Gazza
Eu apareço disfarçada de todas as coisas . . .
Posso ser vista no por-do-sol ou no nascer dele.
Eu posso estar através da janela,
Posso ser vista na asa da gaivota
Ou pelo ar que passa por ela.
Muitos me vêem no mar,
Outros na comida da panela.
Posso aparecer para qualquer ser,
Desde ele pequenininho;
Ficar com ele direitinho,
Se tratar de mim como eu merecer.
Uns me pegam pra criar em livro,
Outros me botam num vestido lindo,
Cheio de notas musicais:
Fico morando dentro da música.
Tenho muitas mães e digo mais:
Sou uma criança com muitos pais.
Tem gente que diz que eu nasço dentro da pessoa,
E faço ela olhar diferente,
Pra tudo que todos olham,
Mas não notam.
Ás vezes apareço tão transparente e de mansinho
Que mais pareço um Gasparzinho.
Tem gente que nunca percebe que estou ali,
Não cuida de mim,
Não me exercita.
Eu fico como um laço de fita
Que nunca teve um rabo de cavalo dentro.
Eu fico como uma planta de dentro da casa
Que ninguém molha, conversa nem nada.
Quem me adivinha logo dentro dele,
Quem percebe que estou ali diariamente,
Quem anda comigo e com o meu gingado,
Fica com o coração inteligente
E com o pensamento emocionado.
A esse que eu dou a mão,
E vou com esse para todo lado:
Aniversários, passeios, sono, cama, biblioteca, casa, escola;
Estou com esse a toda hora.
Tem gente que me vê muito na beleza da flor,
No mato, na primavera e no calor.
É que ando muito mesmo.
Eu posso até voar!
Por isso que me vêem no céu, nas estrelas, nos planetas
E nas conversas das crianças.
Quem anda comigo tem muita esperança.
Todo mundo que me tem
Pode me usar e me espalhar por aí.
Quem gosta muito de mim,
Depois que me conhece,
Junta gente em volta como se eu fosse uma festa.
Me usam até em palestra!
Me acordam lá do papel.
Ih! Eu tinha esquecido de dizer
Que, quando a pessoa começa a me escrever,
Eu fico morando no papel.
Toda vez que alguém me lê para dentro eu passo para dentro dele.
Toda vez que alguém me lê para fora, em voz alta,
Como se eu fosse uma música,
Eu passo para dentro de todo mundo que me vê;
Eu posso trazer alento a todo mundo que me escuta.
Tem gente que me pega só numa fase,
Como se eu fosse uma gripe boa,
E como se dessa boa gripe ficasse gripada.
Quero dizer . . .
Eu dou muito no coração de gente apaixonada.
Minha palavra é do sexo feminino,
Brinco com menino e com menina,
Fico com a pessoa até ela ficar velhinha,
Inclusive de bengala;
E depois que ela morre,
Faço ela ficar viva
Toda vez que por mim é lembrada.
Ás vezes eu sou sapeca,
Ás vezes eu fico quieta,
Mas todo mundo que olha através de mim é poeta.
Veja se eu sou esta que fala dentro de você.
Eu não posso escrever porque não sou poeta:
Sou a poesia!
Tente agora fazer um verso.
Se eu fosse você, faria.
*Elisa Lucinda
12.03.10 em: Sexta
Gazza
Marques
O que vc me fez
Me deixou assim
Metade em mim
Numa viagem sem fim
Mal de mim
Todo esse prazer
Em me fazer sofrer
05.03.10 em: Sexta
Gazza
Gedézio costumava bradar a todos que lhe impunham qualquer contrariedade. No trabalho, em casa, no medíocre cotidiano da sua altivez. Não tinha mesmo conversa. Até pelos imprevisíveis e belos caminhos do amor. Era demais para Madalena. Não suportava ouvir o marido, principalmente nas discussões matrimoniais na humilde casa em que moravam, num bairro pobre da periferia de São Paulo. É, Gedézio não tinha posse. Havia transformado a soberba, o orgulho, a excessiva vaidade em suas maiores riquezas.
