Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postA Canja

x Convidado Sábado x

Por Rozane Monteiro

- Dá um uísque aí, Souza.

- Tá na mão.

- Não, na boa, hoje foi foda.

- Calma, cara. Quase matou num gole só. Que que houve?

- Ela tacou sal no arroz, Souza. Encheu de sal, cara. Ela sabe que eu odeio sal, porra. Tô aqui, agora, morto de sede por causa daquela merda daquele sal. Puta. Escrota. Fez só pra me sacanear.

- Mas, cara, tu não tá exagerando, não? Vai ver a mulher errou na mão, ué. Vai ver tá de TPM.

- TPM de cu é rola, Souza. Isso é viadagem, invenção de mulé mal-amada, que fica sem pau. Aí, fica puta, e bota a culpa na porra da menstruação. Caralho, o mulherio sangra todo o mês desde que o mundo é mundo, nunca teve essa merda, agora, tudo é TPM. Viadagem. Vi-a-da-gem!

- Cara, essa porra é séria. É porque só agora descobriram que mulher de TPM faz um monte de bobagem. Elas mudam, mesmo. Porra, mané, pensa bem, ficar sangrando entre as pernas todo o mês deve ser uma merda. Se tu tivesse que enfiar uma porra dum OB no pau todo mês, ia ficar tranquilão assim?

- É, mas a gente não sangra pelo pau. Por que que elas não reclamam com Deus, ué? Vai na porra do papa, sei lá. Quem mandou começar aquela história da maçã pra anta do Adão? Desencaminharam o cara, se fuderam, e agora tão pagando. Fodam-se.

- Ih, foi mal, não sabia que tu era religioso.

- Religioso é o caralho. É que tô de saco cheio, é só isso. E, vamos combinar: se elas sangram todo mês, algum motivo rola. E a culpa não é nossa, porra.

- Ih, parece que é tu é que tá na TPM.

- Vai se fuder.

- Então, tá. Tá puto, não vou discutir. Vou só te contar como é lá em casa. A minha mulé, quando tá assim, erra até no café. Te juro. É um troço maluco. Mas eu resolvi relaxar e já me acostumei. Conto os dias. Quando sei que tá perto da bicha menstruar, saio até de perto e só pego nela se ela chegar primeiro. Não tomo iniciativa de jeito nenhum. Quando eu tentava, era um tal de “meu peito tá doendo”, “minha barriga tá inchada”, “tô gorda igual a uma vaca”. A Lu sempre foi gordinha, e eu sempre gostei, porra. Mas, quando ela tá nesses dias, fica achando que engordou 10 quilos em uma semana e vai fazendo drama. Quando o troço baixa, eu dou graças a Deus. Mesmo com aquela lambança toda vazando no lençol, tudo vermelho, pau rosa, me dá o maior alívio. Primeiro, porque, aí, a gente sabe que ela não embuchou. Segundo, meu camarada, o melhor é que ela vai voltando ao normal, sabe? Quem sabe o sal não é esse negócio?

- Né, não, Souza. Eu conheço aquela vaca. Ela fica esquisita, sim, nesses dias, antes de ficar, mas nunca, vou te dizer, nunca, mesmo, em 10 anos, caralho, nunquinha errou no sal. Até porque ela também não gosta de sal e sempre teve o maior cuidado com isso. Ela fez foi de sacanagem. Parecia que tava dando recado. Que saco. Por que não fala logo o que tá acontecendo, na minha lata?  Se bem que, ontem à noite, veio com um papo estranho, dizendo que eu tava diferente, que ela tava infeliz pra caralho, com tédio, sabe?

- Ih, então é grave. Mais um?

- Bota aí. Precisa trocar de copo não. E bota pouco gelo. Só volto pra casa hoje de gatinho, bem bêbado, pra não ter que aturar a palhaça enchendo o meu saco. Quero apagar na cama sem nem ter que olhar pra cara dela. Porra, cara, arroz salgado é sacanagem!

- Calma, cara, calma. Tu num gosta da mulé?

