Luciene Braga
Ou não é amor o tempo todo. Vira outros modos. Modos de tesão, de brincadeira ou escravidão, tanto faz. Ou tanto fez.
A gíria da moda do amor de moda é que tantos se vão, em cores forjadas e corpos doados para ideais esvoaçantes. Bons de foto.
OK. Então, um esboço imaginário da lembrança de mil anos, para cada fim de love-hate-story, um samba e uma certidão de óbito, cantada a cada desilusão:
“Já encomendei a certidão de óbito do nosso amor
causa mortis: asfixia, solidão e pneumonia
o doutor não veio, que tempo?
degustava charuto, no momento
eu falei: “não dou remédio. nem genérico, indústria farmacêutica”
você caiu… nem paramédico
causa mortis: ressecado
natural, muito natural
e levanta, defunto
pr’outro lado
que eu só penso é na injeção
quero vida além do estrago
autópsia não negou
causa mortis: falência múltipla sem-coração”
Cuidado: Frágil como chumbo
Dos sem-amor.
30.08.10 em: Segunda
Luciene Braga
Estudo de pesquisadores do Imperial College (Grã-Bretanha) e da Universidade de Duke (EUA) sugere ser possível tornar objetos invisíveis por uso da radiação.
Eles criaram uma espécie de “manto de invisibilidade”, usando um material novo, criado em laboratório, o metamaterial. Cobriram um cilindro de cobre, que foi bombardeado com microondas. O cilindro se tornou invisível no espectro de microondas.
No espectro de microondas, porque, à luz visível, nada desapareceu.
Não repita a experiência em casa.
Eles nunca me consultaram. Tenho algumas técnicas bastante naturais para ficar invisível. Algumas aprendidas com a minha cachorrinha Lua.
- algumas doses de caipirinha podem ser o antecessor natural do metamaterial (o número de doses ficou invisível na minha cabeça).
- na Casa&Vídeo, os vendedores nunca me vêem, o que até acho bom.
- na missa. todo mundo fica invisível, sem fazer esforço. é infalível.
- no banco, início do mês. o gerente não me vê. perto dia 30, o efeito desaparece completamente.
- truque da Lua: se não quiser ser visto, não veja. basta enfiar a cabeça no meio das almofadas do sofá ou atrás da cortina.
23.08.10 em: Segunda
Luciene Braga
“Autora em reconstrução”.
16.08.10 em: Segunda
Luciene Braga
as mãos dela tinham furor.
ele tinha a certeza de que apontariam em tormenta para aquele ato (de prazer) proibido dele.
como em dias de chuva, em que não se vê luz exterior, mas breu parcial e gosto pelo adormecimento dos reflexos, ele seguia triunfante em busca do que ela ofereceria.
nomes acadêmicos e mundiais passavam longe.
conflitos religiosos, de gente pouco afeita ao que em mãos se transforma e transborda. simples feito união de pólem.
olhava para ela. ela retribuía, devotada.
com suas mãos devotadas.
“aah”, soprou ele, jogando-se um metro à frente.
e gozou na elegância vívida daquele momento.
punheta no elevador parado.
e riram muito disso hoje, exatos alguns anos depois.
09.08.10 em: Segunda
Luciene Braga
A hipocrisia venceu no dia em que eu me vi cercada de policiais que tinham, em suas mãos, uma prova falsa contra mim: quantidade de cocaína suficiente para incriminar o mais casto dos monges eremitas. Logo eu, que nunca fui chegada. Todos os meus medíocres esforços no mundo proletário colidiram com grandes interesses como em um golpe de sorte inversamente proporcional ao que tange ganhadores de loterias milionárias.
Cena de cinema em minha própria vida.
“Perdeu! Perdeu!”, eles gritavam, empunhando mais armas do que eu poderia contar. Eu, desarmada, abri a mala do carro e vi o conteúdo, tão assustada quanto fiquei quando me contaram coisas de crimes bárbaros. Olhei nos olhos perdidos do mais bravo e não reagi.
Entendi completamente a mensagem.
O muro de lealdades e trejeitos caipiras acabara de cair, para dar lugar a um véu de obscuridade nos sonhos de qualquer criança com o futuro. Nessa hora, virei criança. Heroína e com o coração disparado. Louca para voltar ao quarto de brincar.
E não interessa contar o que aconteceu antes, porque a história é tão mínima e tão inocente que eu nem acredito em tudo o que aconteceu depois disso. O fim não é pior nem melhor que o de muita gente que sonha com um futuro brilhante, de outro tipo de filme.
O mais engraçado daqui de dentro é que sinto saudades das missas.
É.
O resto, bem, o resto não importa. Desde que cheguei aqui, não enxergo princípio, fim ou meio.
02.08.10 em: Segunda