Segunda a Sexta

  • "Aí você vê como tudo é frágil. Uma coisinha pode derrubar tudo"

    Chiquinho, do Mombojó, para a TRIP

    Tema da Semana: FRÁGIL

 

postPedacinhos

Aline Leal

A menina atravessava a sala com uma taça de vinho na mão, um pouco desajeitada, para entregar ao pai. A mãe, vendo a cena e conhecendo a filha, gritou do outro lado da sala para que ela tomasse cuidado, que a taça era de cristal. O alerta da mãe, em vez de concentrá-la, desconcertou-a, e os dedinhos miúdos da menina soltaram-se em câmera lenta. E o cristal se espatifou, em mil pedacinhos, no chão.

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Mais tarde a mulher viveu uma grande paixão. O nome dele era Ângelo e trabalhava com seguro para carros. Passaram quatro anos entre idas e vindas, entre brigas e reconciliações. Um sentimento intenso, sofrido. Até o dia em que Ângelo desapareceu sem deixar recado. E o coração dela se quebrou em mil pedacinhos e não se recompôs.

Enterrou a mãe na cova da família. Tiveram que fazer a exumação de corpos. Tiraram uma caixa da tumba. Pularam costelas, vértebras, ossos feitos em mil pedacinhos. Vermes.

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01.09.10 em: Segunda

postTardava

Aline Leal

Tardava, vadia, queria afronhontar
Eu superioraria, zava, a cava, pra se acalentar

Eu vi o rosê do prazer se manifestas na vulva
Sem pensar em ti, na culpa, ainda de ti,

Eu me superiorizei, zava

Em quartos tortos, de homens amorfos, mas não encravava
E, vaga, dava e dava pois não era ti

Tinhosa cedia e ia às favas pi
Rava, espasmos, suava e dizia fim
Crasso ia e vinha e coisa e crau

Eu superioraria, zava

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25.08.10 em: Quarta

postDoce

Aline Leal

Ela é linda e dança como ninguém. A verdade é que me dá muita vontade de rir quando dança. Tem um jeito exótico e ritmado, faz uns passinhos engraçados, um pouco bregas até, mas divertidos. Eu não sei, me faz rir por dentro. E até rio por fora também, ela então me olha como se não entendesse, como se não houvesse motivo algum para eu me divertir, mas sei, mas tenho certeza de que dança desta maneira para me encantar, para fazer graça, e depois ainda lança essa cara de sonsa, o que enternece ainda mais a situação. E isso é em qualquer ritmo, samba, soul, reggae, rock. Só não a tomo para dançar porque então trava, fica parecendo um robozinho e soa absolutamente desconfortável, ainda que tente não aparentar e finja que está tudo bem. Eu conheço a peça, não está acostumada a um par e faz mais bonito sozinha. Não sei como deixei que saísse de minha vida, como pude tratá-la tão mal se a vejo como uma menina tão especial. Sei que foi tudo culpa minha, exigi demais de uma alma tão infantil e boa, tão pura e generosa. Acho que por isso vive melhor sozinha. Dia desses a vi pedalando pela orla de Ipanema. Ia com enormes óculos escuros, com fones no ouvido, cantarolando e balançando a cabecinha: tão linda, tão doce e cheia de charme.

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18.08.10 em: Quarta

postGabriela com Rubi

Aline Leal

Segunda-feira é dia de acordar bem cedinho, porque Dona Mara tem que estar no trabalho às dez de mãos feitas. Ela é advogada e trabalha no Centro, na Avenida Presidente Antonio Carlos, no Ministério do Trabalho. Gosta de conversar, me conta o que fez a semana toda que passou e ainda faz mil perguntas sobre a minha vida. A cor que mais tem usado ultimamente é vermelho Gabriela com uma mão de Rubi. Dona Mara tem lá pelos seus quarenta anos, ganha muito dinheiro, está sem namorado, fala bastante com a mãe pelo telefone, é agitada, se ressente de não ter virado artista, é generosa – já me deu muitas roupas quase novas – e acho que anda infeliz. Isso porque tem me recebido de cara inchada e nariz cheio, como tivesse passado a noite chorando.

Ontem à noite preparei um bolo de cenoura para levar pra ela, mas como vim espremida na van, e ainda por cima, cochilando, acabou que a calda de chocolate se esparramou toda e eu resolvi jogar o bolo no lixo antes de subir para seu apartamento. Chegando lá, Dona Mara me ofereceu uma blusa para que eu trocasse a minha manchada. Eu não aceitei e tirei a mancha de chocolate esfregando um pouquinho de água com sabão no lavabo – ela não me deixa usar o banheiro de empregada.

