Olhos
Tiana Maciel Ellwanger
Olhos passavam pela rua, ligeiros, apressados. Cruzavam os meus, desconfortáveis. Talvez porque os encarasse. Ou me encarassem.
Ou não olhavam, mirando o chão e os próximos passos, os próprios passos.
Gostava dos olhares ansiosos, infantis, estupefatos com o mundo. Correndo, observando as pombas como se fosse a primeira vez. Estranhando o mundo como se fosse a primeira vez.
E dos velhos, meus preferidos. Olhos idosos são os melhores; dizem tanto tanto entre rugas; paz e experiência num abrir e fechar de pálpebras. Dor e risos profundos. Poderia apreciar olhos velhos para sempre, sem chegar nem perto de desvendar seus mistérios trancafiados entre os cílios. Por isso, gosto tanto de fotos de velhos, olhos de velhos.
E assim continuei, vendo olhos mesmo onde eles não existiam: nas árvores, nas casas, nas mangas no chão. A procura de almas nas ruas que me diziam e me olhavam sem que pudesse evitar. Sem que quisesse evitar.
02.02.10 em: Terça