- Gosto, porra. Pra caralho. Gosto, mesmo. Aliás, gosto porra nenhuma. Eu amo aquela maluca. Mas tá foda, cara, tá foda. Parece que ela é que desapaixonou. Me olha com um desprezo na porra do olhar, como se eu fosse o chato que tá atravancando a vida dela. Eu fico sem saber o que fazer. Vivo de pau duro, doido pra meter, e ela nem aí. Agora, cismou de ler na cama.

- Tenta dar um gelo, ué. Sempre funciona. Elas fazem isso com a gente o tempo todo, e a gente cai igual a patinho. Tenta dar o troco. Não vai sacanear a mulher, porra, xingar, essas coisas. Mas dá um gelo bacana, olhando com o mesmo olhar de desprezo, pra ver o que que acontece.

- Eu não consigo, eu não consigo, cara. Quando ela me olha daquele jeito ou me fala alguma merda, tenho uma gana de partir pra cima dela e enfiar a mão na cara.

- Enfiar a porrada na tua mulé só vai piorar, vai por mim, só vai piorar.

- O que me deixa maluco é que, quando a gente tava namorando, ela ficava toda bonitinha na cozinha, fazendo comida pra mim, maior capricho, eu juro.  Era saladinha, coisinha temperadinha, peixinho, arrozinho, tudo bacana, pouquíssimo sal. Ela sabia que eu não gostava de sal, porra. Sem falar na porra da canja.

- Que que tem a canja?

- Canja da boa, cara. Igual à de mãe. Melhor que a do Lama’s.

- Melhor do que a do Lama’s? Ah, ô, ô, ô… Tu tava era apaixonado, querendo comer. Mulher nenhuma faz canja melhor do que a do Lama’s. Menos, cara, menos.

- Tô te falando, porra. E olha que ela nem bota hortelã. Bota salsinha.

- Tu não entende nada de canja, palhaço. A alma da canja é a hortelã.

- Porra nenhuma. A dela é com salsinha, picadinha, verdinha também. É um negócio espiritual.

- Canja espiritual? Vem cá, tu tá ficando viado, ô, mané?

- Viado é o caralho. A mulé sabe fazer canja, porra. É só isso.

- Tá, já entendi. Tu tá puto porque a mulé salgou o arroz e agora vem com essa história de canja. Tu tá procurando chifre em cabeça de cavalo, como dizia a minha mãe.

- Dá mais um aí.

- Tá na mão.

- Mas, sério, cara, esse arroz salgado foi um sinal. Ela vai me dar o chute.

- Calma, porra. Lembra da TPM.

- Ela acabou de menstruar, porra. Não é TPM, nada. É recado, mesmo.

- Tá, além dessa bobagem do arroz salgado, tem mais alguma coisa errada entre vocês?

- Bem… até tem, mas acho que não tenho coragem de dizer, não.

- Fala, logo, porra.

- Não, é muito íntimo demais.

- Cara, na boa, tu vem aqui encher o meu saco com essa babaquice de arroz salgado e canja e agora não quer falar dos outros problemas que cês têm. Se tu quer ajuda, tem que contar a porra toda.

- Tá bom, eu conto.

- Tô ouvindo.

- Quando a gente tava namorando, antes de morar junto, a mulé era uma louca na cama.

- Sei.

- Falava sacanagem, pirava, virava minha puta na cama, eu juro.

- E?…

- Aí, se meteu a fazer análise. Ela falava que queria ficar equilibrada, se libertar dos fantasmas todos. Eu achei até legal. Aí, ficou tão equilibrada que agora só quer trepar com calma, com cafuné, falando que me ama, toda docinha, toda comportadinha. Caralho, Souza, caralho! A minha puta se escafedeu. Cara, ela falava, eu juro, que queria ser minha puta e tal. Agora, quer “fazer amor” e fica perguntando, durante a trepada, se eu amo ela. Até amo, mas tem hora que não é hora de dizer, né? Tem hora que é pra falar putaria, porra. E a culpa só pode ser daquele terapeuta, que, aliás, só pode ser viado.

