Raquel C. de Medeiros
Por Adriana Falcão
Todo caso de amor tem um grande e um pequeno. Alguém um dia falou, em francês, que em todo caso de amor il y a toujours qui aime et qui se laisse aimer. É mais ou menos a mesma coisa. O pequeno ama, o grande se deixa amar. O grande fala, o pequeno ouve. O grande discorda, o pequeno concorda. O pequeno teme, o grande ameaça. O grande atrasa, o pequeno se antecipa. O grande pede, ou nem precisa pedir, e o pequeno já está fazendo.
Não é uma questão de gênero. Existem homens pequenos e homens grandes, mulheres grandes e mulheres pequenas. O temperamento e as circunstâncias influem, mas não determinam. O grande pode ser o mais bem-sucedido dos dois ou não. O pequeno pode ser o mais sensível, mas nem sempre é assim. Muitas vezes o grande é o mais esperto, mas existem pequenos espertíssimos. Depende do caso.
Como ninguém descobriu, até hoje, uma regra que permita determinar qual é o grande e qual é o pequeno, só observando o casal mais atentamente.
Na rua, o que anda distraído quase sempre é o grande. Quase sempre, no cinema, o grande só decide comprar pipoca depois que os dois já estão acomodados nas poltronas. O pequeno, então, fica esperando, vigiando, tomando conta para o filme não começar antes de o grande voltar, o que, por algum motivo, seria uma tragédia.
Numa festa, o pequeno deve estar ansioso para que a noite seja boa, principalmente se foi ele que sugeriu o programa. O grande se comportará de maneira indiferente até se embriagar pela música, pela bebida ou pelo ambiente, quando então ficará muito mais animado do que o pequeno. Mesmo que o pequeno dance bem, o grande sempre dançará melhor. O pequeno evita o silêncio porque tem certeza de que a culpa é dele, por isso sempre tem arquivados na cabeça assuntos que possam ser úteis em todas as ocasiões. A calça nova do pequeno dificilmente lhe cai tão bem quanto a do grande, assim como o cabelo do grande está sempre melhor que o do pequeno, ainda que a festa inteira pense exatamente o contrário. O pequeno geralmente se comove com a lua calado, enquanto o grande aponta, olha só a lua. No final da festa é sempre o pequeno que quer ir embora, reservando o melhor da sua alegria para o resto da noite, enquanto o grande se despede dos amigos displicentemente.
Mais tarde, o pequeno é macho, é gueixa, é desgraçado, é exclusivo e, se o coração do grande por acaso ouvir seus gritos, que sorte. No dia seguinte, o pequeno estará inevitavelmente preocupado: será que fiz tudo certo? Acho que eu não devia ter dito aquilo. Por que toda vez sou eu que beijo primeiro? Na dúvida, vai correndo procurar o grande, apesar de ter prometido que nunca mais faria isso.
O grande e o pequeno podem ser de qualquer espécie, inclusive bichos, com exceção dos gatos, que são todos grandes.
Não necessariamente formam um casal. Não é só nas histórias de amor que existem grandes e pequenos. Havendo mais de um, um par qualquer, dois adversários, dois irmãos, dois amigos, sempre haverá o que quer mais e o que quer menos, o fascinante e o fascinado, o generoso e o pedinte.
Mas como tudo pode acontecer, senão nada disso ia ter graça, a qualquer momento, por alguma razão, geralmente à noite, imprevisivelmente, o grande pode ficar pequeno, e o pequeno ficar grande de repente. Basta um vacilo, um acaso, um cair de tarde, um olhar mais assim, um furacão, uma inspiração, uma imprudência.
Quando isso acontece, é comum o pequeno ficar maior ainda, o que torna automaticamente o grande ainda menor. O ex-pequeno, logo que é promovido a grande, pode se vingar do ex-grande, se seu sofrimento tiver boa memória. Aí, coitado do novo pequeno, vai se arrepender de cada não beijo, cada não telefonema, cada não noite de insônia, cada não desespero, cada não entusiasmo, cada não carinho inesperado, indispensável, inevitável, imprescindível, cada não todas as palavras apaixonadas em qualquer língua do mundo. Ele vai se surpreender com a reviravolta, no começo, mas vai se conformar com sua nova condição de pequeno em seguida. E então vai seguir, cuidadoso e desastrado, na quase inútil intenção de conquistar o grande urgentemente.
