Segunda a Sexta

  • "Quando ela mente/ Não sei se ela deveras sente/

    O que mente para mim"

    Chico Buarque, em 'Ela faz cinema'

    Tema da Semana: CINEMA

 

postO homem da esquina *

Gazza

Seu olhar era devastador. Quase hipnotizante. Não mirava as coisas. Era preciso segui-lo para encontrá-lo. Sem esforço, eu fazia isso sempre quando o encontrava. Ele estava na mesma esquina, todos os dias. Justo no horário que eu passava em direção a minha medíocre rotina para o trabalho. Já havia tentado encontrá-lo em outro horário, mas nunca conseguira. Inúmeras tentativas frustradas. Aquilo me intrigava cada vez mais, principalmente pelo fascínio que aquele homem me exercia. Estava sempre maltrapilho, com o aspecto sujo. Companhia inseparável, um livro debaixo do braço. Grosso e velho. Era obssecada por  aquela imagem. Ali, imponente, no meio de uma multidão em seu vai-vem apressado, entre rostos desconhecidos. Mas aquele olhar tinha algo revelador também. E nos enontrava como se conhecesse cada um de nós. Numa dessas manhãs cinzas – era, invariavelmente, como meus dias começavam – tentei me aproximar daquela figura. Em vão. Quando me aproximei, o homem havia sumido, do nada, entre centenas de pessoas. Cheguei no trabalho ainda mais intrigada, com meia dúzia de perguntas e, óbvio, sem respostas. Lembrei que Ana fazia o mesmo caminho que eu para chegar na firma.
- Ana, você sempre passa ali naquela esquina?
- Que esquina, Maria, que esquina?
- Essa esquina, onde fica aquele homem de cabelos longos, com um livro debaixo do braço, que mais parece um mendigo.
- Que velho, Maria? Eu nunca vi isso na minha vida.
- Mas ele está ali, todos os dias. Como você não o vê! É impossível não notar a presença desse homem!
Desisti da conversa com Ana. Não teria respostas, só aborrecimentos. Na manhã seguinte, decidi mais uma vez tentar me aproximar. Havia dormido mal, numa daquelas noites em que toda minha vida passava pela cabeça. Toda essa minha vida sem sentido, de frustrações diante do que via diariamente. A manhã havia chegada mais cinza do que o comum. Nunca soube se o cinza era dos meus olhos. Perguntava se o tempo não gostava de mim. Mas seguia. Era só isso que fazia mesmo. Seguir. Havia seguido 45 anos. Me arrumei, tomei meu amargo café de sempre. Sozinha. Sentia um grande desconforto no dia a dia. Era como se a minha presença não fizesse parte daqui. Parti, com a sensação de que aquela rotina se romperia.
Meu coração batia forte e acelerava cada metro que se aproximava daquela esquina. De longe, podia sentir a presença daquele homem e pensava como Ana nunca o havia visto. Nem sempre se quer enxergar, vai saber, né. Seguia, seguia. Um primeiro olhar o avistou. De imediato, começou a seguir o olhar dele, como todos os dias. Olhares cruzados, repentinamente apressei meu passo. Foi quando ouvi, num tom calmo, sobre o silêncio da multidão.
- Mãe, há um grande descompasso entre o mundo e o homem. Não demos certo.
Foi só, apenas essas palavras. Senti que minha vida havia mudado. Tudo passou a fazer um sentido. Nunca mais vi aquele homem. Desesperadamente o procurei, por dias e dias. Até parar naquela esquina, doutor. Até a passar a viver naquela esquina, doutor. E é por isso que hoje estou aqui.
- Eu preciso tomar esses remédios mais uma vez, doutor?  - Assim, deitada na cama, sem poder me mexer?

Seu olhar era devastador. Quase hipnotizante. Não mirava as coisas. Era preciso segui-lo para encontrá-lo. Sem esforço, eu fazia isso sempre quando o encontrava. Ele estava na mesma esquina, todos os dias. Justo no horário que eu passava em direção a minha medíocre rotina para o trabalho. Já havia tentado encontrá-lo em outro horário, mas nunca conseguira. Inúmeras tentativas frustradas. Aquilo me intrigava cada vez mais, principalmente pelo fascínio que aquele homem me exercia. Estava sempre maltrapilho, com o aspecto sujo. Companhia inseparável, um livro debaixo do braço. Grosso e velho. Era obssecada por  aquela imagem. Ali, imponente, no meio de uma multidão em seu vai-vem apressado, entre rostos desconhecidos. Mas aquele olhar tinha algo revelador também. E nos enontrava como se conhecesse cada um de nós. Numa dessas manhãs cinzas – era, invariavelmente, como meus dias começavam – tentei me aproximar daquela figura. Em vão. Quando me aproximei, o homem havia sumido, do nada, entre centenas de pessoas. Cheguei no trabalho ainda mais intrigada, com meia dúzia de perguntas e, óbvio, sem respostas. Lembrei que Ana fazia o mesmo caminho que eu para chegar na firma.

- Ana, você sempre passa ali naquela esquina?

- Que esquina, Maria, que esquina?

- Essa esquina, onde fica aquele homem de cabelos longos, com um livro debaixo do braço, que mais parece um mendigo.

- Que velho, Maria? Eu nunca vi isso na minha vida.

- Mas ele está ali, todos os dias. Como você não o vê! É impossível não notar a presença desse homem!

