Segunda a Sexta

  • "Aí você vê como tudo é frágil. Uma coisinha pode derrubar tudo"

    Chiquinho, do Mombojó, para a TRIP

    Tema da Semana: FRÁGIL

 

postInstante de olhar

x Convidado Sábado x

 Por Valéria Vianna

Ela olhou a placa do carro à frente com final 44. Na adolescência, isto significava “ele te ama”. Mas só se estivesse pensando nele naquele exato instante de olhar. Enquanto isso, no rádio, tocava Nando Reis: “Por onde andei, enquanto você me procurava…” E aí, repleta de lembranças, ela chorou. Com a dor no peito dos que choram em silêncio no banco do carona e o motorista nem nota. Há quanto tempo acreditava que isso tudo já estava enterrado em algum canto de sua alma. E de fato estava. Prestes a ressuscitar em pleno trânsito de uma manhã chuvosa de julho. “Será que eu sei que você é mesmo tudo aquilo que me faltava…” continua Nando.

 

Jamais voltaria para ele ainda que implorasse de joelhos. Mas o que fazer com a sensação de sonho que insiste em ficar? A saudade é do sonho. Não dele.

Então lembra de quando ele encostou a cabeça na mesa pedindo silenciosamente um gesto de carinho da parte dela. Ela sabia o que ele queria. Mas sua mão ficou inerte. Tombada entre as pernas porque o sonho não estava mais ali. Tornou-se um aroma, uma espécie de névoa que, de qualquer forma, aprisionara seu impulso de se se lançar na escuridão. Cega, triunfante.

 

Primeiro passo de sua nova vida em direção a ele, a quem não queria mais. Ninguém mais.

 

Soube, porém, por terceiros, que ele estava bem. E feliz. Pelo menos é o que aparenta sua fisionomia de idiota em Paris num site de relacionamentos igualmente idiota. Na foto, de sobretudo escuro e cachecol, lembra um boneco de neve, ilhado de gelo por todos os lados, em volta do banco de madeira onde sentou para posar, já pensando no olhar de aprovação dos amigos de doutorado. Um meio sorriso bem conhecido da ex revela seu humor: “consegui”.

 

Mas só ela sabe os mecanismos de que lançou mão para viajar às custas de bolsa acadêmica. Seduzir a orientadora com ar de rapaz que não se presta a isso, imagina, eu… etc etc. Porque era assim que ele seduzia: instigando o desejo vil de certas mulheres em desvirtuar sujeito tão honesto e digno. Incapaz de trapaças.

 

A isca, aliás, era arrastada até o último minuto de testemunhar papéis assinados e passagem, vaga ou o que quer que o interessasse irremediavelmente em sua mala ou pasta. “Consegui”, com jeito de monge. Cabisbaixo, humilde.

 

Continuava olhando atentamente aquela foto e percebendo o passado escrito até ali. Até aquele meio sorriso. O mesmo que sorriu, anos atrás, quando a pediu em namoro.

 

“E se eu tô de dando linha é pra depois te abandonar”, confirma Ana Carolina, de quem ela não era nem fã. “Adoro essa música”, dizia ele com semblante inofensivo.

Não, é claro, sem antes fazê-la acreditar que jamais a abandonaria, “imagina eu… etc etc”, rapaz que não se presta a isso… Bom rapaz.

“Que sonho pequeno”, disse tempos depois certo homem com quem saíra num affair displicente. A quem contara o ocorrido num tom também displicente. “Era esse o sonho dele?”, desprezou.

Pior. Era o único.

 

Certa vez, perguntara a ele durante um almoço: “E depois? Depois que conseguir…”

 

Com olhar distante, vago, não deu resposta. O mesmo olhar que, ainda hoje, perdura naquela foto imbecil.

 

Feliz.

