Gazza
O bêbado
Equilibrista
Na voz bamba de Elis
Fui tantas vezes feliz
E num beijo
A aguardente a me embriagar
Por dois gaúchos irmãos
Mais emoção
Uma dose de dislalia
O mundo é uma alegria
No tropeço das pernas
Lembranças eternas
Mais uma dose
Um porre
Me socorre sua mão
Não me deixe nunca não
29.01.10 em: Sexta
Raquel C. de Medeiros
Vai, me abre, se serve, beba a minha pele, dissipe a minha música, confunda os meus versos, cuspa o meu jeito, flutue na minha contramão, agrida o meu silêncio, espanque a minha noite, vomite a minha voz, arremesse pedras de gelo no meu beijo, depois deixe escorrer todos os líquidos no meu cabelo, assim mesmo, vai, puxe-o até o rodapé que nos desorienta, derrube as minhas horas já quebradas, amasse a lucidez que me apruma, desprograme os meus ponteiros, desabotoe as minhas histórias e as doe ao vento que te acalma e que quer derrubar o meu vasinho de flor regado na madrugada com seu brandy frutado. Isso, deixe a brisa te enganar, enquanto isso engula-me de uma só vez, me brinde no azul fosco da parede do seu quarto, quebre a taça que me sustenta, deixe-me embebedar os seus esconderijos, me deixe vazar pelo seu chão, permita-me molhar o seu lençol egípcio quatrocentos fios, pular amarelinha nos seus sonhos, acordar no seu desvario, traduzir a sua ressaca e que seja doce, que seja doce, que seja doce vezes sete, vou repetir na sua janela, até essas borbulhas de amor não mais nos suportar e nos despejar no leito desse rio que está a desaparecer no horizonte do seu avental, Bom dia, meu amor.
28.01.10 em: Quinta
Aline Leal
Você é a primeira pessoa a quem estou contando isto, porque acho que merece após termos passado tanto tempo juntos. Foram seis anos de namoro, não é Paula? Eu realmente te amei e em nenhum momento fingi sentimentos. Se dizia que te amava era porque assim era; se estava irritado, não fingia outra coisa senão irritação, nunca soube expressar algo que se manifestava diferente por dentro.
E, como bem me lembro, foi você quem terminou comigo. Por mim, acho que teríamos casado, comprado uma casinha na Tijuca e tido aqueles filhos que sonhávamos juntos. Mas sei que tenho um gênio difícil e é verdade que o médico me diagnosticou bipolar.
Sou assim mesmo: às vezes tenho picos de euforia e sou o homem mais feliz do mundo. Tenho energia redobrada para malhar, conversar com as pessoas, estudar, e sou capaz de passar no concurso do Itamaraty durante esta fase sem fazer muito esforço. Mas então, como que do nada, vem a depressão e eu sinto dentro de mim todas as dores do mundo, um angústia insuportável, e mesmo minha aparência muda: fico gordo, branco, a expressão desanimada.
Nem precisaria estar te dizendo, você passou comigo por essas fases e muitas outras. Outra coisa que sabe sobre mim é que sou fraco para bebida. Sei que lembra muito bem da sua formatura do curso de nutrição, em que teve que ficar ao meu lado no posto médico a festa inteira por conta de algumas taças de proseco. Sua família de Minas toda veio para a comemoração e nem pôde aproveitar a sua companhia. Por isso eu já pedi desculpas inúmeras vezes.
E quando eu te acompanhava em um barzinho com seus amigos da faculdade e após um ou dois chopes eu invariavelmente dormia na mesa?Logo vi que era melhor deixar você fazer estes programas sozinhas.
Pois então foi também a bebida que me acompanhou nesta revelação que estou prestes a fazer. Depois que terminamos, eu malhava quase todos os dias e ainda tinha ânimo para ir à praia dar uma corrida. Fiquei sarado, bronzeado, bem bonito, para falar a verdade. Foi nessa época que fiz amizade com uns rapazes da academia. Eles eram do tipo que iam pra festa rave, curtiam música eletrônica e eu entrei nessa onda deles. E numa destas festas em Piratininga eu bebi além da conta, isto é, dois whiskies com Red Bull e, quando não esperava, um deles me agarrou e eu gostei. Dei o furo, Paula.
27.01.10 em: Quarta
Tiana Maciel Ellwanger
As barreiras da moral e dos bons costumes caíam na mesma velocidade em que virava os copos daquele drinque de menta e cachaça Montanhesa.
O saxofonista ficava cada vez mais atraente; a boca dele soprando o instrumento era incrivelmente sexy; teve pensamentos com aqueles lábios que a envergonhariam no dia seguinte.
O som da banda e, principalmente dele, tornava-se melhor; cada vez mais mágico. Fechava os olhos para ser transportada, preenchida por dentro, a partir da alma ou do estômago mexido pela música. Sim, sentia o sax no estômago. Respirava fundo e deixava o corpo mover-se como faria uma criança ao ouvir aquele sopro dos anjos.