Desisti da conversa com Ana. Não teria respostas, só aborrecimentos. Na manhã seguinte, decidi mais uma vez tentar me aproximar. Havia dormido mal, numa daquelas noites em que toda minha vida passava pela cabeça. Toda essa minha vida sem sentido, de frustrações diante do que via diariamente. A manhã havia chegada mais cinza do que o comum. Nunca soube se o cinza era dos meus olhos. Perguntava se o tempo não gostava de mim. Mas seguia. Era só isso que fazia mesmo. Seguir. Havia seguido 45 anos. Me arrumei, tomei meu amargo café de sempre. Sozinha. Sentia um grande desconforto no dia a dia. Era como se a minha presença não fizesse parte daqui. Parti, com a sensação de que aquela rotina se romperia.

Meu coração batia forte e acelerava cada metro que se aproximava daquela esquina. De longe, podia sentir a presença daquele homem e pensava como Ana nunca o havia visto. Nem sempre se quer enxergar, vai saber, né. Seguia, seguia. Um primeiro olhar o avistou. De imediato, começou a seguir o olhar dele, como todos os dias. Olhares cruzados, repentinamente apressei meu passo. Foi quando ouvi, num tom calmo, sobre o silêncio da multidão.

- Mãe, há um grande descompasso entre o mundo e o homem. Não demos certo.

Foi só, apenas essas palavras. Senti que minha vida havia mudado. Tudo passou a fazer um sentido. Nunca mais vi aquele homem. Desesperadamente o procurei, por dias e dias. Até parar naquela esquina, doutor. Até a passar a viver naquela esquina, doutor. E é por isso que hoje estou aqui.

- Eu preciso tomar esses remédios mais uma vez, doutor?  - Assim, deitada na cama, sem poder me mexer?

O destino, num 1º de julho *

Chuva, cinza e um sensação de angústia. Foi asssim que começou minha quarta-feira. No trajeto entre o Cachambi e a Tijuca, feito quase que automaticamente pelo meu carro nos últimos meses, tudo parecia irremediavelmente turvo. A vida havia parado. Essa era a sensação mais forte. Estava ali, diante do volante, o rádio ligado, mas era como se viajasse por lugares desconhecidos, descoloridos…

Cheguei em casa, ainda pela manhã, como um passado perdido…Era como se não tivesse feito aquele trajeto tão real em minha vida…Não sabia o que pensar, por vezes… Queria mesmo estar dois dias atrás daquela quarta-feira cinzenta…Não dava, apesar de todo esforço…Entrei em casa e fui tomar um café, me preparar para o resto do dia, para o resto do que me restara…Pensava no amor em mim, na vida aberta um dia pelo destino…Era o que me sustentava naquelas horas que se seguiram…

Sol, azul e a felicidade…Já era quinta-feira, ainda manhã, e estava eu ali, fazendo aquele mesmo percurso da quarta-feira anterior…No meu carro, o som ligado, buzinas, veículos eloqüentes e pessoas passando naquele ritmo cotidiano da vida…Tudo ali era real…Pulsava…Como a vida em mim…Havia deixado meu amor na faculdade, seguia para casa, com o resto do dia a me esperar, um céu de sorrisos, nuvens de algodão, esparças…O tom do amor havia retornado, como no dia em que cruzei aquele olhar azul, tão imenso, tão revelador…Meu coração batia colorido, destemido, irradiante…

As cores da vida, meus olhos miram pelo coração…No meu coração, sempre você…

Todo início é um fim. Mas todo fim nos abre um começo. Fazemos a vida das extremidades, dos opostos, num equilíbrio constante, contínuo, quase que religioso. E nessa harmonia que a vida se faz, se expande, até um novo começo. Quando me pediram para escrever sobre o tema, confesso que achei chato, genérico demais talvez. Mas aí me ocorreu o de sempre: falar do amor. O episódio lá de cima é real, vivido por mim, há alguns meses, no início do meu casamento. Dois momentos opostos, extremidades do que sentia, em cada um deles.

Pois bem, como tudo parte de um ponto, expus essa pequena história para abrir outra maior. Foi numa tarde de um 1º de julho que meu par de olhos cruzou com aquele  azul de imensidão eloquente. No meio da baldúrdia de uma redação, quase às vésperas do fechamento, o tempo parou. Sem cerimônia. Aquele olhar azulejado me revelava mais que a primeira vista de alguém nunca visto antes. Ao olhar, se seguiram poucas palavras.

- Conhece o caso Baronetti?

- Sim.

- Então, faz uma suíte para mim.

Mas sabia que ali, a vida mudava. Uma porta fechava, para outra se abrir. Aos poucos, aquela paralisia foi tomando forma, em novos encontros de olhares, em sabores, em cores, em palavras. Em descobertas íntimas. Na vida.

Destino se faz com o coração… Sempre…
P.S. Ah, mais tarde descobri que ela não sabia nada sobre o caso Baronetti. Mas como era a primeira vez na vida que pisava numa redação, deu seu jeito.

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01.01.10 em: Sexta



1 Comentário »

  1. Bruna disse:

    Eu posso não ter tido a menor idéia do que era o tal caso, mas naquele momento eu passei a conhecer mais coisas do que qualquer pessoa poderia imaginar.

    Te amo. Feliz 2010.

    [Responder este comentário]

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