- Calma, cara, mulher é assim, mesmo. Tem hora que quer ficar mocinha. Deixa ela. Se ela era maluca assim na cama, daqui a pouco passa essa bobagem de ficar equilibrada. Sossega a porra do facho. Daqui a pouco, ela volta a ficar putona na cama. Mas eu acho que era bom ela largar esse terapeuta, o cara tá erradão. Ela paga com o dinheiro dela?

- Não, pior. É caro demais. Ela paga com o dinheiro do pai. Tá vendo? Não posso nem proibir. O velho me ajuda sempre que preciso de dinheiro. Como é que eu vou brigar com o cara?

- Puta que o pariu. Mas, vem cá, conta aí. O que que cês faziam que agora ela não faz mais porque tá equilibradinha, tadinha?

- Vai se fuder, Souza. Porra. Tô falando sério, e tu fica aí de sacanagem.

- Uai, cara, só queria saber. Pra ajudar, mesmo. Conta aí, conta aí.

- Num conto nem a caralho. Isso é coisa nossa, porra.

- Então, foda-se, vem desabafar no boteco e agora fica de viadagem. Caguei.

- Tu tá é querendo bater punheta depois, pensando nessa porra.

- Agora, é tu que vai se fuder, mané. Minha vida com a Lu tá ótima. E ela continua maluca na cama, tá? Faz tudo o que eu peço, palhaço – Souza debruça no balcão e quase sussurra no ouvido do coitado – Outro dia, até botou uma roupa meio de freira. Caralho, cara, foi uma maluquice. Eu tava meio de padre. A mulé ficou louca. Parecia uma cadela no cio. Gritava, esperneava, me chamava de “meu padreco”, “meu macho”, rebolava igual a… sei lá… Mexia que parecia que ia deslocar a porra da bacia. Fiquei até com medo dela me torcer o pau. Sem sacanagem. Aí, quando gozou, ficou gritando “ai, meu Deus, ai, meu Deus do céu, ai, minha Nossa Senhora”. De véu e tudo, cara. De véu, tá? Pra piorar, depois que gozou, me apertou de jeito e me disse no ouvido, enquanto me mordia a porra da orelha, que, da próxima vez, queria me fuder assim, vestida de freira, eu, de padre, numa igreja. Numa porra duma igreja, cara. Eu tô achando meio demais, mas vou te dizer: fico de pau duro só de pensar em comer minha mulé numa igreja, ela gritando “ai, meu Deus, ai, meu Deus do céu, ai, minha Nossa Senhora”. Fico até arrepiado.

- Tá bom, eu falo. Já tô na merda, mermo. E, já que tu me deu um segredo, eu te dou outro. É o seguinte: a Miriam não quer mais dar o cu. O cu, Souza, o cu, coisa que a puta pediu quando a gente trepou pela primeira vez. Num forcei nada. Foi a vaca quem pediu. Agora, que tá “equilibrada”, não quer mais dar a porra do cu. Diz que não é natural; que homem foi feito só pra comer a buceta da mulé; que esse negócio de dar o cu é cultural, invenção do homem moderno. Falou até de aquecimento global, cara, de aquecimento global. Na porra da cama! Quando ela fez que ia começar a falar de urso polar, eu levantei e fui pro banheiro dar uma mijada pra não enfiar a mão nela. Tá foda, Souza, tá foda de aturar.

- Puta que o pariu, mulher que desiste de dar o cu é porque tem alguma coisa errada. Tu não machucou ela, não, cara? Sei lá, na empolgação, às vezes, a gente vai enfiando tudo, amarradão, e acaba machucando.

- Não, eu juro. Ela sempre gostou. Gozava igual a uma cadela, igual a tua Lu.

- Ô, ô, ô, dá pra deixar a Lu fora dessa conversa de cu?

- Foi mal, cara. Era só pra dar o exemplo, sabe, pra tu entender. Foi mal aí.

