Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postInício

Luciene Braga

“resolveu tomar a última, com jeito de primeira. e assim era. de primeira.

de repente… o jogo das almas que se encontram, ou se esbarram, sem princípio, sem linha (do tempo). e quem disse que o começo do dia é pela manhã? “ousadia dos burocratas solares”, pensou, fazendo acrobacia na fumaça do cigarro.

desativou preocupação.

samba no fundo, gente que se levanta e passa. levanta e passa.

(que dá nas cabeças e nas cadeiras?)

luzes queimadas do bar lembram as da sala de casa. outras luzes acometem.

acendeu, porque não tinha jeito de entender aquele início de dia-noite com cara de fim.

começou a se tocar de que horas se passaram. falou das contas, da filosofia, do batom da outra, dos crimes de guerra e do cotidiano, citou autores para impressionar, tentou dizer o nome do cantor que soava baixinho, deu comida para o vira-latas entrão, trocou telefones e pensou que aquilo era bom, deu ânimo. ânimo da noite em transe. que transa.

a sacanagem da intensidade. intensidade na sacanagem. “sacanagem!”, encheu a boca.

“muita sacanagem”, escapou, desejando momento mais sublime, e soando como diálogo de filme nacional.

chorou. chorinho. e isso era bom, porque ria disso.

para início de conversa, desconversou.

levanta e passa.

 atendeu celular, mas a bateria, claro, falhou.

 estabelece (eta palavra), que dia vem.

feito jornal que envelhece fingindo novo.

no começo da rotina que se acaba, agradeceu: obrigada, pizindin, menino bom

(se tivesse de começar tudo de novo, subvertendo o calendário gregoriano, seria ao som dele, Pixinguinha)”

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08.03.10 em: Segunda

postDolores

Luciene Braga

“Espelho torturante”, disse, em voz alta, não sem antes olhar sem entender para o telefone, como se a frase, quase psicografada, viesse de algum canto, por fibras óticas. “Quem diria isso?”, encolheu-se, assustada. Não temia vozes reais, mas as que não provinham de objetos ou pessoas in loco. Ah, ouvia-as, absolutamente retesada. Andou, linda, pálida, demaquilada, suspensa em tensão quase sacra. Derramou-se na piscina, e a taça de champanhe sorriu, vazia. “Crueldade”, ruiu. Pensou  na mãe, que sempre teceu longos pseudo discursos sobre a capacidade trucidante da bebida gasosa. Relaxou e parou de pensar naqueles que deixou para trás e longe. Só temia perder o fôlego próprio.

Não tinha televisão e sabia que o mundo enfrentava mais um grande fenômeno da natureza heroicamente, despertando a solidariedade típica de massas, que soava como ‘Hola’ emitindo mensagens codificadas de “ainda bem que escapei do rol dos fadados”. Por isso mesmo, cantarolava desafinada, entre braçadas sutis e pensamentos rasteiros, tão óbvios quanto o bom dia de um porteiro.

O telefone tocou, mas ignorou. Ficou ali, parada, com olhos fixos no nada e jeito de quem já esperava, sem pressa.

“Dolores?”, “Dolores?”, ouvia.

“É engano”, respondeu, sem atender.

“Dolores, sou eu, atenda, por favor. Não posso mais esconder que você está aí, estão me pressionando”, ele suplicou.

“Só se trouxer o meu ursinho panda”, gargalhou, inerte. “Fofura”, completou, passando um batom rouge, certa de que ele jamais retornaria o contato, mas ficaria com ela na mente, adorando-a e detestando-a sem vontade alguma, temático.

Era melhor deixar o mundo cair, enquanto sorvia, elegantemente e orgulhosa de sua imersão no silêncio, mais doses de insaciedade.

Não tinha televisão e sabia que o mundo enfrentava mais um grande fenômeno da natureza heroicamente, despertando a solidariedade típica de massas, que soava como ‘Hola’ emitindo mensagens codificadas de “ainda bem que escapei do rol dos fadados”. Por isso mesmo, cantarolava desafinada, entre braçadas sutis e pensamentos rasteiros, tão óbvios quanto o bom dia de um porteiro.

O telefone tocou, mas ignorou. Ficou ali, parada, com olhos fixos no nada e jeito de quem já esperava, sem pressa.

“Dolores?”, “Dolores?”, ouvia.

“É engano”, respondeu, sem atender.

“Dolores, sou eu, atenda, por favor. Não posso mais esconder que você está aí, estão me pressionando”, ele suplicou.

“Só se trouxer o meu ursinho panda”, gargalhou, inerte. “Fofura”, completou, passando um batom rouge, certa de que ele jamais retornaria o contato, mas ficaria com ela na mente, adorando-a e detestando-a sem vontade alguma, temático.

“Era melhor deixar o mundo cair, enquanto sorvia, elegantemente e orgulhosa de sua imersão no silêncio, mais doses de insaciedade.

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01.03.10 em: Segunda

postAudácia

Luciene Braga

Em uma travessia de pouco mais de 10 segundos, atravessou o recinto (de festa bem festejada nos outguetos colunabiliíssimos) pensando no quanto seria observada. Adorava. Corpo de BBB, salário de modelo e drink Caras. Homens sem polifonia no encalço.

Sabia o quanto isso lhe custara.

 De fato, os homens – e mulheres – perdiam os próprios radares entre os peitos e o derriére. Sorriso estudado e comedido, sabia causar (palavra que é um barato).

