vida ainda surpreende, Roberto (graças a Deus!). É claro que fiquei rindo sozinha e tentando desvendar o simbolismo daquele acontecimento. A maçã, Roberto, estava embalada em uma caixinha de papelão e me foi entregue no sinal de trânsito por um rapaz contratado pelo horti-fruti que vai abrir perto da minha casa.
Roberto, você acredita que eu estava falando de maçã havia dois dias? Não é historinha não, falo sério. A maçã era pequena e quase indecente de tão apetitosa. Tive vontade de correr para casa e guardá-la, mas eu estava a caminho de um compromisso. Então tive que esperar.
Senti vontade de contar para todo mundo a história da maçã, como se algo muito extraordinário tivesse acontecido. Mas depois pensei que alguns não dariam a mínima importância para a história da minha maçã. Pensei em ligar para você, mas há tanto tempo a gente não se fala, né? Desisti porque não dá pra ligar para alguém que você não fala há um tempão e sair contando uma história dessas: é preciso todo um preâmbulo e eu queria mesmo ir direto ao assunto. Você poderia achar que estou ficando maluquinha, mas sei que teria gostado de me ouvir.
Enfim, Roberto, resolvi então ligar para a minha mãe e compartilhar essa história com ela, já que naquele mesmo dia eu havia manifestado o meu desejo de comer uma maçã. Mamãe compreendeu a minha euforia e também se impressionou com a coincidência mas não sei se foi além nos pensamentos como eu. Ou talvez tenha alcançado mas sabiamente se calou. Na minha família não se comenta algumas coisas. Acho que deve ser a última das últimas: hoje em dia todo mundo fala tudo, às vezes levo até susto com as intimidades reveladas ao redor da mesa, mas eu tenho a alma velha. Lembra, Roberto, da minha teoria sobre alma nova e alma velha? Você ficava pensativo e acabava embarcando na minha, eu percebia.
Mas finalmente cheguei em casa, Roberto, e pude curtir a minha maçã: tirei-a da caixa, lavei a fruta e admirei a sua beleza antes de guardá-la na geladeira. Coloquei-a bem exposta, dessa forma, quando eu abro a porta, ela está lá, lembrando-me do que essa vida é capaz. O mais estranho, Roberto, é que agora, que ela está ao meu alcance, eu não sinto vontade de comê-la. Segunda-feira comi os morangos, terça e quarta assei bananas. Hoje é dia de cerejas, Roberto, mas ando pensando em assar a maçã com canela e conhaque e oferecê-la para o meu amor. Seria uma espécie de ritual para que eu seja para sempre seu paraíso. Estou apaixonada, Roberto, calma e apaixonada. Apesar de você não ter me dado alta na terapia, sinto-me melhor do que nunca. Mas tenho saudade das nossas sessões, sempre tão profundas, Roberto. Você ainda é um dos poucos que me conhecem bem.
Com macieiras dentro de mim,
Lorena

Roberto,

Maçã-para-o-blogOutro dia ganhei uma maçã no meio da rua e me lembrei muito de você. Foi uma das maiores surpresas (e coincidências) dos últimos tempos: não é muito freqüente eu sentir vontade de comer maçã. E menos ainda ganhar uma no meio da rua (e no mesmo dia!). Mas a vida ainda surpreende, Roberto (graças a Deus!). É claro que fiquei rindo sozinha e tentando desvendar o simbolismo daquele acontecimento. A maçã, Roberto, estava embalada em uma caixinha de papelão e me foi entregue no sinal de trânsito por um rapaz contratado pelo horti-fruti que vai abrir perto da minha casa.

Roberto, você acredita que eu estava falando de maçã havia dois dias? Não é historinha não, falo sério. A maçã era pequena e quase indecente de tão apetitosa. Tive vontade de correr para casa e guardá-la, mas eu estava a caminho de um compromisso. Então tive que esperar.

Senti vontade de contar para todo mundo a história da maçã, como se algo muito extraordinário tivesse acontecido. Mas depois pensei que alguns não dariam a mínima importância para a história da minha maçã. Pensei em ligar para você, mas há tanto tempo a gente não se fala, né? Desisti porque não dá pra ligar para alguém que você não fala há um tempão e sair contando uma história dessas: é preciso todo um preâmbulo e eu queria mesmo ir direto ao assunto. Você poderia achar que estou ficando maluquinha, mas sei que teria gostado de me ouvir.

Enfim, Roberto, resolvi então ligar para a minha mãe e compartilhar essa história com ela, já que naquele mesmo dia eu havia manifestado o meu desejo de comer uma maçã. Mamãe compreendeu a minha euforia e também se impressionou com a coincidência mas não sei se foi além nos pensamentos como eu. Ou talvez tenha alcançado mas sabiamente se calou. Na minha família não se comenta algumas coisas. Acho que deve ser a última das últimas: hoje em dia todo mundo fala tudo, às vezes levo até susto com as intimidades reveladas ao redor da mesa, mas eu tenho a alma velha. Lembra, Roberto, da minha teoria sobre alma nova e alma velha? Você ficava pensativo e acabava embarcando na minha, eu percebia.

