Órbitas imaginadas
Raquel C. de Medeiros
Olharam-se e ela se espantou ao perceber onde aquele olhar tão decidido poderia chegar. Mas continuou firme, olhando. Sorriu, sem saber bem o que aquele sorriso significava. Depois mexeu as mãos, enrolou a ponta do cabelo, tentou disfarçar o desconcerto. Hã? Lavínia, meu nome é Lavínia. Prazer também, e o olhar lá, resoluto, sem derrapagens. Conversaram sobre o lustre démodé daquele saguão e riram com a alegria incontida de quem acaba de reconhecer uma grande afinidade. Na troca de olhares, o movimento de um sopro arrebatador. Inesperado. Ao mesmo tempo, uma repentina certeza de que aquele encontro estava bordado nas nuvens disformes de um perdido quebra-cabeça. Qual mesmo?
A cada palavra trocada, familiaridade e estranhamento. Risos desorientados interrompiam as letras que em poucos segundos adivinhariam a gramática de um idioma distante. Delírio? Lavínia sentiu calafrios ao perceber que seus olhares afundavam cada vez mais um no outro.
Ficou sem ar. Com licença, disse Lavínia e ia fugir daquela cena, flanar pelas ruas desconhecidas daquela cidade quando foi puxada pelas mãos. Posso ir com você?, ouviu. Hã?, tentou despistar, afastando o corpo. E o olhar, aquele olhar que ela não sabia bem o que queria alcançar continuava a inibi-la. Revirava suas órbitas. Mas eu nem sei aonde estou indo, Lavínia respondeu, desassossegada. Melhor assim, disse a outra menina, antes de acompanhá-la. E mesmo sem saber aonde iam, elas foram: seguiram o bordado daquelas nuvens até encontrarem um ventilador antigo e gigantesco, que ventava ao contrário, ventilava histórias narradas em castelhano por inofensivos dragões. E Lavínia gargalhava como uma criança quando acordou sobre as nuvens bordadas em seu lençol lilás.
04.02.10 em: Quinta