Roubou o irmão, por ocasião da morte da mãe. E também dela não sentia falta. Precisava dos recursos para projetos pessoais. Atraída por jovem rapaz sem futuro, declinou de uma vída crédula e sem verniz. Preferia o espetáculo até mesmo aos carinhos localizados de Vander (lei). Perdeu-se do gosto das intimidades sem variações.

 Distribuiu charme sem simpatia (coisa de pobre emergente essa tal) ao som da música da moda e até passou o telefone a um selecionado que, escaneado, tinha olhar de poodle adestrado para copular em motéis caros. Ah, o champanhe valeria.

“Já derrubei vários como você“, dizia, com olhos ao beber de canudinho e mover quadris sem pudor algum.

 Olhava sem olhar – as pessoas. Tudo bem. As pernas cruzavam em sinal de “lamber”. Segue assim, inquebrável, de cílios postiços e bolsas de dois dígitos. Sem remorsos ou trilha sonora, mas coleciona também homens de grife bancária. Jamais olha para fora da janela do carro. É o seu estilo.

 “Eu posso”, diziam os peitos dela.

 Nota do autor (que é autora) arrogante: Que mulher… quantas como ela conseguem derrubar meu coração estudado e milimetricamente despreparado com seus conceitos comprovadamente marcados para os estratagemas? A guerra dos clichês é bárbara.
 

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22.02.10 em: Segunda

postCarnaval

Luciene Braga

Tirou férias de sua vida rota, vestiu uma fantasia sexy, comeu podrão de esquina esquecível e dançou como se nunca fosse parar. Um dia, dois dias, três.

Ainda tinha mais um.

Impressionou-se com a disposição à sua disposição.

Bebeu absintho e ajudou um desconhecido a encaixar a chave do carro. Riu de algo que não entendia, e isso levou horas, com uma trilha sonora de bloco que – verdade seja dita – repetiu-se bem mais que o necessário. Não fez sexo na festa mais profana de todas, pois o tanto de álcool tornava tal intento proibitivo. Faria depois, se restasse glória.

Abraçou todo mundo que deixava e perdeu os sapatos quando parou para massagear os pés. Sapatos pra quê? E seguia com calcanhares grossos, destemidos, corajosos.

Não encontrou o podrão e sentiu um pouco de fome, lamentando a panela ainda cheia que deixara sobre o fogão dias antes de folia começar.

 

Daqui a 48 horas:

Voltou para casa sem o celular e decidiu fazer uma arrumação.

Começou pelo armário, cantarolando em um tom acima. E tinha espasmos de lembranças, que faziam gemer. De alegria, feliz vergonha e travessura.

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15.02.10 em: Segunda

postDor de Sofia

Luciene Braga

Vinho, cigarro apagado, contas que havia escondido na gaveta apontavam a sua falta de prumo. Nem esconder as contas conseguia. Podia ver Sofia dizendo, enquanto batia a porta e o deixava para sempre, certa que devia. Para sempre, mas não inteiramente. Foi a última coisa que ouviu dela. Ouviu mais ou menos. Mais lhe chamavam a atenção as botas que ficavam muito bem nela. Gostosa. Sentia a falta de Sofia. Achava. Dormia mais sossegado sem ela. Sofia para quê? Bastava tomar o metrô e lá estava no parque de diversões mais animado daquele lado da cidade. Mulheres a pagar, a foder e a deixar. Gozo. Sem memória. Sem sermões. Sem.

Mas por que justamente Sofia vinha à mente de forma, por vezes, explosiva, por vezes, tipo imagem de aquarela? Nem bonita era. Nem doce era. Sofia doía. Sofia mordia. Sofia morria para sempre. Bem feito.

Bobagem pensar nisso. Sofia não voltará. E nem existiu.

Nota do autor (que é autora): Conto depois essa história direito. Um conto não se conta propriamente até que se tenha com ele afeto tão grande que não tenha sentido absoluto.

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08.02.10 em: Segunda

postSã, flano

Luciene Braga

Eu tinha medo de virar mendiga ao envelhecer, até que vi o ator que fez o Raj (da Maya) dizer o mesmo.
Perdi o medo. Tenho companhia.
Também tenho medo de piolhos. Criança, pegava por telefone. Coço e imagino todos na minha cabeça que, vero, tem outras coisas.
Procuro versões de meus pensamentos, mais puros, mas não encontro. São tipicamentes quarentões.
Queria contar minhas histórias devagar, mas elas passam rápido pela cabeça e pelos olhos. Perco, como se perde um metrô. Mas o metrô passa de novo. Pensamentos gravados nem sempre retornam.
Conto, então, a curiosidade, os sentimentos penetrantes e saintes, os desejos, esses, tão pessoais que se encontram na coletividade criacionista.
Darwin decidiria, em bate papo com Einstein, quem venceria.
“Os mais adaptados”, dizia o evolucionista.
“Relativamente, pode ter razão”, respondia o outro, enfadonho, enquanto rabiscava fórmulas.
E eu flano férias. Flano tempo vago para viver, como pesquisar fantasias e horários de blocos. Interessa-me a folia e suas vibrações latinoafricanas.
Convido interessados e alegres. Também me disponho a festinhas e ações viris de amizade. Para isso me encaminho.
E isso inclui o carnaval.

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01.02.10 em: Segunda
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