Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postRetrato

Aline Leal

por Cecilia Meireles

Eu não tinha este rosto de hoje, 
assim calmo, assim triste, assim magro, 
nem estes olhos tão vazios, 
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força, 
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança, 
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

* Estamos de férias, postando um pouco do que nos inspira

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17.03.10 em: Quarta

postO Cativo*

Aline Leal

por: Jorge Luís Borges           

                   Em Junín ou em Tapalquén contam a história. Um miúdo desapareceu depois de um ataque dos índios; disse-se que o tinham raptado. Os seus pais procuraram-no inutilmente; passados anos, um soldado que vinha de terra adentro falou-lhes de um índio de olhos celestes que bem podia ser seu filho. Deram por fim com ele (a crónica perdeu as circunstâncias e não quero inventar o que não sei) e pensaram reconhecê-lo. O homem, trabalhado pelo deserto e pela vida bárbara, já não sabia ouvir as palavras da língua natal, mas deixou-se conduzir, indiferente e dócil, até casa. Aí se deteve, talvez porque os outros se detiveram. Olhou a porta, como se não a compreendesse. De repente, baixou a cabeça, gritou, atravessou correndo o saguão e os dois pátios largos e enfiou-se pela cozinha. Sem vacilar, mergulhou o braço no enegrecido sino e tirou o canivete de cabo de chifre que ali tinha escondido em criança. Os olhos brilharam-lhe de alegria e os pais choraram porque tinham encontrado o filho.
                       Talvez a esta recordação se tivessem seguido outras, mas o índio não podia viver entre paredes e um dia foi à procura do seu deserto. Gostaria de saber o que terá sentido naquele instante de vertigem em que o passado e o presente se confundiram; gostaria de saber se o filho perdido renasceu e morreu naquele êxtase ou se conseguiu reconhecer, como uma criatura ou um cão, os pais e a casa.

* Estamos de férias, postando nossos textos, vídeos ou poemas favoritos

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10.03.10 em: Segunda

postFogueira

Aline Leal

Envolvo-a em meus braços enquanto chora, ela não me ama. Tive esse sonho na noite anterior e acordei com dor no peito.E custei a voltar a dormir. E cheguei atrasado no trabalho. E estamos juntos há tantos anos e ela nunca esqueceu aquele homem e chora por ele e chora porque não me ama. Apertei-a junto a mim na cama, no sonho, e acordei com dor no peito, e acordei com falta de ar. E me levantei e tive vontade de lhe perguntar: Anna, você me ama? — Silêncio — Não.

 

                                                ***

Busquei anteontem a roupa na lavanderia; ontem, a empregada passou; hoje, vou para o trabalho de terno, gravata, sapato envernizado. É meu primeiro dia na empresa: os funcionários me lançam sorrisos — Bom-dia!

—    Bom-dia! — Bom-dia! — Bom-dia! — Bom-dia! — Bom-dia! — Bom-dia!

Dez anos neste mesmo emprego, não fiz amigos, não fiz dinheiro, enrolo a metade do expediente, vendo dez dias das minhas férias anuais, sou puxa-saco, mantenho a mesma função.

 

                                                ***

Acordo com dor no peito, há dias tenho insônia. Eu não a amo, e ela dorme um sono tranquilo. Levanto, dou voltas pelo quarto, Nada me vem à cabeça, estou cansado de tentar. Acordo Anna — Não quero mais fingir. Por favor, arrume suas coisas e volte para casa de sua mãe. Mas não faço isso, vou para a cozinha, enfio pão de fôrma na boca sem sentir o gosto, engulo leite para poder descer. Vou para o sofá. Durmo até às onze. Chego atrasado no trabalho.

 

                                                ***

Pedi demissão de um emprego estável. Fui tentar a sorte de ser artista, com medo de ser um fracasso. E desistir e ter que pedir socorro aos meus pais. E me considerar patético.

Não foi bem assim, em poucos meses, estava expondo em galerias importantes e ao fim do primeiro ano de trabalho, fui contemplado com uma individual internacional. Desenvolvi uma mecânica para minha obra, é tão ridículo eu ser reconhecido um artista. Meus quadros não me compreendem, não significam nada para mim, observá-los expostos em um museu me faz doer o coração. O que representam para minha vida? Vou queimá-los.

