Você sabe com quem está falando?
Raquel C. de Medeiros
As crianças ali aprendiam que aquela era a melhor escola da cidade. Os pais sentiam-se poderosos e privilegiados por poderem pagar o preço daquele colégio e passavam isso para os filhos. A educação não era o principal motivo pelo qual colocavam as crianças para estudar ali, mas a rede de contatos. Ser ‘bem-relacionado’, essa expressão horrorosa, era uma estratégia que lhes era traçada na infância e que vinha na frente de muitos outros valores.
Aquelas pobres crianças cresciam acreditando que eram melhores do que as outras. Aprendiam cedo a usar aquela referência para conseguir admiração e respeito dos outros. A maioria acabava com uma arrogância em comum: a dificuldade de reconhecer o valor do que era diferente deles.
A sardenta Maria Alice Helal foi uma criança alegre e espontânea até ir estudar na Escola do Bosque. Seus pais não haviam passado para a menina aquele sentimento de superioridade, nem a estimulavam a repetir o comportamento padrão da escola, onde as crianças usavam os mesmos tênis, mochilas e cadernos e ridicularizavam quem não era igual. Diferentemente das outras meninas, Maria Alice Helal ainda não freqüentava o salão de cabeleireiro nem ligava para as marcas festejadas pelas colegas. Sua mãe estranhou quando começou a se aproximar o aniversário da menina.
- Vamos fazer uma festinha, Maria Alice? Você convida seus amigos da escola.
Maria Alice disse que não queria comemorar com os colegas de escola. Diante da insistência da mãe, a menina não se conteve e começou a chorar.
- O que foi, minha filha?
- Eu não tenho amigos na escola, mamãe. Não tenho companhia nem para passar o recreio. Fico lendo ou conversando com o pipoqueiro.
Espantada com a revelação da menina, Morgana Helal conseguiu arrancar da filha que ela começara a ser discriminada no ano anterior, quando fez amizade com a amazonense Daniela, a ‘Paraibinha’, como apelidaram as crianças.
- A Dani era muito legal, mas todo mundo debochava dela porque não era igual a eles. Ela tinha um sotaque forte e usava umas roupas muito diferentes. Eu gostava dela e não a deixava passar o recreio sozinha. Então começaram a implicar comigo também. Quando o pai da Dani foi transferido, no início do ano, eu fiquei sem amigos.
Morgana Helal sentiu orgulho da filha, mas também foi tomada por um sentimento de revolta.
- Os professores não vêem essas coisas, minha filha?
- As crianças também xingam e ameaçam os professores, mamãe.
- Xingam de quê?
- De imbecis e idiotas.
- E os professores não fazem nada?
- Parece que eles têm medo, mamãe. Alguns estudantes dizem ‘Você sabe com quem está falando?’. Eles se acham muito importantes.
Morgana Helal estava estupefata.
- Eu não quero mais estudar lá, mamãe. Tem uma menina lá que finge não lembrar do meu nome e só me chama de ‘coisinha’. Na semana passada teve aniversário do Rogerinho. Acho que todos foram convidados, menos eu.
Morgana Helal pensou em uma forma grandiosa de denunciar aquela casta de prepotentes. Pequenos monstrinhos, vítimas da arrogância dos pais. Poderia ser uma carta para a direção, uma carta para o jornal, um manifesto em uma reunião de pais. Estava arrasada, mas decidida a fazer alguma coisa. Depois foi perdendo o ânimo para aquela luta: teria que lidar com os arrogantes, gente insuportável, que sequer olha ara o que não lhes interessa. Pensou e sentiu preguiça. Apenas tirou Maria Alice da escola, antes mesmo do fim do ano letivo.
25.02.10 em: Quinta