Gazza
Gedézio costumava bradar a todos que lhe impunham qualquer contrariedade. No trabalho, em casa, no medíocre cotidiano da sua altivez. Não tinha mesmo conversa. Até pelos imprevisíveis e belos caminhos do amor. Era demais para Madalena. Não suportava ouvir o marido, principalmente nas discussões matrimoniais na humilde casa em que moravam, num bairro pobre da periferia de São Paulo. É, Gedézio não tinha posse. Havia transformado a soberba, o orgulho, a excessiva vaidade em suas maiores riquezas.
- Ninguém pode comigo, Madá – disparava Gedézio a cada gran finale daquilo que chamava de supremacia da palavra.
- Eu sei, meu bem – se resignava a mulher, já mecanicamente.
O cotidiano de Gedézio era esse. Ninguém o suportava, mas não estava nem aí para o que pensavam dele. Não se sentia nunca sozinho, apesar de toda solidão a sua volta. Não se admitia estar errado. Em hipótese alguma nem mesmo nas discussões mais complexas, em temas que o pouco estudo não o deixava à vontade. O velho marceneiro, filho de pais nordestinos, só se importava mesmo com sua opinião. Era única.
- Mas um dia tudo muda, Gedézio – resmungava Madalena, cansada do marido.
Todos os sábados, Gédezio partia para o bar da esquina, logo cedo. Era o ápice de sua vida. Era seu melhor e preferido palco. Ali, na periferia paulistana, nada o superava. Bebia todas para suportar o ritmo de todos os monólogos que travava ao longo da folga semanal. E chegava mal em casa, combalido. A cirrose de décadas já havia consumido sua saúde.
- Para de beber Gedézio, para – suplicava Madá, todo sábado.
- Cala essa boca mulher. Do que você entende? Já disse que uma aspririna é suficiente para me deixar novinho outra vez.
Foi a última vez que Gedézio dissera essas palavras à mulher. Vítima da certeza que nunca teve: a falta de humildade.
26.02.10 em: Sexta
Raquel C. de Medeiros
As crianças ali aprendiam que aquela era a melhor escola da cidade. Os pais sentiam-se poderosos e privilegiados por poderem pagar o preço daquele colégio e passavam isso para os filhos. A educação não era o principal motivo pelo qual colocavam as crianças para estudar ali, mas a rede de contatos. Ser ‘bem-relacionado’, essa expressão horrorosa, era uma estratégia que lhes era traçada na infância e que vinha na frente de muitos outros valores.
Aquelas pobres crianças cresciam acreditando que eram melhores do que as outras. Aprendiam cedo a usar aquela referência para conseguir admiração e respeito dos outros. A maioria acabava com uma arrogância em comum: a dificuldade de reconhecer o valor do que era diferente deles.
A sardenta Maria Alice Helal foi uma criança alegre e espontânea até ir estudar na Escola do Bosque. Seus pais não haviam passado para a menina aquele sentimento de superioridade, nem a estimulavam a repetir o comportamento padrão da escola, onde as crianças usavam os mesmos tênis, mochilas e cadernos e ridicularizavam quem não era igual. Diferentemente das outras meninas, Maria Alice Helal ainda não freqüentava o salão de cabeleireiro nem ligava para as marcas festejadas pelas colegas. Sua mãe estranhou quando começou a se aproximar o aniversário da menina.
- Vamos fazer uma festinha, Maria Alice? Você convida seus amigos da escola.
Maria Alice disse que não queria comemorar com os colegas de escola. Diante da insistência da mãe, a menina não se conteve e começou a chorar.
- O que foi, minha filha?
- Eu não tenho amigos na escola, mamãe. Não tenho companhia nem para passar o recreio. Fico lendo ou conversando com o pipoqueiro.
Espantada com a revelação da menina, Morgana Helal conseguiu arrancar da filha que ela começara a ser discriminada no ano anterior, quando fez amizade com a amazonense Daniela, a ‘Paraibinha’, como apelidaram as crianças.
- A Dani era muito legal, mas todo mundo debochava dela porque não era igual a eles. Ela tinha um sotaque forte e usava umas roupas muito diferentes. Eu gostava dela e não a deixava passar o recreio sozinha. Então começaram a implicar comigo também. Quando o pai da Dani foi transferido, no início do ano, eu fiquei sem amigos.
