Outra vida
Luciene Braga
Cheguei para ficar uns dias, certo de que logo voltaria para casa. E mergulhei feito um pássaro dramático em uma vida que não era minha. Pensei que meus advogados me preservariam da força da lei. Afinal, é para isso que servem… Mas, como para muitos, nada saiu conforme minhas ideias. Estava tudo dentro da lei. Fiz tudo errado. Admito. E meu arrependimento é sincero. Tenho hora para tudo: para banho e comida. Admito, envergonhado, que até o sexo tem hora. Divido banheiro e não posso dar um telefonema sem ser observado. Se recebo visitas, não fico um segundo sem ter a conversa violada. Até o futebol tem dia e horário. Pelo menos, as roupas já chegam lavadas. O único momento que me traz de volta o que já fui um dia é a hora de dormir. Sonho. Abuso do sonho. Mas tenho lá minhas dificuldades com isso também. Estremeço, se sinto um toque nos ombros. Já sei que é hora de seguir a minha sina de sexo e trabalhos forçados. Nem me sinto mais um homem. De ave de rapina passei a cagassebo. As revistas femininas me mostram o que estou perdendo. Minha raiva cresce a cada dia. E calo. Porque a reação é pior. Nesse mundo, não há justiça. Nem bandido merece essa prisão.
Vou apelar para os meus advogados. A gente sempre termina neles.
Se me livrar nessa, eu juro, não me caso mais.
04.01.10 em: Segunda