Como sempre, já estava tudo pronto: a água aquecida, a bacia, a toalhinha, o alicate e a espátula. Inclusive, hoje Dona Mara tinha boa aparência, sem as olheiras e os olhos inchados. Nos sentamos na cozinha e ela me estendeu as mãos. Coisa extremamente curiosa era que seus dedos estavam sem unha. Não como se ela tivesse roído até o sabugo, mas como se as unhas tivessem sido arrancadas fora em um ato de tortura. Na relação entre manicure e cliente é muito importante ser uma boa ouvinte e, acima de tudo, muito discreta, mas era impossível não reparar e tocar no assunto. Perguntei: — Você quer me contar alguma coisa, Dona Mara?

Dona Mara fez cara de desentendida e quando fixei meus olhos em seus dedos, com cara de quem exigia alguma explicação, ela disse: — Ah, isso. Minhas unhas estão muito fracas, acho que você não deve ter colocado a base fortificante semana passada, Ruth. Pode passar o esmalte por cima mesmo. Vou colocar um clarinho mesmo: Renda. Ah, e pode fazer com calma a unha porque hoje não vou trabalhar. Peguei o dia de folga.

Então começamos o ritual em que ela queria saber sobre a minha vida: como andava a oficina dos meus filhos, se minha vizinha continuava apanhando do marido, se eu estava recebendo muita encomenda de doces. Respondi tudo de maneira mais breve possível, para que a parte em que ela começava a falar chegasse logo. – Ai, ai, Ruth, deste lado aqui não há muita novidade, sabe como é, foi uma daquelas semanas tranquilinhas, sem pontos altos ou baixos. Mamãe está bem, parou de arrumar confusão com a síndica. No trabalho, não fiz muito mais que assinar alguns processos. Ah, o encanador finalmente apareceu para consertar aquela infiltração do banheiro. Bem, parece que a culpa é de uma obra do vizinho de cima, ele vai ter que coçar o bolsinho, aquele pão-durinho.

Quem não a conhecesse bem poderia dizer que parecia normal. Mas eu e Dona Mara havíamos sido apresentadas há mais de quinze anos por uma amiga dela, cliente minha, que, inclusive, já está morta. Então, no meio daquele blábláblá que eu era obrigada a escutar, o som de um rugido se fez ouvir. Imediatamente olhei para cara da Dona Mara, que mais uma vez se fez de desentendida: — O que? Ah, esse barulho, ignore, sim – Isso simplesmente não podia ser feito: — Dona Mara, me conte agora o que está acontecendo! – Então, com lágrimas nos olhos, se levantou e me puxou pela mão até o seu quarto.

Ao lado da cama havia uma jaula e, nela, um enorme tigre rajado, meio que cambaleante, como se estivesse semidopado. Dona Mara sentou-se na cama e agarrou o copo de whisky da cabeceira: — Este é o Roger. Tenho me sentido muito sozinha, Ruth, precisava de um companheiro, alguém que dividisse o quarto comigo, que me ouvisse, que me desse colo. Roger tem me feito feliz, não me julgue, por favor. Nos conhecemos há pouco tempo, mas já estamos bem íntimos, temos uma rotina normal de casal. Ele gosta de tomar calmantes e eu me tranqüilizo com um whiskynho. E assim vamos levando. Veja meu sorriso, Ruth, eu estou feliz.

Quanto a isso, era verdade. Mas eu simplesmente não podia compactuar com essa loucura. Um tigre. No quarto. Como amante. – Isso explica as unhas arrancadas, Dona Mara. – Ele gosta de chupar meus dedos – respondeu. – Isso já foi longe demais – eu lhe disse. Dona Mara agarrou forte o copo de whisky e jogou-o contra a parede. – Me deixe, me deixe, estou feliz. – Abracei-a e disse: — Calma, calma, venha comigo.

Chamei a Defesa Civil e levaram o tigre para o zoológico. Como Dona Mara é uma pessoa influente e importante, o caso foi abafado e não gerou maiores conseqüências para ela. Mas acho que nunca se recuperou e também, que nunca me perdoou. Continuo indo toda semana às segundas-feiras fazer sua mão, porém, quase não conversamos mais. Sentamos frente a frente, ela me estende as mãos, que nunca mais tiveram unhas, e diz: — Pinta por cima da pele. Gabriela com Rubi.

