Segunda a Sexta

  • "Quando ela mente/ Não sei se ela deveras sente/

    O que mente para mim"

    Chico Buarque, em 'Ela faz cinema'

    Tema da Semana: CINEMA

 

postDoce segredo

Raquel C. de Medeiros

        Aquele bracinho alvo e doente provocava-lhe calores. Observara-o durante muitos meses, todas as vezes que a moça ia à farmácia para tomar uma dose da injeção. Reginaldo, que ainda não tinha permissão para aplicar o medicamento, contorcia-se. Não tinha olhos para outra coisa que não fosse o braço descoberto da menina.

        Chamava-se Branca e tinha uma beleza ingênua, comovente. Seus passos eram curtos, falava pouco e quase não dava para escutar a sua voz. Ia todas as quintas-feiras, religiosamente, tomar a injeção. Naquela semana, quando adentrou o estabelecimento, os olhos de Reginaldo faiscaram uma felicidade maligna: ele enfim recebera a autorização do órgão competente para aplicar injeções. Não conteve sua ansiedade e adiantou-se:

            – Vamos lá? Hoje eu aplico.

            A menina sentiu calafrios e nem sabia exatamente por quê. Levou-a até a cabine, abriu a agulha descartável, banhou o algodão no álcool e passou cuidadosamente em seu bracinho. Depois encheu a seringa com o medicamento e conteve-se por uns instantes: sentia uma perversa vontade de machucar aquela pele fininha. Pegou novamente o algodão e esfregou no braço de Branca numa tentativa de afastar aquele desejo. Mas não conseguiu controlar seu impulso, escolheu posições e finalmente enterrou a agulha com força. A menina não gritou, não gemeu, não fez caretas, não reclamou.

            – Obrigada- disse Branca.

       Na semana seguinte, voltou à farmácia, dessa vez à procura de Reginaldo. Seu bracinho de anjo ainda conservava a marca da dor que sentira na semana anterior. Aquilo provocou os piores instintos de Reginaldo e novamente ele não conteve a vontade de machucar a garota: segurou-se por alguns segundos e espetou a agulha com ainda força.

            Na outra quinta-feira, os dois braços da menina estavam marcados e Reginaldo injetou o medicamento com ainda mais prazer: sentia um arrepio profundo e ardente ao ver o aço afundando na inocência daquela alma. Durante todo o ritual, a menina mantinha os olhos abertos e ele podia escutar seu coração ofegante.

       E assim se sucedeu: Branca voltou durante todo o ano, sempre à procura de Reginaldo. Ela agora usava blusas de mangas compridas e apenas ele tinha acesso a seus bracinhos machucados, o que o deixava ainda mais obcecado. Os dois mal conversavam, mas havia se criado ali uma estranha intimidade, uma dependência doentia de machucar e ser machucado, um desejo cujo tom foi alcançando escalas inimagináveis: Reginaldo agora sentia vontade de beber o sangue de Branca.

            Perturbado com aquelas anormalidades que não conseguia controlar, Reginaldo, que era direito e se esforçava para ser um homem bom, fez um esforço sobrenatural e um dia dobrou sua vontade de costurar, devagarzinho, o braço de Branca. Foi a primeira injeção aplicada corretamente ao fio de dez meses.

            – Já? – perguntou a menina.

        Nesse dia, Branca foi para casa com o braço ileso. Salva da dor. A menina, no entanto, sentiu nascer uma infelicidade que aos poucos lhe tomou todo o corpo. E adoeceu de desgosto.

 

       Esse é um segredo que Branca e Reginaldo nunca compartilharam com ninguém: é daqueles segredos que a gente tem vergonha de contar porque não pode compreendê-los. Depois que Branca desapareceu, Reginaldo foi esquecendo-se daquela perversão e nunca mais teve os mesmos impulsos: hoje não passa de uma lembrança apagada, dessas que a gente nem acredita que viveu.

       Para Branca, a lembrança é mais forte: ela tornou-se enfermeira e é obcecada por aplicar injeções.  Mas seu grande prazer é desencaminhar os homens com suas doces espetadas.

[Post to Twitter]  [Post to Delicious]  [Post to Digg]  [Post to StumbleUpon] 

04.03.10 em: Quinta