Fixou os olhos nele, tinha barba e boca fina, evitando o confronto de pupilas. As barreiras, agora, inexistiam para ela tamanha a entrega ao álcool.
Ele, ao vê-la olhando insistente, sorrira de leve. Para ela, foi a senha. Subiu no palco e agarrou-o com um beijo de boca mole. O segurança puxou-a com uma força que quase curou sua bebedeira. O saxofonista, Israel era seu nome, pediu para deixá-la e continuaram o primeiro beijo dos muitos que viriam depois.
26.01.10 em: Terça
Luciene Braga
Dora não percebeu quando a tela virou e perdeu a chance de ganhar, no leilão virtual, uma viagem ao Marrocos. Com acompanhante (embora não tivesse alguém para levar, tsc).
Era a vez de dar o lance, mas estava como sempre esteve. estática, petrificada, enrijecida pelas dores dos últimos anos. Bateu a tela do laptop sem muito cuidado e decidiu beber algo gelado.
Odiava-se por só pensar em levar o arquiteto para a sua cama.
Nem se lembrava do nome dele, mas o orgasmo tinha nome: cêntrico. Epicêntrico. Doloso.
Interessava.
Dora bebeu um leite, deixou a porta da geladeira aberta, mirou a cama da saudade e voltou à cozinha. Tudo tinha o cheiro dele. As azeitonas, os talheres, os panos. Ela tinha tanto desejo que sentia vontade de se esfregar em tudo.
Acariciava a torneira da pia, quando o telefone tocou.
“Alô… não, aqui não vende água de coco”.
”
Francamente”, pensou, “esse lance de sexo requer uma concentração… E o telefone só complica”.
Entrou no site do banco e conferiu se os pagamentos entraram.
Esses entraram.
Retomando.
Teve uma ideia velha, mas apostou mesmo assim. Inscreveu-se no site de leilões. Era a mais nova mercadoria do pedaço. Ansiosamente, aguardava o martelo virtual bater, soando a frase “Vendida para o cavalheiro…”. Totalmente vendida.
Não seria como da última vez.
25.01.10 em: Segunda
x Convidado Sábado x
Por Lúcia Gomes
Eu entrei em campo da forma mais inusitada possível. Olhei para todos os lados, deixando vir, como costumo dizer, a palavra mais certeira, ajeitá-la com as mãos e arremessá-la com a alma, só para ver se você pegava. Foi assim, pronto, não pensei em mais nada, enviei e não dava mais tempo de voltar atrás. Verdade…eu nem queria. Feliz de começar esta pelada.
Surpresa boa foi descobrir você em campo, assim veloz, rápido, tentando me arrastar com os seus encantos e eu vendo que, o gol desprotegido desta forma, provocaria uma goleada triunfante. Oh, céus! Eu gritei. Pensando em me jogar sobre os seus pés para evitar que você fosse adiante. Mais rápido do que eu você já estava sobre os meus, mordendo os meus dedos, fazendo-me rir de tal maneira que estávamos nós dois do mesmo lado do campo. Chegamos juntos. Empate! Não vale, ainda não, de novo, eu lhe provocava.
Quem disse que já havia passado o primeiro tempo? Aprecio mulher com iniciativa. Disse isto tirando a minha camisola com a boca e adentrando minha calcinha com os dedos. Eu então segurei o jogo do meu jeito, colocando todas as possíveis barreiras, alvejando você com poemas meu bem bom bem bom bem bom e você gargalhando dizia que adorava o bombardeio. Eu tirava palavras do seu nome e construía outras provocantes, fazendo-me dona da história, atendendo ao seu pedido, sendo eu a atacante.
Sentei nas suas pernas, pedi colo, mesmo sendo isto um pretexto para trocar de lado no campo e me ajeitar no seu peito, só para ouvir você me chamar de querida, ou minha querida, e deixar-me ser menina.Gosto das mãos sem pressa, gosto de ler os versos escritos na minha perna, nestes momentos em que você me faz sorrir.
Assim ergui-me esfregando com os pés o gramado e respirei este instante para que minha alma se inunde da sua e eu devolva aos seus lábios o sorriso com me presenteaste, por travessura ou por arte.
Você prometeu reinventar os beijos. Neste caso, promessa é dádiva, foi tudo o que me passou pela cabeça. Você rabiscou com a língua no meu ventre, beijos de quatro de quem joga nas onze. Ainda me disse para ser obediente. Como posso obedecer a um verso saliente?
Construímos regras próprias para o nosso jogo, tais com conjugar os verbos lamber, entrar, juntar, tudo ao mesmo tempo, ou tudo junto, eu aguento, você aguenta.
O campo molhado, os corpos suados, o segundo tempo nem havia começado, e nunca houve intervalo.
23.01.10 em: Sábado