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24.07.10 em: Sábado

postHomem x Animal

x Convidado Sábado x

Por O. Porto

O homem é um animal burro
Ele mata por prazer e destrói sua morada
Desculpas ao burro, o homem é imbecil
A casa não é só dele, mas também da namorada

Por falar em namorada, o homem é um cavalo
Ele maltrata a sua amada e não pede perdão
Desculpas ao cavalo, o homem é idiota
É grosso e vive dizendo que não

Alguns homens parecem crocodilos
Suas lágrimas são falsas sempre
Desculpas aos crocodilos, o homem é cínico
E muitas vezes tem mentiras em mente

O homem também é porco
Sai do banheiro e não lava a mão
Desculpas ao porco, o homem é imundo
Come biscoito e joga o saco no chão

Às vezes o homem é uma mula
Insiste no erro e não muda os seus modos
Desculpas à mula, o homem é teimoso
Faz a guerra e depois conta os mortos

Tem homem que é cachorro
Trai o amigo e também o irmão
Desculpas ao cachorro, o homem é canalha
Por dinheiro cai na corrupção

Habitam o mundo, homens e animais
Existem entre eles grandes diferenças
Alguns são chamados racionais
Mas isso gera muitas divergências

Resta saber por quê
O homem mata, destrói, mente,
Trai, teima e maltrata
Pura e simplesmente

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26.06.10 em: Sábado

postNunca mais

x Convidado Sábado x

Por Léa M. Gurgel Lima

            Aproximava-se o domingo de Ramos. O vestido seria grená, ou púrpura, cor do manto de Cristo. Às vésperas, sentou-se com o tecido à frente, e o recortado molde de papel ao colo. Uma pala ampla sobre os ombros, ajustada à cintura e aos quadris, em tafetá. “Tubinho”, igual ao da capa do figurino de Gil Brandão. Sobre a mesa de jacarandá, o sonho incrustado a cada hora anunciada pelos ponteiros do imenso relógio de pêndulo. Cúmplice, no canto da sala.

            A casa dormia. Abajur aceso à cabeceira da cama, Arnaldo tentava concentrar-se em outras idéias, mas o remorso, dor insistente, corroía-lhe pele músculos ossos. Canto obsessivo de Poe permeando-lhe pensamentos, acentuando-lhe o desespero, trazendo Yolanda para o presente. Entanto, jamais! O eco parecia repetir o mesmo refrão. Voz que não o abandonaria. Nunca mais! Não tarda, viriam buscá-lo e ele não tentaria reagir.

            O sonho recorrente assaltava-o agora. Manoel e Yolanda dançando, tão jovens e alegres! Arnaldo acompanhava-os a passeios freqüentes. Sempre uma amiga a mais, para equilibrar o grupo, talvez? Yolanda fingindo acreditar que ele estava gostando de alguém, fingindo acreditar numa nova paixão. E ele cortejando as amigas, só para ficar mais perto dela. Entanto, assoprava-lhe o vento, nunca mais! Ainda tentou convencê-la de seu amor, como se assim garantisse a volta para seus braços. Ela lutou, resistiu-lhe aos apelos.

            Manoel transpõe as portas do presídio, despedindo-se dos companheiros de cela, a satisfação tomando conta de cada passo. Preso em defesa do amigo, não se lastimava, ainda que procurasse respostas para aquela briga besta, sem sentido. Latente a dúvida.

            Como estariam a casa, o quintal, o jardim, xodó de seus cuidados, Yolanda? Passou numa loja e comprou um bracelete, para que usasse junto ao vestido púrpura. Mais um predicado, revelado na última visita. E já lhe costurava tantas esperanças!

Uma questão, porém, o perseguiu naqueles três meses em detenção: será que Arnaldo a esquecera totalmente ou, como desconfiava, alimentava sua imaginação, tramando um reatamento? Precisava descobrir a verdade, desfazer mal entendidos. Sombras, ameaças.

O sudoeste começa a soprar forte, mudando totalmente o tempo. Ventos de rejeição e desprezo constantes, entre redemoinhos de angústia terrores desconfianças. Nunca se sabe onde será rompido o dique, com a força da enxurrada. Tempestade anunciada pelo bilhete, ainda que esperado, inaceitável. Deixar os dois em viagem, pra sempre? Não, Yolanda!

