Foi ele…
Gazza
Marques
O que vc me fez
Me deixou assim
Metade em mim
Numa viagem sem fim
Mal de mim
Todo esse prazer
Em me fazer sofrer
Gazza
Marques
O que vc me fez
Me deixou assim
Metade em mim
Numa viagem sem fim
Mal de mim
Todo esse prazer
Em me fazer sofrer
Gazza
Gedézio costumava bradar a todos que lhe impunham qualquer contrariedade. No trabalho, em casa, no medíocre cotidiano da sua altivez. Não tinha mesmo conversa. Até pelos imprevisíveis e belos caminhos do amor. Era demais para Madalena. Não suportava ouvir o marido, principalmente nas discussões matrimoniais na humilde casa em que moravam, num bairro pobre da periferia de São Paulo. É, Gedézio não tinha posse. Havia transformado a soberba, o orgulho, a excessiva vaidade em suas maiores riquezas.
- Ninguém pode comigo, Madá – disparava Gedézio a cada gran finale daquilo que chamava de supremacia da palavra.
- Eu sei, meu bem – se resignava a mulher, já mecanicamente.
O cotidiano de Gedézio era esse. Ninguém o suportava, mas não estava nem aí para o que pensavam dele. Não se sentia nunca sozinho, apesar de toda solidão a sua volta. Não se admitia estar errado. Em hipótese alguma nem mesmo nas discussões mais complexas, em temas que o pouco estudo não o deixava à vontade. O velho marceneiro, filho de pais nordestinos, só se importava mesmo com sua opinião. Era única.
- Mas um dia tudo muda, Gedézio – resmungava Madalena, cansada do marido.
Todos os sábados, Gédezio partia para o bar da esquina, logo cedo. Era o ápice de sua vida. Era seu melhor e preferido palco. Ali, na periferia paulistana, nada o superava. Bebia todas para suportar o ritmo de todos os monólogos que travava ao longo da folga semanal. E chegava mal em casa, combalido. A cirrose de décadas já havia consumido sua saúde.
- Para de beber Gedézio, para – suplicava Madá, todo sábado.
- Cala essa boca mulher. Do que você entende? Já disse que uma aspririna é suficiente para me deixar novinho outra vez.
Foi a última vez que Gedézio dissera essas palavras à mulher. Vítima da certeza que nunca teve: a falta de humildade.
Gazza
O calor insuportável de uma noite de Carnaval, uma charmosa e centenária rua do Centro da cidade e o coração acelerado. O cenário, preparado pelo destino, marcava o reencontro de dois corações separados pela vida e a imensidão do oceano. Livia não perdia um carnaval no Rio. Havia deixado Madri para reencontrar a cidade, exatamente como fizera nos últimos anos. Mas as surpresas da vida, dessa vez, reservavam mais que os embalos atrás do Escravos da Mauá, o som marcante dos tamborins, a praia e a saudade de toda a exuberância do Rio. Aquela noite, esperada desde que seus olhos cruzaram com o de Marcelo, na balbúrdia da redação de um grande jornal, seria diferente.
Nos últimos quatro anos, os caminhos de Lívia e Marcelo seguiam sem se cruzar, nas escolhas de seus destinos. Como na tarde em que ela apareceu na cobertura de um prédio na Tijuca, mas ele não estava lá. Não era a hora. As horas, os dias, os anos passavam. Mas aquela imagem permeava suas lembranças, atrás da cortina, de longe, enquanto amores chegavam e partiam. Enquanto a vida seguia. Naquela noite, não havia como algo dar errado. O destino havia sido caprichoso com os dois.
- Oi – disse Marcelo, quase que timidamente. Um sorriso iluminado e um abraço longo e apertado de felicidade vieram como resposta. Seguido de um silêncio entre olhares. O tempo parou, como se os últimos anos não tivessem existido. Era como se voltassem aquele encontro na redação. Dali, seguiram pela cidade, sem destino. Entre cervejas, poemas, cachaça, o Morro da Conceição e sorrisos, a noite parou para a vida acontecer.
19.02.10 em: SextaGazza
A caminho de uma sorveteria, numa tarde quente de verão, um dia daqueles que a felicidade se parece plena, fácil, Bernadete e Marcos andavam de mãos dadas.
- Adoro sorvete de manga – disse Marcos, com um sorriso imenso.
- É a primeira vez que você vem aqui – respondeu Bernadete.
- Não, já vim outras vezes. O sorvete daqui é muito sensacional.
- Pensei que fosse a primeira vez. E você sempre tomava sorvete de manga?
- Sim, sempre. Você vai experimentar e entender o que estou falando.
- Odeio sorvete de manga! A gente podia ir para outro lugar.
- Não, você vai gostar.
Um tom de cinza começava a colorir aquela tarde. No que restava do caminho até a sorveteria, as mãos já não se encontravam. Marcos se aproxima do balcão, com um ar cansado.
- Eu quero duas bolas. De graviola.
Gazza
O bêbado
Equilibrista
Na voz bamba de Elis
Fui tantas vezes feliz
E num beijo
A aguardente a me embriagar
Por dois gaúchos irmãos
Mais emoção
Uma dose de dislalia
O mundo é uma alegria
No tropeço das pernas
Lembranças eternas
Mais uma dose
Um porre
Me socorre sua mão
Não me deixe nunca não