Segunda a Sexta

  • "Quando ela mente/ Não sei se ela deveras sente/

    O que mente para mim"

    Chico Buarque, em 'Ela faz cinema'

    Tema da Semana: CINEMA

 

postÓrbitas imaginadas

Raquel C. de Medeiros

Olharam-se e ela se espantou ao perceber onde aquele olhar tão decidido poderia chegar. Mas continuou firme, olhando. Sorriu, sem saber bem o que aquele sorriso significava. Depois mexeu as mãos, enrolou a ponta do cabelo, tentou disfarçar o desconcerto. Hã? Lavínia, meu nome é Lavínia. Prazer também, e o olhar lá, resoluto, sem derrapagens. Conversaram sobre o lustre démodé daquele saguão e riram com a alegria incontida de quem acaba de reconhecer uma grande afinidade. Na troca de olhares, o movimento de um sopro arrebatador. Inesperado. Ao mesmo tempo, uma repentina certeza de que aquele encontro estava bordado nas nuvens disformes de um perdido quebra-cabeça. Qual mesmo?

A cada palavra trocada, familiaridade e estranhamento. Risos desorientados interrompiam as letras que em poucos segundos adivinhariam a gramática de um idioma distante. Delírio? Lavínia sentiu calafrios ao perceber que seus olhares afundavam cada vez mais um no outro.

Ficou sem ar. Com licença, disse Lavínia e ia fugir daquela cena, flanar pelas ruas desconhecidas daquela cidade quando foi puxada pelas mãos. Posso ir com você?, ouviu. Hã?, tentou despistar, afastando o corpo. E o olhar, aquele olhar que ela não sabia bem o que queria alcançar continuava a inibi-la. Revirava suas órbitas. Mas eu nem sei aonde estou indo, Lavínia respondeu, desassossegada. Melhor assim, disse a outra menina, antes de acompanhá-la. E mesmo sem saber aonde iam, elas foram: seguiram o bordado daquelas nuvens até encontrarem um ventilador antigo e gigantesco, que ventava ao contrário, ventilava histórias narradas em castelhano por inofensivos dragões. E Lavínia gargalhava como uma criança quando acordou sobre as nuvens bordadas em seu lençol lilás.

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04.02.10 em: Quinta



4 Comentários »

  1. Tiana disse:

    uau! clapt clapt clapt! Adorei tudo, a surpresa pela outra personagem ser uma menina, a alegria com a afinidade, e, claro, o ventilador mágico no final.

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  2. Aline disse:

    É sempre bom flanar com uma companhia despretensiosa.. e chegar ao fantástico… Adorei!

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  3. Lucia disse:

    “Risos desorientados interrompiam as letras que em poucos segundos adivinhariam a gramática de um idioma distante”. Este trecho sintetiza todo o universo de “Órbitas imaginadas”, como o ventilador que ventava ao contrário.

    Bjs e macieiras

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