            Arnaldo acolhe o sinistro lançado à solidão em dedos de gatilho. Um só estampido!

            Do outro lado da rua, a casa amarela surpreende essa noite, um domingo de Ramos, com as portas e janelas escancaradas. Os parentes chegam aos poucos, acomodando-se à volta da grande mesa de jacarandá. Yolanda está linda em seu vestido grená ou púrpura. Da cor do manto de Cristo. Um círculo ao peito, seu sangue. E, ternamente, adormece.

            Ao longe, o pranto ensandecido de dois homens. E o eco: nunca mais!

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19.06.10 em: Sábado

postBeijos de espera

x Convidado Sábado x

Por Lúcia Gomes

beijos

Cadê você? Você quer um beijo por telefone? Posso ligar para dar Boa Noite? Estou esperando…Onde você está?

É tão curioso e inusitado começar a corresponder-se com alguém sem nunca ter visto o seu rosto, sem saber o som da sua voz ou o cheiro que emana do seu corpo. Talvez este ar de segredo é que tenha me atraído. Assim, sem perceber, fui me despindo diante de você. Rendi-me e mergulhei no desconhecido sem procurar entender. Engravidei só das intenções, por lhe querer.

Eu tenho ansiado pelo toque das suas mãos, tão leves, na minha barba por fazer,os cabelos desalinhados. Como tenho desejado seu carinho neste longo tempo solitário.Seus dedos tocando os meus lábios. Eu quero um beijo, um beijo de verdade, para eu sorver as palavras da sua língua, entrelaçada na minha.Eu preciso do seu amor.

Você mexe comigo de uma tal maneira e me toca sem me dar tempo para eu fugir de mim mesma, enfiar-me nos lençóis, cobrir a cabeça, espiar-lhe escondida, criança travessa. Agarrei o travesseiro e dei para cantarolar.Você não podia me escutar. Eu ria sem parar.Liberdade plena. “Você é meu travesseiro/ que viro de lado a lado/ Você é meu travesseiro/ meu confidente, meu amado. / Um vidente enamorado/ a me fazer sorrir/ Se lhe faço um pedido/ é pra não me deixar dormir./Se te ponho entre as pernas/ você diz ser confortável/ Travesseiro não fala/ e dou uma gargalhada.”

Minha querida,você está por aí?Já estou aqui.Que mulher é esta que entrou na minha vida por um fio, tomou a forma de uma poesia adorada por loucura ou lucidez, já não sei.Você uma vez me falou uma coisa interessante: “Tudo tem tanto tempo”.É verdade. O que pode isto significar dentro do nosso contexto?Estou rindo só de pensar como nos descobrimos. Talvez estejamos tendo a oportunidade de recomeçar e refazer tudo o que fizemos e gostamos e fazermos pela primeira vez as coisas que gostaríamos de fazer e não fizemos, simplesmente porque estávamos sós e não nós.  Beijos de chegança.

Você não bateu à porta para entrar, não avisou que estava chegando, não entrelaçou seus dedos nos meus enquanto eu, distraída, caminhava pela orla no Leblon. Simplesmente apareceu! Relâmpago no céu. Tudo tão novo. Não conheço o seu rosto, não sei o tom da sua voz, o cheiro do corpo que não conheço, inebria o meu, entregue. Você foi chegando e não hesitei. Imediatamente me arrisquei diante dessa alegre surpresa. Fui logo respondendo.

“Antes que você comece a fazer o interrogatório, lá vai. Estou de bermuda e camiseta regata vermelha. A camisola branca, que você vive falando, não é sensual. Ela tem preguinhas, rendinhas, alcinhas e vai até o joelho. Parece mais camisolinha de criança. Beijos de sem roupa.”