* Estamos de férias, publicando nossos textos, poemas e vídeos favoritos
11.03.10 em: Quinta
Raquel C. de Medeiros
Aquele bracinho alvo e doente provocava-lhe calores. Observara-o durante muitos meses, todas as vezes que a moça ia à farmácia para tomar uma dose da injeção. Reginaldo, que ainda não tinha permissão para aplicar o medicamento, contorcia-se. Não tinha olhos para outra coisa que não fosse o braço descoberto da menina.
Chamava-se Branca e tinha uma beleza ingênua, comovente. Seus passos eram curtos, falava pouco e quase não dava para escutar a sua voz. Ia todas as quintas-feiras, religiosamente, tomar a injeção. Naquela semana, quando adentrou o estabelecimento, os olhos de Reginaldo faiscaram uma felicidade maligna: ele enfim recebera a autorização do órgão competente para aplicar injeções. Não conteve sua ansiedade e adiantou-se:
– Vamos lá? Hoje eu aplico.
A menina sentiu calafrios e nem sabia exatamente por quê. Levou-a até a cabine, abriu a agulha descartável, banhou o algodão no álcool e passou cuidadosamente em seu bracinho. Depois encheu a seringa com o medicamento e conteve-se por uns instantes: sentia uma perversa vontade de machucar aquela pele fininha. Pegou novamente o algodão e esfregou no braço de Branca numa tentativa de afastar aquele desejo. Mas não conseguiu controlar seu impulso, escolheu posições e finalmente enterrou a agulha com força. A menina não gritou, não gemeu, não fez caretas, não reclamou.
– Obrigada- disse Branca.
Na semana seguinte, voltou à farmácia, dessa vez à procura de Reginaldo. Seu bracinho de anjo ainda conservava a marca da dor que sentira na semana anterior. Aquilo provocou os piores instintos de Reginaldo e novamente ele não conteve a vontade de machucar a garota: segurou-se por alguns segundos e espetou a agulha com ainda força.
Na outra quinta-feira, os dois braços da menina estavam marcados e Reginaldo injetou o medicamento com ainda mais prazer: sentia um arrepio profundo e ardente ao ver o aço afundando na inocência daquela alma. Durante todo o ritual, a menina mantinha os olhos abertos e ele podia escutar seu coração ofegante.
E assim se sucedeu: Branca voltou durante todo o ano, sempre à procura de Reginaldo. Ela agora usava blusas de mangas compridas e apenas ele tinha acesso a seus bracinhos machucados, o que o deixava ainda mais obcecado. Os dois mal conversavam, mas havia se criado ali uma estranha intimidade, uma dependência doentia de machucar e ser machucado, um desejo cujo tom foi alcançando escalas inimagináveis: Reginaldo agora sentia vontade de beber o sangue de Branca.
Perturbado com aquelas anormalidades que não conseguia controlar, Reginaldo, que era direito e se esforçava para ser um homem bom, fez um esforço sobrenatural e um dia dobrou sua vontade de costurar, devagarzinho, o braço de Branca. Foi a primeira injeção aplicada corretamente ao fio de dez meses.
– Já? – perguntou a menina.
Nesse dia, Branca foi para casa com o braço ileso. Salva da dor. A menina, no entanto, sentiu nascer uma infelicidade que aos poucos lhe tomou todo o corpo. E adoeceu de desgosto.
Esse é um segredo que Branca e Reginaldo nunca compartilharam com ninguém: é daqueles segredos que a gente tem vergonha de contar porque não pode compreendê-los. Depois que Branca desapareceu, Reginaldo foi esquecendo-se daquela perversão e nunca mais teve os mesmos impulsos: hoje não passa de uma lembrança apagada, dessas que a gente nem acredita que viveu.
Para Branca, a lembrança é mais forte: ela tornou-se enfermeira e é obcecada por aplicar injeções. Mas seu grande prazer é desencaminhar os homens com suas doces espetadas.
04.03.10 em: Quinta
Raquel C. de Medeiros
As crianças ali aprendiam que aquela era a melhor escola da cidade. Os pais sentiam-se poderosos e privilegiados por poderem pagar o preço daquele colégio e passavam isso para os filhos. A educação não era o principal motivo pelo qual colocavam as crianças para estudar ali, mas a rede de contatos. Ser ‘bem-relacionado’, essa expressão horrorosa, era uma estratégia que lhes era traçada na infância e que vinha na frente de muitos outros valores.
Aquelas pobres crianças cresciam acreditando que eram melhores do que as outras. Aprendiam cedo a usar aquela referência para conseguir admiração e respeito dos outros. A maioria acabava com uma arrogância em comum: a dificuldade de reconhecer o valor do que era diferente deles.