Morgana Helal sentiu orgulho da filha, mas também foi tomada por um sentimento de revolta.
- Os professores não vêem essas coisas, minha filha?
- As crianças também xingam e ameaçam os professores, mamãe.
- Xingam de quê?
- De imbecis e idiotas.
- E os professores não fazem nada?
- Parece que eles têm medo, mamãe. Alguns estudantes dizem ‘Você sabe com quem está falando?’. Eles se acham muito importantes.
Morgana Helal estava estupefata.
- Eu não quero mais estudar lá, mamãe. Tem uma menina lá que finge não lembrar do meu nome e só me chama de ‘coisinha’. Na semana passada teve aniversário do Rogerinho. Acho que todos foram convidados, menos eu.
Morgana Helal pensou em uma forma grandiosa de denunciar aquela casta de prepotentes. Pequenos monstrinhos, vítimas da arrogância dos pais. Poderia ser uma carta para a direção, uma carta para o jornal, um manifesto em uma reunião de pais. Estava arrasada, mas decidida a fazer alguma coisa. Depois foi perdendo o ânimo para aquela luta: teria que lidar com os arrogantes, gente insuportável, que sequer olha ara o que não lhes interessa. Pensou e sentiu preguiça. Apenas tirou Maria Alice da escola, antes mesmo do fim do ano letivo.
25.02.10 em: Quinta
Aline Leal
Há anos carrego comigo o poema que me consagrou como poeta. Nunca escrevi outro que se igualasse a este e creio que nunca escreverei. Não tenho vontade. Participo de rodas de poesia, sou jurado de concursos e apareço vez ou outra em fotos de revistas em que na legenda lê-se: “O poeta blábláblá…”
Tenho-o de cor e o recito na cabeça pelo menos três vezes ao dia há anos. Começa assim: “Ouço um pio em minha cabeça, serei eu um passarinho?” Esse verso, dito assim, parece fora de propósito e vazio; ao longo do poema, no entanto, revela-se toda uma filosofia da condição humana: sua angústia e dor, seu legado e sua abstração.
Não gosto da poesia feita atualmente. Aliás, não acredito mais na poesia até que algum jovem me prove o contrário. São todas carregadas de uma subjetividade pós-moderna ou de uma ironia tola que não revela a poesia com P maiúsculo.
Como todo poeta que se preze, sou um tímido, misantropo e arrogante convicto: prefiro um gato a um ser humano. Não dá para fazer poesia pensando na cerveja que se pretende tomar com os amigos mais tarde. Minha melhor companhia é minha angústia, meu lugar preferido é o buraco.
Não suei uma gota para escrever Passarinho, o poema veio-me numa tacada de inspiração. Não fiz qualquer alteração quando o reli, pois não era possível torná-lo mais sublime. Não há uma antologia de poemas atual que não o contenha. Mas é claro que não dá para viver de direitos autorais: venho de uma família rica.
É verdade que fiquei estigmatizado, não sem justiça, como poeta de um poema só. Acho que isso me torna uma espécie de mito: como alguém pode ter-se revelado tanto e então calado para sempre. Respondo que tudo que havia para ser dito estava escrito naqueles poucos versos. O que não é verdade, apenas não me ocorreu mais nada tão bom, e não poderia descer ladeira abaixo.
No entanto, bato do peito e proclamo-me Poeta. O poeta de minha geração. Sinto muito se isso ofende aos outros, mas seria uma injustiça não me considerar como tal. Como diz o último verso de Passarinho: “Tenho os pés no chão, haverão cortado minhas asas?”
23.02.10 em: Quarta
Tiana Maciel Ellwanger
Paty do Alferes, 20 de fevereiro de 2010
Querida prima,
O Reinaldo morreu. Foi uma morte linda, não se preocupe. Quando eu morrer, quero que seja assim, sem muito sofrimento, sem dar trabalho, sem operação. Vou te contar. Acordamos às seis, como sempre fazemos aos domingos. Tomamos nosso café, ele lavou a louça e, às oito, saímos para a Reunião. Conversamos com os vizinhos, ele contou pra todo mundo da Igreja que completávamos 51 anos de casados naquele dia, disse que o amor que tinha por mim era o mesmo do início do nosso namoro, quando me viu na escola de sainha. Ele não era fácil, né?