Minha anjinha querida, queridíssima, você hoje está mais sensual, mais provocante e provocativa. Foi logo se antecipando a mim. Logo eu que lhe envio “beijos de um anjo da noite numa anja da tarde”. O que dirão os arcanjos celestiais, neste momento em que eu, anjo atentado, anseio por uma promoção?E se eu quisesse falar de pureza, de religião, do meu possível exílio  num monastério, de coisas inocentes como sua camisolinha transparente? Beijos pelados e pedintes.

As mãos deslizavam rapidamente sobre o teclado. As páginas corriam numa velocidade estonteante. Nos embolávamos na ânsia de falar, de estarmos juntos como podíamos. Nossas palavras se misturavam. Cheguei a ler em você o que havia escrito em mim. Você conseguiu ocupar comigo o mesmo espaço, os mesmos versos, descobrindo-me sem me dar tempo de guardar a minha alma debaixo do travesseiro.

Se eu lhe der tempo, tudo se esvairá. No amor não se dá tempo. Sem antes, nem depois.Você se despe, se mostra doce e inteira.Eu lavo os mais profundos poros da sua pele.Você me leva a conhecer os maiores segredos do amor.Oh, céus! Já estou falando igual a você. Que calor! Agora sim, nesse momento posso ver sua alma, pronta para me receber. Saindo agora do forno. Beijos quentes.

Estourou um trovão imenso aqui. O quarto ficou azul.

Você me inspira, um sentimento bom nasce dentro de mim trazendo o que de melhor está guardado, flui de maneira leve, minhas mãos e minhas ideias deslizam simplesmente, sem retoques. Por isto eu te amo, porque você chama o meu lado mais belo e eu respondo.

A chuva está caindo. Diante dos trovões ensurdecedores suas palavras ternas estremecem a casa em silêncio. As paredes escutam cúmplices.

Quando o relâmpago espocou cruzando o céu em faíscas, o quarto azul acendeu em respingos de chuva. A luz apagou.

Eu me encolhi desejando seu colo, abraçando as pernas com os pés na cadeira. Dentro de mim uma luz inundava-me a acalentar-me com um amor de segredos.

Minhas mãos tateavam a procura do celular no meu colo. Meus olhos aprenderam a enxergar no escuro. Sentidos apurados. Enviei a mensagem:

Tive que parar no meio de um sorriso

Não tem problema, eu completo

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12.06.10 em: Sábado

postAquele beijo que eu te dei

x Convidado Sábado x

Por Marcus Veras

Marcus Veras

Quando despertou, já estava daquele jeito – confortavelmente sentado em uma poltrona de couro, mas com pulsos e tornozelos algemados. Moveu a cabeça para a esquerda, depois para a direita, bem lentamente, piscando os olhos recém abertos, buscando alguma coisa que lhe desse uma referência – onde estava?

A luz, forte, que partia de uma lâmpada suspensa sobre sua cabeça, não permitia que enxergasse ao redor. O campo de visão estava restrito a ele mesmo e àquela poltrona.

Algum ruído às suas costas eriçou os cabelos da nuca e isso era bom, porque mostrava que seus sentidos voltavam a ficar alerta depois de… Depois de o que mesmo? A última lembrança que possuía era uma esquina sem muito movimento perto do prédio onde morava. Em seguida, o breu.

— Olá, boa noite. Seja bem-vindo ao passado.

A voz, quase sussurrada, trazia a marca de muitos cigarros. Podia ser de um homem, mas era de mulher. Sem saber o que responder, preferiu o silêncio.

— Entendo que você esteja surpreso por estar aqui nestas condições. Mas acredite: tenho sólidas razões para ter agido assim.

O ruído do isqueiro prenunciou o saboroso aroma de um cigarro aceso. Havia anos que deixara de fumar, mas a alma viciada ainda se regozijava ao se deparar com um tabaco de boa qualidade. A fumaça ajudou-o a dissipar um pouco mais a névoa que envolvia suas lembranças. Então recordou a cena: o sinal vermelho mudou para o verde, e quando começou atravessar a rua, uma mão forte segurou seu braço direito.