A sardenta Maria Alice Helal foi uma criança alegre e espontânea até ir estudar na Escola do Bosque. Seus pais não haviam passado para a menina aquele sentimento de superioridade, nem a estimulavam a repetir o comportamento padrão da escola, onde as crianças usavam os mesmos tênis, mochilas e cadernos e ridicularizavam quem não era igual. Diferentemente das outras meninas, Maria Alice Helal ainda não freqüentava o salão de cabeleireiro nem ligava para as marcas festejadas pelas colegas. Sua mãe estranhou quando começou a se aproximar o aniversário da menina.
- Vamos fazer uma festinha, Maria Alice? Você convida seus amigos da escola.
Maria Alice disse que não queria comemorar com os colegas de escola. Diante da insistência da mãe, a menina não se conteve e começou a chorar.
- O que foi, minha filha?
- Eu não tenho amigos na escola, mamãe. Não tenho companhia nem para passar o recreio. Fico lendo ou conversando com o pipoqueiro.
Espantada com a revelação da menina, Morgana Helal conseguiu arrancar da filha que ela começara a ser discriminada no ano anterior, quando fez amizade com a amazonense Daniela, a ‘Paraibinha’, como apelidaram as crianças.
- A Dani era muito legal, mas todo mundo debochava dela porque não era igual a eles. Ela tinha um sotaque forte e usava umas roupas muito diferentes. Eu gostava dela e não a deixava passar o recreio sozinha. Então começaram a implicar comigo também. Quando o pai da Dani foi transferido, no início do ano, eu fiquei sem amigos.
Morgana Helal sentiu orgulho da filha, mas também foi tomada por um sentimento de revolta.
- Os professores não vêem essas coisas, minha filha?
- As crianças também xingam e ameaçam os professores, mamãe.
- Xingam de quê?
- De imbecis e idiotas.
- E os professores não fazem nada?
- Parece que eles têm medo, mamãe. Alguns estudantes dizem ‘Você sabe com quem está falando?’. Eles se acham muito importantes.
Morgana Helal estava estupefata.
- Eu não quero mais estudar lá, mamãe. Tem uma menina lá que finge não lembrar do meu nome e só me chama de ‘coisinha’. Na semana passada teve aniversário do Rogerinho. Acho que todos foram convidados, menos eu.
Morgana Helal pensou em uma forma grandiosa de denunciar aquela casta de prepotentes. Pequenos monstrinhos, vítimas da arrogância dos pais. Poderia ser uma carta para a direção, uma carta para o jornal, um manifesto em uma reunião de pais. Estava arrasada, mas decidida a fazer alguma coisa. Depois foi perdendo o ânimo para aquela luta: teria que lidar com os arrogantes, gente insuportável, que sequer olha ara o que não lhes interessa. Pensou e sentiu preguiça. Apenas tirou Maria Alice da escola, antes mesmo do fim do ano letivo.
25.02.10 em: Quinta
Raquel C. de Medeiros
Todos tinham uma história de carnaval para contar. Mas quando a Maria Flor decidiu contar a sua, todos os olhares voltaram-se para aquela nova amiga da Lúcia, uma mulher deveras reservada, que para nós ainda tinha um ar de mistério.
- Era a minha primeira visita ao Rio de Janeiro. Eu tinha ido pular o carnaval na cidade com meus primos e estava eufórica para conhecer o Rio e estrear a minha fantasia de vaga-lume.
- Vaga-lume! – exclamaram alguns dos amigos que estavam conosco.
- Sim! Minha madrinha, que é costureira, fez a fantasia e me deu de presente, porque o meu aniversário naquele ano caiu na terça-feira de carnaval.
- E como era a sua fantasia de vaga-lume? – perguntaram.
- Deixe-a contar! – intrometeu-se o Laurentino, que eu desconfiava interessado na Maria Flor.
- Eu tinha chegado ao Rio naquela noite, sexta-feira de carnaval, e fomos para um bloco de rua, na Urca. A minha fantasia era um collant branco bordado, de onde saíam as asas, e uma saia de filó branca. As anteninhas na minha cabeça tinham um pisca-pisca que eu controlava e ficavam especialmente encantadoras à noite.
- Não posso imaginá-la! – intrometeu-se novamente o Laurentino.
Os dois entreolharam-se e sorriram.
- Chegando à Urca, curvei o pescoço e o corpo para um homem muito alto e bonito que estava fantasiado de Pequeno Príncipe. Em menos de cinco minutos ele veio decidido em minha direção.
- Um Pequeno Príncipe alto e bonito vindo decidido em nossa direção deve ser um momento memorável – comentou Sara.
- A lembrança é tão forte que posso sentir novamente o meu coração palpitar – completou Maria Flor.