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11.08.10 em: Quarta

postNa garganta

Aline Leal

Tinha dor de garganta e essa era uma ótima justificativa para que não precisasse falar. Colocava a mão na garganta e era a receita para que a deixassem em paz, a senha idônea para uma espécie de libertação. Pensou: quem não gosta de andar, que corte os pés; quem não gosta de falar, que perca a voz. Seguia com um lencinho molhado em álcool canforado para que o cheiro lançasse a suspeita da sua condição. E muito bem passava os dias, sem atender telefone, sem precisar se explicar e, melhor dos melhores, sem ouvir, já que não poderia responder. Aprendeu que podia apontar no cardápio a comida escolhida, que podia sentar-se ao lado de uma pessoa e entendê-la bem sem que se falassem, que podia cantar as músicas na cabeça. E que a cabeça não tinha limites, abria-se para o céu infinito. Infinito o céu, finitas as palavras.
Quando era criança, gostava de dizer as coisas para chocar. Dizia: mamãe, tenho câncer. E a mãe falava chorando: isso é coisa que não se diz nem brincando, minha filha. Para o pai: Papai, eu vi você beijando outra mulher. E o pai vinha-lhe para cima com um cinto. Para a irmã dizia: sua Barbie é paraguaia. E tinha medo que a irmã a matasse durante o sono, dividiam o mesmo quarto. Mas nada era a verdade que ela sentia, era só ela testando as palavras, usando-as como se usa uma blusa emprestada, um sapato apertado.
E como era feliz agora que estava muda. Era como se se convivesse com um filhote e um belo dia se desse conta de que ele já era um bichano crescido.Ele não precisou dizer nada (aliás, ele não sabe falar, só mia). A mesma vitória de um somaliano que é o primeiro bailarino do Bolshoi. Era como se sonhasse, exatamente isso. Como se vivesse num sonho.
Nele, caminhou por uma aléia de palmeiras imperiais, o ar úmido, refrescante e perfumado. Avistou uma roseira, inclinou-se e arrancou uma rosa com um cheiro geladinho, desapareceu da sua mão (assim é). Agarrou um casaco e aqueceu seu corpo com uma gentileza acolhedora, no melhor estilo de vida. E de repente deparou-se com um muro. Um grande muros feito de tijolos aparentes que parecia ter sido erguido recentemente.
Pegou uma marreta e derrubou-o no chão. E não disse uma palavra.

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04.08.10 em: Quarta

postCapisce

Aline Leal

Me olhei no espelho do banheiro do restaurante, de calças abaixadas, e constatei que estava ficando muito caída. Olhei para o meu traseiro, e seu reflexo era uma propaganda de celulite, pelanca, foliculite e flacidez. Ora, eu não estava tão velha assim. Era, aliás, o meu aniversário de quarenta anos e aquele, o restaurante que eu havia escolhido para comemorar. Que horror, não estava dando mais para mim, e o pior é que eu ainda não tinha o meu gado conquistado — ainda pretendia casar e ter filhos.

Bem, voltei para a mesa onde estavam apenas minhas amigas — este ano quis comemorar a idade da loba num estilo mulherzinha e soltei:

— Meninas, quando estava caminhando do banheiro até aqui, ao ver todas vocês sentadinhas debaixo desta luz branca, me caiu a ficha de como estamos ficando velhas. Meninas, quantas rugas, papadas, o cabelo também, que horror, sem brilho, meio espigado. Bem, o corpo nem se fale, né. Tá todo mundo aqui uma pelanca só.

Respirei fundo e emendei:

— E a bunda em forma de coração, terrível. Sem contar as roupas que estamos usando, ridículas: ri-dí-cu-las! Essas calcinhas que apertam a barriga, queremos enganar quem? Vou dizer uma coisa muito séria: acabou pra nós! Acabou!

Me olhavam atônitas, mas eu estava embalada:

— E mais: quem ainda não arrebanhou o seu iaque, não espere arranjar nada melhor que um velho de dentadura, brocha e careca…E reze pra ele não usar fraldas! A partir de agora tem que se contentar com migalha, entenderam bem? Tem que roer o ossinho!

Enfiei minha cara no prato de sopa, me lambuzando toda. Levantei com minha bolsa e me despedi:

— E vocês paguem a conta. ENTENDERAM BEM? ENTENDERAM BEM?

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28.07.10 em: Quarta
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