— Espero sinceramente que você não tenha sofrido nenhuma ofensa física. Contratei alguém muito experiente para trazê-lo sem danos.

Sentia ainda no músculo do antebraço a pressão que aqueles dedos haviam exercido, mas algemado como estava não podia ver se havia marcas, manchas roxas, equimoses. O melhor, decidiu, era continuar calado até descobrir onde estava. E de quem era aquela voz.

— Minha intenção é simplesmente contar uma história. Depois disso, você pode ir.

Porra, em que tipo de hospício estou preso? Correu os olhos mais uma vez pelo ambiente, mas o máximo que descobriu é que a fumaça do cigarro criava volutas ao seu redor.

— Vamos voltar um pouco no tempo. Aliás, muito. 1959.

La puta madre que me parió, em 1959 eu tinha nove anos, o que diabos é isso?

— Verão de cinquenta e nove, fazia muito calor no Rio. Mas nosso cenário é um hotel fazenda na estrada que liga Teresópolis a Friburgo.

Ele reparou na perfeita construção das frases e imaginou que ela estivesse lendo o texto. É muito difícil alguém articular o pensamento de forma tão ordenada ao falar. Ou talvez estivesse tudo decorado – quem poderia saber?

— Era uma linda propriedade, a casa central branca, dois andares, janelas azuis, ao redor os bangalôs que abrigavam os hóspedes. Muitas, muitas crianças, uma grande piscina de ladrilhos verdes, o enorme estábulo para poucos cavalos, onde pontificava um baio chamado canário.

Ele percebeu um ligeiro incômodo em algum lugar de sua memória. Canário?

— Havia também muitas trilhas para andar a pé, ou de bicicleta, mas estas eram grandes, não sei, acho que naquele tempo ninguém se importava com bicicletas para crianças.

Nunca tive uma bicicleta de criança, pensou. Talvez um velocípede logo abandonado justamente por ser coisa de criança. Mas fazia tanto tempo… Sem saber exatamente o motivo, achou que estava na hora de romper a única barreira que lhe era possível naquele instante: o silêncio.

— Quem é você? Que merda é essa?

— Eu lhe disse: você está aqui porque eu preciso lhe contar uma história. Mas se vai se comportar como um idiota, tenho o poder de interromper o fluxo deste momento mágico.

Em seguida, a luz se apagou, e ele se viu no escuro mais miserável de toda sua vida. Pensou em gritar, mas nenhum som escapou-lhe da garganta, tal o pavor que invadiu seu espírito. Foi o momento de usar a técnica de controle de respiração que aprendera em incontáveis aulas de Ioga, e só então percebeu o quanto elas tinham sido importantes.

Algum tempo se passou. Impossível dizer quanto, e de repente percebeu alguma claridade – era a lâmpada acendendo aos poucos, acostumando seus olhos a escapar da escuridão.

— Podemos continuar?

Já que sua única reação rendeu uma represália, ele preferiu voltar ao plano anterior – o silêncio. Logo quebrado pelo ruído do isqueiro acendendo mais um cigarro. Mas, desta vez, a fumaça ardeu em seus olhos e no nariz.

— A casa central tinha uma enorme varanda com cadeiras de vime cobertas por almofadas coloridas e algumas redes. As tardes ali eram deliciosas, embora eu, como todas as crianças , preferia mesmo estar na piscina ou na sela do canário.

Voltou à sensação de algo incômodo em sua memória, desta vez provocada pelas cadeiras de vime, almofadões coloridos. Ela estava falando de um lugar que ele conhecia.

— Nós dois estivemos naquela casa.

Ela pronunciou a frase de maneira estudada, sem nenhuma inflexão especial. Certamente sabia o impacto que ia causar por si só, portanto abdicou de qualquer dramaticidade extra.

— Você não reparou em mim, nem eu e você. Aliás, nos ignoramos totalmente durante alguns dias. Sequer sabíamos nossos nomes.