- Tudo bem, cara. Mas, vem cá, ó, a Lu também adora essa porra. E já me disse que até goza no cu. Eu acho esquisitão, mas ela jura que goza no cu. Eu acredito. Não sou viado, não entendo desse negócio de dar o cu, mas, como parece que é bacana pra ela, só posso acreditar na mulé, né? É sério.

- Pois é, a Miriam também sempre me disse isso. Agora, não quer mais. Só pode ser coisa do terapeuta viado.

- Cara, analisa, se o cara fosse viado, não ia implicar justamente com esse negócio de dar o cu, né, não?

- É, de certa forma, cê tem razão. Mas ficar sem cu e sem canja é foda.

- Hein?

- Pois é cara, na boa. Ela já me disse que não vai mais fazer porra de canja nenhuma, que dá muito trabalho, e que tava até pensando em virar vegetariana porque comer bicho é muita crueldade. Eu posso com isso? Cu, a gente acaba arranjando por aí. Tem sempre uma mulé maluca doida pra dar o cu, né, não?

- É, é verdade. Tem sempre uma maluca pra dar qualquer coisa. Cê vê aqui, a mulherada bebe pra caralho. Duvido que não saia daqui pra rodar pela Lapa, doida pra dar.

- Pois é, Souza, o problema é a canja. O problema é a porra da canja. Nem no Lama’s, cara, nem no Lama’s.

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13.02.10 em: Sábado

postO Lance

x Convidado Sábado x

Por Lúcia Gomes

        Eu entrei em campo da forma mais inusitada possível. Olhei para todos os lados, deixando vir, como costumo dizer, a palavra mais certeira, ajeitá-la com as mãos e arremessá-la com a alma, só para ver se você pegava. Foi assim, pronto, não pensei em mais nada, enviei e não dava mais tempo de voltar atrás. Verdade…eu nem queria. Feliz de começar esta pelada.
        Surpresa boa foi descobrir você em campo, assim veloz, rápido, tentando me arrastar com os seus encantos e eu vendo que, o gol desprotegido desta forma, provocaria uma goleada triunfante. Oh, céus! Eu gritei. Pensando em me jogar sobre os seus pés para evitar que você fosse adiante. Mais rápido do que eu você já estava sobre os meus, mordendo os meus dedos, fazendo-me rir de tal maneira que estávamos nós dois do mesmo lado do campo. Chegamos juntos. Empate! Não vale, ainda não, de novo, eu lhe provocava.
        Quem disse que já havia passado o primeiro tempo? Aprecio mulher com iniciativa. Disse isto tirando a minha camisola com a boca e adentrando minha calcinha com os dedos. Eu então segurei o jogo do meu jeito, colocando todas as possíveis barreiras, alvejando você com poemas meu bem bom bem bom bem bom e você gargalhando dizia que adorava o bombardeio. Eu tirava palavras do seu nome e construía outras provocantes, fazendo-me dona da história, atendendo ao seu pedido, sendo eu a atacante.
         Sentei nas suas pernas, pedi colo, mesmo sendo isto um pretexto para trocar de lado no campo e me ajeitar no seu peito, só para ouvir você me chamar de querida, ou minha querida, e deixar-me ser menina.Gosto das mãos sem pressa, gosto de ler os versos escritos na minha perna, nestes momentos em que você me faz sorrir.
         Assim ergui-me esfregando com os pés o gramado e respirei este instante para que minha alma se inunde da sua e eu devolva aos seus lábios o sorriso com me presenteaste, por travessura ou por arte.
         Você prometeu reinventar os beijos. Neste caso, promessa é dádiva, foi tudo o que me passou pela cabeça. Você rabiscou com a língua no meu ventre, beijos de quatro de quem joga nas onze. Ainda me disse para ser obediente. Como posso obedecer a um verso saliente?
         Construímos regras próprias para o nosso jogo, tais com conjugar os verbos lamber, entrar, juntar, tudo ao mesmo tempo, ou tudo junto, eu aguento, você aguenta.
         O campo molhado, os corpos suados, o segundo tempo nem havia começado, e nunca houve intervalo.