Mas finalmente cheguei em casa, Roberto, e pude curtir a minha maçã: tirei-a da caixa, lavei a fruta e admirei a sua beleza antes de guardá-la na geladeira. Coloquei-a bem exposta, dessa forma, quando eu abro a porta, ela está lá, lembrando-me do que essa vida é capaz. O mais estranho, Roberto, é que agora, que ela está ao meu alcance, eu não sinto vontade de comê-la. Segunda-feira comi os morangos, terça e quarta assei bananas. Hoje é dia de cerejas, Roberto, mas ando pensando em assar a maçã com canela e conhaque e oferecê-la para o meu amor. Seria uma espécie de ritual para que eu seja para sempre seu paraíso. Estou apaixonada, Roberto, calma e apaixonada. Apesar de você não ter me dado alta na terapia, sinto-me melhor do que nunca. Mas tenho saudade das nossas sessões, sempre tão profundas, Roberto. Você ainda é um dos poucos que me conhecem bem.

Com macieiras dentro de mim,

Lorena

Pequeno Dicionário dos Excessos *

Don-quixote2-213x300A psicóloga Alice B. escuta pelo menos oito neuróticos por dia. Para exorcizar essa angústia, ela decidiu escrever o Pequeno Dicionário das Personalidades Excessivas, onde descreve tipos que exorbitam. Alice, às vezes, tem vontade de mandar um a um pastar, mas segue firme na missão de tentar melhorá-los. Ela diz que é caso perdido quem se identifica com mais de duas descrições deste pequeno dicionário. Os que aturam alguns desses tipos também não são perdoados: “é o medo da solidão”, sentencia Alice B.

Chato- Há aqueles disfarçados de príncipes ou princesas. Mas há também os que não escondem a chatice. O chato não tem o filtro do bom senso e você tem que se preparar antes de ligar para ele. É a versão humana do spam.

Dramático- É o egocêntrico que não admite ser menos do que o centro das atenções ou o recalcado que pode descontar em você a fúria de uma vida de erros ou desilusões (ui!). Os dramáticos são envolventes e precisam de muita atenção. Adoram discutir a relação (qualquer relação) e apontar os defeitos ou os vacilos dos outros. Falam muito de amor e usam muita exclamação.

Perua- Essa mulher tem tanta vergonha de revelar suas fragilidades, suas imperfeições, que prefere se esconder sob roupas, acessórios, marcas e muita maquiagem. Quando você encontra com uma perua, você olha para os seus brincos e não para os seus olhos.

Zen- É muito radicalismo (e chato, até) ser zen demais. A fúria, o grito e as vinganças existem para serem usados no lugar certo, na dose certa, no tempo certo.

Pessimista- O seu olhar denuncia: é opaco, sem brilho. Para ele, amanhã não será nunca outro dia. E não gosta de dançar.

Impulsivo- São bombas-humanas. A raiva os domina em um segundo e são capazes de tudo: palavras mal colocadas, agressões injustas, cobranças fora de tom. Não seguram nem o cocô.

Megalomaníaco- São tão loucos e divertidos quanto Don Quixote, mas quando você percebe que eles realmente estão falando sério sente vontade de interná-los.

Ciumento- Aquele que não sabe controlar o seu ciúme diz que é excesso de amor, mas isso é balela. Afaste-se dos muito ciumentos: o ciúme é contagioso e incurável.

Bonzinho- Eu aprendi com a vida que a gente deve ser bom, nunca bonzinho.

Metido- Sabe aquela pessoa para quem você já foi apresentado algumas vezes e sempre fala ‘muito prazer’, como se nunca tivesse te visto na vida?

Burro- Aquele que não gosta de aprender ou que acha que sabe tudo. Normalmente são arrogantes ou muito subservientes.

Narcisista- Está sempre tão preocupado em ser visto que não vê pra fora. Tem o porte de um pavão.

Mimado- Quando já passou dos quarenta não vai descobrir mais que o mundo não gira em torno dele.

Sarcástico- São muito inteligentes e muitas vezes sensacionais, mas quando não sabem dosar também são cansativos.

Espaçoso- Mexe na sua bolsa, abre as suas cartas e se convida para ir a sua casa exatamente assim: ‘você não me convida para ir a sua casa…’.

Intrometido- Ai, que preguiça desses.

Dicas da Dra Alice:

Segure o impulso de falar o que você pensa dos chatos e dos dramáticos. Seja doce e vá se afastando de fininho para não ser personagem da novela deles.


* textos selecionados pelos participantes do blog como dois dos melhores de 2009


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31.12.09 em: Quinta