Pareceu um relâmpago, mas foi apenas o choque da lembrança, o véu se descerrou, e então ele recuou quarenta anos, para umas férias de verão carinhosamente guardadas em um baú bem protegido de todas as maldades deste mundo.

— Eu me lembro… – murmurou para seu próprio espanto, as palavras escapando por entre os lábios.

Ela suspirou – ou seriam os pulmões de fumante entupidos de alcatrão em busca de um pouco mais de ar?

— Sim, você se lembra. Tinha que se lembrar! Foi incrível, não foi mesmo? Aquele lugar era muito especial… As crianças podiam ficar soltas sem nenhum adulto para controlá-las! E foi assim que nós dois nos encontramos perto daquela fonte… Era de pedra polida, havia ao redor pequenas estátuas de gesso, imitações de musas gregas. Devia ser de tarde, depois do almoço.

Disso ele não se recordava. Mas lembrou muito bem do que aconteceu depois que teve seu braço violentamente agarrado por aquela mão: um pano embebido em algo forte o arrebatou para um túnel escuro que desembocava ali, na sala escura, sentado na poltrona.

— Você me perguntou se eu gostava de borboletas, e me mostrou uma enorme e linda – e morta! – boiando na água da fonte. Naquele momento eu tive muita raiva de você – será que não haveria algo vivo para me mostrar?

Sem motivo, ele começou a tremer, o que a levou a estender a mão e acariciar sua nuca.

— Calma… Acredite em mim, nenhum mal lhe acontecerá. Creia-me, no fim, quem sofreu com esta história toda fui eu.

O contato da mão dela com sua pele provocou um certo efeito relaxante, admitiu.

— Depois, você se tornou um verdadeiro príncipe. Brincamos na piscina, andei na garupa do canário com você, exploramos todos os recantos daquele lugar que não existe mais.

Então se lembrou dela, magricela, olhos verdes, cabelos meio ruivos, olhando-o com interesse por trás de um par de óculos sinceramente horrendos.

— Nove anos. Uma idade mágica. Mesmo se você é filha de pais judeus rigorosos, atentos a cada passo que você dá, corrigindo os menores deslizes, cuidando para que você cresça saudável e fiel aos costumes dos antigos patriarcas.

Naquele momento, ele percebeu uma transição. O veludo da voz que trazia lembranças do éden serrano ganhava um fio, um gume cortante ao se referir à família.

— Mas quem pode controlar a energia de uma menina solta pela primeira vez na natureza? Quem pode?

Ele deu de ombros, não saberia mesmo responder, e talvez ela não estivesse interessada nas suas respostas, ou em alguma resposta. As perguntas, elas é que eram importantes, e ele desconfiava que eram feitas primeira vez em voz alta.

— Entre todas as paisagens de nosso paraíso, havia uma muito especial.

Sim, era a gruta verde, recanto com um toque art-nouveau, o pequeno pavilhão em vidros decorados e escuros que deixavam passar muito pouca luz. Ali eles estiveram juntos algumas vezes, e, na última, se beijaram.

— Nos nós beijamos.

Ele assentiu com a cabeça. Tinha sido um beijo prolongado, calmo, sem frenesi. Ela gostou tanto que tirou os óculos e beijou de novo. E ficaram mais algum tempo experimentando aquele novo sabor até que ouviram a voz da mãe dela gritando seu nome: Valéria!

Ele só voltaria a beijar uma boca dez anos depois, quando a infância havia se tornado uma época para se esquecer. É possível que houvesse procurado aquele sabor em tantas outras bocas, sem jamais encontrar. Talvez tivesse se apaixonado por mulheres que tinham os olhos verdes, ou os cabelos ruivos, ou usassem óculos, mas nenhuma delas reunia estas três características. E assim, nunca se casara.

— Foi a lembrança mais intensa de minha infância.

Ele estava a ponto de concordar, de dizer como ela se tornara uma lenda em sua vida amorosa, um ícone que perseguira em vão, tema recorrente em sua psicanálise. Ela retomou a história com um travo de ódio na voz.

— E você destruiu isso tudo com um gesto insensato.