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23.01.10 em: Sábado

postRima

x Convidado Sábado x

Por Marco Pólo
 
Dorme o tolo.

Sola o dolo.

Toma o solo.

Lama no colo.

Caramba, manias de rimas. Vou descaralhar os sons de mesma vibe e tocar é um zaralho na ordem das palavras, na ordem dos meus dias, na ordem dos papéis, na ordem dos bordéis.

Palavras brancas eu mancho.

Palavras mancas eu monto.

Caralho, quase rimei de novo. Viciei nesse troço.

Pronto, encaretei.

Agora, envaretado, parto para um show no Canecão. De sapatos brilhantes. Paro tudo e observo, com sorriso, o brilho dos meus pés.

Putz, que era chique isso. Mereço uma mulher de saltos altos.

Olho para o lado e… como pode?

Dorme o tolo.

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16.01.10 em: Sábado

postPoeta XXI

x Convidado Sábado x

Por Andre Lobato

Caiu o muro das paixões,
fez-se o poeta que investe na bolsa.
Não há mais pressa em sentir.
Qualquer giro misterioso
das idéias
pode esperar a Nasdaq fechar.
De todas as dores e amores
a serem cantadas,
resta no caderno do poeta
a frieza necessária
do fazer contas.
E quente coração
que implodiu mil vezes,
agora entra no salão,
a comer pipocas e
esperar o verso
se publicar.

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09.01.10 em: Sábado

postQuarto de Motel

x Convidado Sábado x

Por Vinícius Faustini

Você não vai tirar a roupa?
Ele perguntou sem pestanejar
Sua voz era tomada pelo descaso
E eu tinha de amargar seu afeto raso

Encaminhei meus passos para o banheiro
Ele justificou que era por um bom dinheiro
Ameacei protestar, mas ele logo ficou faceiro
Implorando que eu o saciasse por inteiro

Comecei a dançar conforme a música, constrangida
Ele deixou o quarto à meia-luz
Dancei selvagem, com raiva da vida
Ele me louvando, por ser uma mulher que seduz

No limiar entre o sensual e o vulgar
Aos poucos, fui fazendo ele se assanhar
Cada parte do meu corpo que eu começava a mostrar
Vinha um suspiro dele, a me elogiar

Encaixei meu corpo em seu colo
Ele parecia outro com minha nudez a tiracolo
Aos poucos, eu gostava de ser uma mulher de subsolo
Dei-lhe uma mordida nos lábios, quebrando o protocolo

Mas minha fragilidade foi um raro momento
O prazer dele se diluiu num mero lamento
Tinha a inutilidade de uma camisinha
Descartável, no lixo, resto de uma aventurazinha

Obedeci ao seu “vamos embora”
Ele alegou que era tarde, e tinha hora
Eu mal tive tempo de tomar um banho
Ou de acertar a lente de olho castanho

Terminei a noite abandonada numa rua
Com minha tristeza amparada por uma ideia crua
A de que não sou biscate encontrada em bordel
Para eu ser sua puta, só no luxo de um quarto de motel