- Ninguém pode comigo, Madá – disparava Gedézio a cada gran finale daquilo que chamava de supremacia da palavra.
- Eu sei, meu bem – se resignava a mulher, já mecanicamente.
O cotidiano de Gedézio era esse. Ninguém o suportava, mas não estava nem aí para o que pensavam dele. Não se sentia nunca sozinho, apesar de toda solidão a sua volta. Não se admitia estar errado. Em hipótese alguma nem mesmo nas discussões mais complexas, em temas que o pouco estudo não o deixava à vontade. O velho marceneiro, filho de pais nordestinos, só se importava mesmo com sua opinião. Era única.
- Mas um dia tudo muda, Gedézio – resmungava Madalena, cansada do marido.
Todos os sábados, Gédezio partia para o bar da esquina, logo cedo. Era o ápice de sua vida. Era seu melhor e preferido palco. Ali, na periferia paulistana, nada o superava. Bebia todas para suportar o ritmo de todos os monólogos que travava ao longo da folga semanal. E chegava mal em casa, combalido. A cirrose de décadas já havia consumido sua saúde.
- Para de beber Gedézio, para – suplicava Madá, todo sábado.
- Cala essa boca mulher. Do que você entende? Já disse que uma aspririna é suficiente para me deixar novinho outra vez.
Foi a última vez que Gedézio dissera essas palavras à mulher. Vítima da certeza que nunca teve: a falta de humildade.
26.02.10 em: Sexta
Gazza
O calor insuportável de uma noite de Carnaval, uma charmosa e centenária rua do Centro da cidade e o coração acelerado. O cenário, preparado pelo destino, marcava o reencontro de dois corações separados pela vida e a imensidão do oceano. Livia não perdia um carnaval no Rio. Havia deixado Madri para reencontrar a cidade, exatamente como fizera nos últimos anos. Mas as surpresas da vida, dessa vez, reservavam mais que os embalos atrás do Escravos da Mauá, o som marcante dos tamborins, a praia e a saudade de toda a exuberância do Rio. Aquela noite, esperada desde que seus olhos cruzaram com o de Marcelo, na balbúrdia da redação de um grande jornal, seria diferente.
Nos últimos quatro anos, os caminhos de Lívia e Marcelo seguiam sem se cruzar, nas escolhas de seus destinos. Como na tarde em que ela apareceu na cobertura de um prédio na Tijuca, mas ele não estava lá. Não era a hora. As horas, os dias, os anos passavam. Mas aquela imagem permeava suas lembranças, atrás da cortina, de longe, enquanto amores chegavam e partiam. Enquanto a vida seguia. Naquela noite, não havia como algo dar errado. O destino havia sido caprichoso com os dois.
- Oi – disse Marcelo, quase que timidamente. Um sorriso iluminado e um abraço longo e apertado de felicidade vieram como resposta. Seguido de um silêncio entre olhares. O tempo parou, como se os últimos anos não tivessem existido. Era como se voltassem aquele encontro na redação. Dali, seguiram pela cidade, sem destino. Entre cervejas, poemas, cachaça, o Morro da Conceição e sorrisos, a noite parou para a vida acontecer.
19.02.10 em: Sexta
Gazza
A caminho de uma sorveteria, numa tarde quente de verão, um dia daqueles que a felicidade se parece plena, fácil, Bernadete e Marcos andavam de mãos dadas.
- Adoro sorvete de manga – disse Marcos, com um sorriso imenso.
- É a primeira vez que você vem aqui – respondeu Bernadete.
- Não, já vim outras vezes. O sorvete daqui é muito sensacional.
- Pensei que fosse a primeira vez. E você sempre tomava sorvete de manga?
- Sim, sempre. Você vai experimentar e entender o que estou falando.
- Odeio sorvete de manga! A gente podia ir para outro lugar.
- Não, você vai gostar.
Um tom de cinza começava a colorir aquela tarde. No que restava do caminho até a sorveteria, as mãos já não se encontravam. Marcos se aproxima do balcão, com um ar cansado.
- Eu quero duas bolas. De graviola.
12.02.10 em: Sexta