— Eu? – o pronome escapuliu de sua boca e se desmanchou no escuro para além da luz.

— É, você, seu idiota!

Mais um cigarro foi aceso, e ele começou a sentir alguma dificuldade em respirar.

— Meu Deus, eu tive muita vontade de estrangular você devagarzinho…

— Não estou entendendo.

— Mas vai entender!

Na pausa que se seguiu, ele sentiu novamente os pelos da nuca se eriçando. Seria a respiração dela? As volutas da fumaça voltaram a rodeá-lo, e ele teve a desesperada sensação de que jamais sairia vivo dali.

— No dia em que fui embora do hotel, não nos vimos. Não houve um adeus. Não houve drama. Íamos seguir nossos caminhos em paz, cada qual carregando suas lembranças, sem culpa. Mas você chegou no Rio e… Me escreveu uma carta.

A carta. Como esquecer? Ao descobrir que ela havia partido sem se despedir, ele ficara desesperado. Como não houve drama? Claro que houve! Ele precisava de um adeus!

— Onde você descobriu meu endereço? – o tom de voz era furioso, mas contido. Era a primeira vez que ela fazia uma pergunta a ele.

— Não foi difícil. Lembra de dona Myrna, a mulher do gerente?

— Aquela vaca do cabelo pintado de vermelho…

Pintado? Tanto depois ainda havia espaço para surpresas. Myrna, ruiva, branca feito papel, e que lhe ensinou a jogar paciência com um minúsculo baralho que cabia em suas mãos de menino.

— Eu disse para dona Myrna que estava apaixonado por você, ela achou muito graça e pegou o endereço no fichário de hóspedes.

Mais uma pausa. Ele conseguiu ouví-la apagando o cigarro com o pé. Não se lembrava exatamente do que havia escrito na carta – foram tantas depois daquela primeira! Sua mãe providenciara o envelope e o correio, mas nunca esperara por uma resposta. O gesto se completara no envio.

— E aí estou eu, na paz de meu lar, sossegada com minhas brincadeiras de menina, quando minha mãe entra aos berros no quarto, brandindo um papel: Valéria Fleischmann, o que é isso?! Era a sua carta, seu desgraçado!

Ela acendeu o quarto cigarro e ficou batendo o pé no chão, que devia ser metálico pelo ruído que produzia. De repente fazia o maior calor, e ele precisava se coçar, se beslicar, se arranhar só para saber se tudo aquilo era apenas um pesadelo.

— O que é que deu na sua cabeça para descrever em detalhes aquele maldito beijo na gruta verde? Porque não guardou aquelas coisas todas para você? Você sabe o que aconteceu? Imagina o que aconteceu?

Deve ter sido uma coisa muito ruim para ela estar se vingando daquele jeito, percebeu num relance. Quase conseguiu recuperar o prazer que tivera ao escrever a carta. E entendeu que à medida que escrevia, o beijo ia se tornando cada vez mais distante, mais irreal, que era inútil persegui-lo, mas que só a perseguição dava sentido à sua vida.

— Nos exatos treze anos que se seguiram, até a minha maioridade, meus pais me mantiveram sob sete chaves. Enclausurada, encarcerada, reprimida… Pois aos nove anos eu tinha beijado um menino e ainda por cima goy!

O que era pior – o beijo ou não ser judeu?

— Precisava daquela carta, precisava? Tinha que bancar o romântico?

Ao ouvir os soluços dela, uma fúria incontrolável começou a se formar dentro dele. Que novela idiota!

— Olha aqui, minha filha, que saber de uma coisa? Vai para a puta que te pariu com a sua carta! Com a minha carta! – corrigiu.

O resultado daquela explosão foi o breu novamente. Mas desta vez ele estava possuído, e não se intimidou com a escuridão.

— Estou me lixando para a sua vida, para o seu drama, para a sua repressão! Para mim foi ótimo, foi lindo, foi maravilhoso! Eu imaginava você abrindo a carta, cheia de emoção, escondendo ela debaixo do travesseiro… Passei minha adolescência repetindo esta cena até que beijei a boca de uma mulher de verdade e mandei o amor e o romance para a casa do cacete!