Mas então, como eu ia dizendo, voltamos da Reunião devagar e fui preparar nossa comida. Estava fazendo aquele bife de fígado que ele gosta, com bastante cebola. Ele bateu a porta dizendo que ia comprar um guaraná e voltou jurando que a Fanta estava mais em conta. Fiz cara feia, porque a Fanta que vendem aqui faz mal pro fígado, mas ele nem viu. Estava indo ao banheiro. Acho que foi lavar a mão. Ouvi um gemido baixo e fui ver, já sentindo que o pior estava por vir, sabe quando a gente sente?
Ele estava caído no chão, com a mão no peito, cara de dor, queria dizer alguma coisa com os olhos, me olhava meio desesperado (mas não conseguia falar), parecia que sentia que dessa não ia escapar… Ou não. Acho que acabei assustando mais ele, aquela cena do outro enfarte me veio à cabeça, Joelma, não consegui disfarçar meu estado de choque ao ver aquele homem me olhando daquele jeito. De novo. Gritei pelos meninos, o Ronaldo e o Supimpa estavam, ainda bem, na varanda, e me ajudaram a levá-lo pro hospital. Pegamos carona com o vizinho, aquele que eu chamo de rico pobre, porque é rico, mas é simples, entende?
Eu segurei a mão do Reinaldo o tempo todo, ele me olhava como se dissesse adeus. Ou não. Parecia que queria dizer alguma coisa, mas não conseguia, sabe? Até sonhei com isso ontem, que ele estava do meu lado e dizia “Wilma, eu preciso te contar um troço (ele adorava essa palavra)…”, mas quando ia contar, eu acordei. Droga!
Quando chegamos no hospital, não deixaram mais eu ver ele, foi a pior parte. Antigamente quando a gente morria, a família estava sempre ali do lado, o doente tinha chance de contar segredos, dar conselhos, passar seus ensinamentos, e pedir desculpas pelos pecados dessa vida. Lembra do vovô? Aqui não é assim não, Joelma, eu acho muito ruim, sabe, pior ainda pra quem tá morrendo, passar os últimos minutos da vida sem poder falar com quem gosta, só olhando aquelas caras de médico que são todas meio indiferentes, sem amor.
No enterro, apareceu aquela mulher que te falei. Acho que eles foram amigados um tempo. Acho tanto que quase sei. Ela estava com o garoto que deve ter a idade do Waltinho, mais ou menos. Eu tentei não olhar pra ela, mas não conseguia. Até ali, ela atrapalhou a minha vida, como se me obrigasse a dividir a dor que era só minha. Ela estava de óculos escros, mas dava pra ver que chorava um bocado. Antes de entrar pra Igreja, você sabe como eu odiava ela, né? O Eriberto, do bar, disse que ela quer falar comigo, que vai falar tudo que eu devia saber. Eu nem quero saber, na verdade. Se quiser dinheiro, coitada, mal sabe que o Reinaldo só deixou conta pendurada por aí.
E saudade. Imagina, passar cinquenta anos com uma pessoa e, de repente, ela não estar mais dormindo do seu lado, brincando com os netos, reclamando que a comida tá sem sal… Ele sempre reclamava que a comida tava sem sal, por ele, era sal puro. Mas o que mais eu sinto falta, Joelma, é de andar na rua de mão dada. A gente sempre andou de mão dada, desde o primeiro beijo até o caminho do hospital. Quando fecho os olhos, consigo sentir o calor dos dedos dele…
Na hora em que o médico me falou que eu precisava ser forte, a ficha ainda não tinha caído: ia precisar mesmo. Eu reclamava do Reinaldo, mas ele era quem tava sempre presente, que dividiu vida comigo, você teve isso com o Jô também. Mesmo tendo os meninos, os netos e bisnetos, companheiro mesmo a gente só tem um, né?