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03.03.10 em: Quarta

postMaiúsculo

Aline Leal

Há anos carrego comigo o poema que me consagrou como poeta. Nunca escrevi outro que se igualasse a este e creio que nunca escreverei. Não tenho vontade. Participo de rodas de poesia, sou jurado de concursos e apareço vez ou outra em fotos de revistas em que na legenda lê-se: “O poeta blábláblá…”

Tenho-o de cor e o recito na cabeça pelo menos três vezes ao dia há anos. Começa assim: “Ouço um pio em minha cabeça, serei eu um passarinho?” Esse verso, dito assim, parece fora de propósito e vazio; ao longo do poema, no entanto, revela-se toda uma filosofia da condição humana: sua angústia e dor, seu legado e sua abstração.

Não gosto da poesia feita atualmente. Aliás, não acredito mais na poesia até que algum jovem me prove o contrário. São todas carregadas de uma subjetividade pós-moderna ou de uma ironia tola que não revela a poesia com P maiúsculo.

Como todo poeta que se preze, sou um tímido, misantropo e arrogante convicto: prefiro um gato a um ser humano. Não dá para fazer poesia pensando na cerveja que se pretende tomar com os amigos mais tarde. Minha melhor companhia é minha angústia, meu lugar preferido é o buraco.

Não suei uma gota para escrever Passarinho, o poema veio-me numa tacada de inspiração. Não fiz qualquer alteração quando o reli, pois não era possível torná-lo mais sublime. Não há uma antologia de poemas atual que não o contenha. Mas é claro que não dá para viver de direitos autorais: venho de uma família rica.

É verdade que fiquei estigmatizado, não sem justiça, como poeta de um poema só. Acho que isso me torna uma espécie de mito: como alguém pode ter-se revelado tanto e então calado para sempre. Respondo que tudo que havia para ser dito estava escrito naqueles poucos versos. O que não é verdade, apenas não me ocorreu mais nada tão bom, e não poderia descer ladeira abaixo.

No entanto, bato do peito e proclamo-me Poeta. O poeta de minha geração. Sinto muito se isso ofende aos outros, mas seria uma injustiça não me considerar como tal. Como diz o último verso de Passarinho: “Tenho os pés no chão, haverão cortado minhas asas?”

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23.02.10 em: Quarta

postVai que é tua

Aline Leal

Três dias sem dormir. Vagando pelas ruas do centro e zona sul, me unindo a amigos e desconhecidos, movida a cerveja e salsichão. Olha a cabeleira do Zezé. Meus pés estão negros, tudo que é nêgo já pisou, o meti em valas e bueiros. Sábado choveu, mergulhei no chafariz da Praça XV, entrou lodo na minha calcinha. Blergh!

Estou fantasiada de decadence avec elegance. Mesmo suja e moribunda, estou um arraso. Devo estar, já beijei uns oito caras na última hora. Meu bordão: Vem cá, bueiro, que eu vou te dar um sugadão. Vrrlll.

Já não ouço mais vozes, só uma batida surda ecoando no fundo do ouvido: Tum-tum-tum, seguida de um apito irritante.Ahhh, índio quer apito se não der pau vai comer. Uêpa! Tira a mão daí, índio safado.

Vai, popozuda! É o Pet, é o Pet, é o Pet. Uêpa! Ô, engraçadinho, minha bunda não é mamão. Elvis não morreu, Marilyn não morreu, são tantas emoções, bicho! Vai que é tua, Taffarel!

Quarta-feira de cinzas, um relógio parece tiquetaquear dentro da minha cabeça, contando os segundos para o fim do carnaval, e o meu. Estou a poucos centímetros do fundo do poço. Blergh, vomitei! O dia anoitece, volto para casa, pouso minha cabeça no travesseiro, as marchinhas me assombram: Ei, você aí, me dá um dinheiro aí. Fui às touradas de Madrid…Insônia!

Quinta-feira: o despertador toca às 8:30h. Tomo um banho, coloco e meu terninho e vou para o Fórum.

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17.02.10 em: Quarta

postZava

Aline Leal

Tardava, vadia, queria afronhontar

Eu superioraria, zava, a cava pra se acalentar

Eu vi o rosê do prazer se manifestar na vulva

Sem pensar em ti, na culpa, ainda de ti

 

Eu me superiorizei

 

Zava, em quartos tortos, de homens amorfos, mas não encravava

E, vaga, dava e dava pois não era ti

 

Tinhosa cedia e ia às favas pi

rava espasmos suava e dizia fim

Crasso ia e vinha e coisa e crau

Eu superioraria, zava

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10.02.10 em: Quarta
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