Dor de Sofia
Luciene Braga
Vinho, cigarro apagado, contas que havia escondido na gaveta apontavam a sua falta de prumo. Nem esconder as contas conseguia. Podia ver Sofia dizendo, enquanto batia a porta e o deixava para sempre, certa que devia. Para sempre, mas não inteiramente. Foi a última coisa que ouviu dela. Ouviu mais ou menos. Mais lhe chamavam a atenção as botas que ficavam muito bem nela. Gostosa. Sentia a falta de Sofia. Achava. Dormia mais sossegado sem ela. Sofia para quê? Bastava tomar o metrô e lá estava no parque de diversões mais animado daquele lado da cidade. Mulheres a pagar, a foder e a deixar. Gozo. Sem memória. Sem sermões. Sem.
Mas por que justamente Sofia vinha à mente de forma, por vezes, explosiva, por vezes, tipo imagem de aquarela? Nem bonita era. Nem doce era. Sofia doía. Sofia mordia. Sofia morria para sempre. Bem feito.
Bobagem pensar nisso. Sofia não voltará. E nem existiu.
Nota do autor (que é autora): Conto depois essa história direito. Um conto não se conta propriamente até que se tenha com ele afeto tão grande que não tenha sentido absoluto.
08.02.10 em: Segunda