O atacante
Tiana Maciel Ellwanger
O jogo estava difícil, endurecido pela marcação violenta. O juiz, filho da puta, já tinha ignorado várias faltas – e até um pênalti – que nossas canelas roxas não escondiam. Vendido. Pior: medroso.
Na cabeça, a respiração do meu filho, cada vez mais difícil. E cara. Joelma chorava sempre que lavava a louça, era sua catarse; envelhecera mais rápido que os anos, na velocidade da asma de João. Aquele jogo era decisivo para nós, tinha certeza.
A bola chegou por cima. Matei no peito, ofegante com a pancada. O Luizão corria sei lá pra onde, o zagueiro branquelo segurando sua camisa. Driblei o Renatão, que dava mais medo pela baba acumulada nos cantos da boca do que pelo porte de jogador de futebol americano. Ooooolééééé!, a torcida gritou.
Calunga apareceu do outro lado, pedinte, passo? Ele já tinha errado três passes hoje. Três! Driblei pela esquerda, o tranco veio no tornozelo direito. Não caí. Nem soquei a cara paraíba do Kleber, como faria há alguns anos. Cabeça chata do caralho, gritei em pensamento, tentando ver o jogo de cima como nas aulas de Matemática de João. Calunga quase implorava pelo passe.
Estava pronto para cruzar. Toninho a caminho, saindo da marcação em direção à área.
Fiz tantas promessas que, mesmo ganhando o campeonato, seria difícil cumpri-las. Máquina de lavar pra mamãe, remédios pra João, escova definitiva pra Joelma. A escola me cobrava mil e quinhentos reais atrasados pelos garotos, ameaçados de serem expulsos para um mundo sem sonhos.
Toninho apareceu livre, pouco antes da área. Cruzei e ouvi a respiração da torcida suspensa junto com a minha.
A bola parecia voar em câmera lenta, tamanha abundância de pensamentos. Vai Toninho, é só bicar. O goleiro é ruim, olha a cara dele de desesperado. Goleiro bom faz cara de seguro, sempre, e grita com a defesa, decidindo as posições. Era ruim, a minha experiência me dava certeza.
Corria em direção à área e rezava, com a força de um último pedido.
Quando Toninho ia chutar, Renatão veio na maldade, de carrinho. Falta. Porra, ate que enfim esse idiota marcou! A poucos centímetros da área, na esquerda, como gostava. O técnico já tinha dito que eu sempre bateria dali.
Jooooãããããooo eôôôôô Jooooãããããooo eôôôôô. Ouvia meu nome no grito sem criatividade de sempre, mas que arrepiava a espinha. Pensava no meu filho, aquela torcida era para ele. Beijei a bola como se fosse sua pequena testa e ajeitei-a perto da linha branca.
Respiração, filho. Nebolizador, remédios, remédios.
Máquina de lavar, escova, colégio.
Futuro, comemoração.
Joelma. Joelma. Sorrisos.
Reclamei com o juiz da barreira. Tomei distância. O canto direito era o meu preferido. Mirei-o; depois olhei pro esquerdo ao sentir que o goleiro me fitava tentando adivinhar pensamentos. Tomei mais distância.
A corrida em direção a bola foi rápida e devagar ao mesmo tempo, não sei explicar. O prazer veio com o peito do pé esquerdo porrando a bola. A barreira tentou, sem chance, cabeceá-la. Fechei os olhos e abri com a mão do goleiro tocando o couro branco. Insuficiente.
Goooooooooooooooooooouuuuuuuuuuuuuuuuuu…
Meu peito encheu-se com a euforia que só os gols proporcionavam.
Obrigado Senhor; ajoelhei, pensando em sorrisos eternos.
19.01.10 em: Terça