Ah! Nem te contei: pior foi a enfermeira dizendo que eu tinha que sair dali, que eu tinha que me conformar sem atrapalhar o trabalho dos outros. “Eram nada mais nada menos do que 17 óbitos por plantão”, dizia. Disse que eu tinha dado azar, que no Carnaval os médicos não gostam muito de trabalhar, sempre falta um ou outro. A garota era novinha e com aquela arrogância toda…
Eu tentei te ligar pra ver se você conseguia vir pra cá, sabe? Sinto saudade das nossas conversas até de madrugada. Mas seu telefone não tá chamando mais. De qualquer forma, escrever essa carta me fez um bem que você nem sabe, e eu te agradeço por isso. No mais, tá tudo bem, o Jorginho, que desde pequeno gosta de um livro, passou pra faculdade, você acredita? Vai fazer Química, disse que quer trabalhar pensando nos melhores biscoitos. Acho que vai longe. Ah! A Verinha ta grávida, mais um moleque pra família.
Aguardo sua ligação. Amo você, viu?
Beijos da sua prima,
Wilma
23.02.10 em: Terça
Luciene Braga
Em uma travessia de pouco mais de 10 segundos, atravessou o recinto (de festa bem festejada nos outguetos colunabiliíssimos) pensando no quanto seria observada. Adorava. Corpo de BBB, salário de modelo e drink Caras. Homens sem polifonia no encalço.
Sabia o quanto isso lhe custara.
De fato, os homens – e mulheres – perdiam os próprios radares entre os peitos e o derriére. Sorriso estudado e comedido, sabia causar (palavra que é um barato).
Roubou o irmão, por ocasião da morte da mãe. E também dela não sentia falta. Precisava dos recursos para projetos pessoais. Atraída por jovem rapaz sem futuro, declinou de uma vída crédula e sem verniz. Preferia o espetáculo até mesmo aos carinhos localizados de Vander (lei). Perdeu-se do gosto das intimidades sem variações.
Distribuiu charme sem simpatia (coisa de pobre emergente essa tal) ao som da música da moda e até passou o telefone a um selecionado que, escaneado, tinha olhar de poodle adestrado para copular em motéis caros. Ah, o champanhe valeria.
“Já derrubei vários como você“, dizia, com olhos ao beber de canudinho e mover quadris sem pudor algum.
Olhava sem olhar – as pessoas. Tudo bem. As pernas cruzavam em sinal de “lamber”. Segue assim, inquebrável, de cílios postiços e bolsas de dois dígitos. Sem remorsos ou trilha sonora, mas coleciona também homens de grife bancária. Jamais olha para fora da janela do carro. É o seu estilo.
“Eu posso”, diziam os peitos dela.
Nota do autor (que é autora) arrogante: Que mulher… quantas como ela conseguem derrubar meu coração estudado e milimetricamente despreparado com seus conceitos comprovadamente marcados para os estratagemas? A guerra dos clichês é bárbara.
22.02.10 em: Segunda
Gazza
O calor insuportável de uma noite de Carnaval, uma charmosa e centenária rua do Centro da cidade e o coração acelerado. O cenário, preparado pelo destino, marcava o reencontro de dois corações separados pela vida e a imensidão do oceano. Livia não perdia um carnaval no Rio. Havia deixado Madri para reencontrar a cidade, exatamente como fizera nos últimos anos. Mas as surpresas da vida, dessa vez, reservavam mais que os embalos atrás do Escravos da Mauá, o som marcante dos tamborins, a praia e a saudade de toda a exuberância do Rio. Aquela noite, esperada desde que seus olhos cruzaram com o de Marcelo, na balbúrdia da redação de um grande jornal, seria diferente.
Nos últimos quatro anos, os caminhos de Lívia e Marcelo seguiam sem se cruzar, nas escolhas de seus destinos. Como na tarde em que ela apareceu na cobertura de um prédio na Tijuca, mas ele não estava lá. Não era a hora. As horas, os dias, os anos passavam. Mas aquela imagem permeava suas lembranças, atrás da cortina, de longe, enquanto amores chegavam e partiam. Enquanto a vida seguia. Naquela noite, não havia como algo dar errado. O destino havia sido caprichoso com os dois.
- Oi – disse Marcelo, quase que timidamente. Um sorriso iluminado e um abraço longo e apertado de felicidade vieram como resposta. Seguido de um silêncio entre olhares. O tempo parou, como se os últimos anos não tivessem existido. Era como se voltassem aquele encontro na redação. Dali, seguiram pela cidade, sem destino. Entre cervejas, poemas, cachaça, o Morro da Conceição e sorrisos, a noite parou para a vida acontecer.
19.02.10 em: Sexta
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