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02.01.10 em: Sábado

postConto de Natal

x Convidado Sábado x

Lúcia e BethPor Lúcia Gomes

Moro na Gávea, onde nasci de parteira, na cama da minha mãe. Não me perguntem o porquê. Jamais saberei responder. Este não era o costume da época.
A Gávea da minha infância era formada por casas antigas com amplos quintais, criava-se galinha, todos tinham cachorros, os vizinhos ofereciam temperos da própria horta. Algumas casas possuíam nascentes, pequenos córregos onde podíamos pegar água quando esta não chegava às torneiras. Poucos prédios, de quatro andares no máximo, compunham esta paisagem. Morávamos num desses prédios, de apenas dois andares, apartamento térreo com quintal. Mamãe não gostava de animais. Creio que os cinco filhos já eram suficientes para abanar o rabo por todos os possíveis cachorros. Gostava de plantas e cultivava orquídeas. Talvez por isso elas nunca se mudaram daqui. Hoje convivem bem com os pássaros, os ninhos que fazem na árvore e os meus cachorros.
Aqui em casa, havia o costume de se comprar um peru vivo para a Ceia de Natal. Vovó se encarregaria da matança, depois que o pobre, já bêbado de tanto tomar cachaça, cambaleava pelo quintal até cair num sono profundo. Isto era o trágico, o lado obscuro da Ceia…mas tinha o antes.
Mamãe passava horas gritando ao telefone com o Seu Manoel do Açougue, se o peru era grande, se era pequeno, se estava fresco, se… Papai era surdo e gritava mais alto, falando ao mesmo tempo, para a mamãe não perguntar do peru do açougueiro, não ficava bem, podiam escutar, o que pensariam? Ela corrigia, estou perguntando do peru ao açougueiro, ele não queria saber da gramática, e continuava gritando, mamãe perguntava quando iam entregar…Vovó acabou entrando pela porta da sala com o bicho vivo, amarrado num jornal.
Solta, solta no quintal, gritávamos eu e Zazá, felizes da vida com o bicho de estimação. Lá foi ele, lépido, livre, correndo da gente pelo quintal.
O problema do telefone acabou e começou o da vovó se meter em tudo. O rádio só mudaria a gritaria das estações. Vovó não ceava com a gente. Vinha no dia seguinte comer os pés, as asas, o sobre.
Nada mais interessava a nós deste mundo adulto. Eu e Zazá estávamos felizes. A ave era enorme para nós e fazia um barulho esquisito. Resolvemos batizá-la de Glu-Glu. Todo batismo precisa de cerimônia. Arrumamos um caixote, pegamos um pano de renda, um crucifixo, água e batizamos como na igreja. Uma foi a madrinha, a outra o padre. Como ambas queríamos ser a madrinha, o bichinho foi batizado duas vezes. A tarde foi maravilhosa. Éramos as únicas meninas do bairro a ter um peru de estimação, que ninguém nos escute.
Brincamos muito de pique, de casinha, enfeitamos nosso novo brinquedo com um laço, fizemos de tudo. Glu-Glu ficou com sono e fomos brincar de outra coisa.
À noite desceu com seu céu estrelado e as canções de “Noite Feliz”. Fomos buscar nosso amigo para a Ceia. Ele não estava mais no quintal. Perguntamos por ele e nos disseram que ele havia fugido. Não conseguimos entender como.
Arrumamos a mesa e fomos tomar banho.
Quando voltei, a família estava à mesa. Papai, mamãe, os três irmãos mais velhos e…ao centro, com os pés para cima, fios de ovos, passas e adornado por candelabros, o Glu-Glu.
Saí em disparada pelo corredor, sem ver Zazá que vinha em sentido contrário. Tropecei nela, caímos as duas no chão, e eu segui correndo acompanhada por ela e me enfiei debaixo da cama. Ela entrou engatinhando e me perguntou o que houve. Respondi, estão velando o Glu-glu. Ela bateu com a cabeça no estrado e perguntou-me o que era isto. Não tive coragem de falar a verdade. Pedi a ela que deitasse ao meu lado e me desse a mão. Falei, Glu-Glu foi para o céu. Ela deu um berro! Ele morreu? Eu disse ele voou, enxugando os olhos. Como? Perguntou Zazá. Preste atenção, faça como eu. Deitamos de barriga para cima, com os nossos vestidos de festa e enfeite nos cabelos. Disse a ela para juntar as palmas das mãos, como em oração. Ela, intrigada perguntou, vamos rezar?
Eu só respondi, abra as mãos sem soltar o dedo polegar, assim. Ela imitou. Eu disse, feche as mãos sem soltar o dedo polegar. Ela conseguiu. Eu insisti, mais rápido, mais rápido. Ela começou a rir. Mova, bate forte. Zazá gargalhava. Eu ria da alegria dela. Nossas mãos se moviam como as asas de um pássaro.
Nosso amiguinho de estimação voou, aplaudido pela nossa inocência.

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26.12.09 em: Sábado
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