A luz seguiu apagada, e ainda assim ele não perdeu o impulso.

— Mil vezes eu teria te beijado, mil vezes eu teria escrito aquela carta, um milhão de vezes eu teria te esquecido só para ter o prazer de me lembrar de tudo outra vez para sempre, enquanto eu viver!

A mesma mão que o detivera ao atravessar a rua próxima à sua casa segurou sua cabeça com força, ele sentiu novamente o cheiro forte do éter e mergulhou outra vez na inconsciência.

Despertou uma eternidade mais tarde, a sensação áspera de terra seca contra seu rosto, cuidadosamente colocado no jardim da entrada de seu prédio, alta madrugada. Ficou por ali alguns minutos até que se sentiu confiante para se levantar. Quando conseguiu, deu de cara com o porteiro.

— Doutor, o que houve, tudo bem?

— Tudo bem, Severino, tudo bem. Foram umas cervejas – tentou simplificar.

Meteu a mão no bolso para apanhar a chave do apartamento e encontrou um envelope: era a carta. Preso por um alfinete, um bilhete curto e grosso: “Faça com ela o que acha melhor. Só não me mande outra vez”.

Do outro lado da calçada, oculta dentro de um carro de vidros muito escuros, Valéria viu quando ele amassou o envelope, caminhou até uma lata de lixo presa a um poste e se livrou dele. Primeiro, ela arfou, como se fosse chorar, depois apenas suspirou. Estava livre, enfim.

— Vamos, Moshe – disse ela para o parrudo segurança israelense, que acelerou suavemente até o carro desaparecer na última esquina daquela avenida.

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05.06.10 em: Sábado

postMedalha de ouro

x Convidado Sábado x

Por Alberto Carraz

      A vadia ficou com meus CDs e minhas inspirações.

      Impiedosa, me jogou na cara as noites de bebedeira, as tardes de futebol e as manhãs de pescaria.

      Encaixotou meus livros e pensamentos.

      Disse que eu não tinha mais jeito. Tanto tempo no mesmo trabalho, fazendo a mesma coisa, odiando o mesmo chefe.

      Dobrou e despachou minha roupa e minha alma.

Lembrou que eu era mau filho, pior amante e inqualificável ser humano.

      Recolheu minhas chaves e destinos.

      A danada me chamou de relaxado. Reclamou do chuveiro pingando, da bagunça na gaveta de meias, do carro torto na garagem.

      Esvaziou na pia as garrafas de uísque. Pelo ralo foram muitos momentos de sonhos.

      Só faltou me bater quando eu disse que ela estava exagerando. Aliás, me jogo um cinzeiro. Aquele do Motel N. S. de Aparecida.

      Confirmando sua fúria, rasgou o pôster da sala. Era a maior memória de nossas ibéricas férias. Para um lado, eu e o touro. Para outro, ela e o estádio. O toureiro sumiu. Talvez por constrangimento. Quase provoca um problema diplomático.

      Disse que ia deixar ordens na portaria. Eu estava proibido de voltar ao prédio e à sua vida.

      Meio atabalhoado, acomodei tudo no carro. Porta-mala, banco de trás e banco do carona. Tudo ocupado. Naquele automóvel couberam três anos de vida. Um de conhecimento recíproco, um de paz e um de guerra. Dramalhão mexicano.

      A que ponto cheguei.

      A caminho da casa de praia, tentava visualizar a nova vida.

      Pensando bem, iria ser bem melhor.

      Ninguém pra me encher o saco.

      Não ia mais me preocupar com roupinha bonita, cabelo cuidado e louça na pia. Poderia fazer o que quisesse na hora que achasse melhor.

      Enquanto cato o cigarro que caiu aceso no banco do carro, chego à conclusão que, definitivamente, ela não me merece.

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29.05.10 em: Sábado
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