- Conta, estou curiosa! – pediu Lúcia.
- Ele falou da delicadeza das minhas asas e perguntou se podia voar comigo. Eu nunca tinha sentido uma paixão à primeira vista, uma paixão mesmo, com aquela intensidade. O Pequeno Príncipe acariciou por muito tempo as minhas asas antes de me tocar, porque ele ainda não tinha intimidade para isso, e eu senti calafrios que depois se transformariam em poesia.
- Ai, ai, ai – suspirou Lúcia.
- Você é poeta, Maria Flor? – perguntou o Laurentino.
- Digamos que sou uma poeta bissexta – brincou Maria Flor.
E continuou a história:
- Depois de uns vinte minutos de conversa ele pegou as minhas mãos e ficamos mais alguns minutos assim, com as mãos enlaçadas, antes de ele finalmente me beijar.
- E como foi o beijo? – Lúcia não se conteve.
- Não conseguíamos parar de nos beijar. Descobri que meu carnaval estava dentro dele. E ele me disse que havia descoberto que o mundo dele estava dentro de mim.
- Nossa! E você não casou com o Pequeno Príncipe? – provocou Sara.
- Foi o que também pensei. Juro! Quando o beijei, achei que nunca mais nos largaríamos.
- Mas termina de contar! E depois do beijo? – insistiu Lúcia.
- Já era quase manhã quando conseguimos parar de nos beijar. Passou o braço pela minha cintura e fomos ver o nascer do sol na Urca. E então, enquanto o sol aparecia, ele disse a frase que desligaria as minhas anteninhas: – ‘eu trocaria todos esses dias lindos de carnaval para ficar em um quarto escuro com você’. Senti uma desordem incontornável de emoções: euforia, medo e desejo, tudo junto. E a minha expressão, que revelava essas múltiplas faces, despertou-lhe ainda mais desejo. – Está com medo? – ele perguntou. – Claro- eu respondi. – Medo do que estou sentindo. E do que esse sentimento é capaz. – O que você precisa para aceitar a minha proposta? – ele perguntou. Um pouco mais de coragem – respondi. Então ele grudou suas mãos enormes no meu pescocinho, olhou dentro dos meus olhos e, sem dizer palavra, apenas com a respiração, convenceu-me a acompanhá-lo. Passamos na casa dos meus primos, deixei um bilhete, pois estavam todos dormindo, e levei a minha mala para a casa dele. E aconteceu conforme previmos: passamos os próximos dias do carnaval em um quarto escuro. Não conheci nada do Rio naquela primeira visita, além da Urca.
- Que fôlego! – exclamou Lúcia.
- E depois do carnaval? – perguntou Sara.
- Eu fiquei muito apaixonada. Começamos a namorar à distância, mas depois de uns oito meses percebi que ele já não estava mais tão apaixonado. A distância, que no início não era um problema, foi, aos poucos, virando desculpa e perceber aquilo me doeu muito. Um dia, quase um ano depois, ele falou: – você é muito entregue… acho que me apaixonei por você por isso e, ironicamente, acho que estou me desinteressando por esse mesmo motivo. Foi a maior desilusão da minha vida. Eu tinha certeza que ia me casar com ele.
- Qual era o nome do Pequeno Príncipe? – perguntou Sara.
- Gabriel.
- E vocês nunca mais se viram? – perguntou Lúcia.
- No carnaval seguinte eu ainda chorava. Não queria mais saber de carnaval. As fantasias, que tanto me alegravam, agora mofavam na minha melancolia. Também não podia ouvir falar no Rio de Janeiro. Só voltei à cidade alguns anos depois, quase a contragosto.
- E você o esqueceu?
- Eu tinha certeza que nunca me livraria daquela dor, mas lutava para arrancá-la de mim. Foram alguns anos para digerir aquela rejeição. Ficava ouvindo ‘Olhos- nos-olhos’, do Chico Buarque, e cantava como se estivesse olhando para ele: ‘quando você me quiser meu bem, já vai me encontrar refeita, pode crer’. Cantei tanto que aconteceu – disse, olhando para a parede, e começou a rir descontroladamente.
- Como assim? – perguntou Lúcia, rindo também.
Maria Flor abaixou a cabeça e colocou a mão na boca para abafar o riso. Parecia com vergonha do descontrole. Nós ríamos também, contagiados pelo ataque dela, que tentava parar de rir. Depois pediu desculpas, disse que não tinha tanta graça, que ela nem sabia bem porque estava rindo tanto, e continuou:
- Quando me casei com o meu ex-marido, nós fizemos uma viagem à Itália. Estávamos muito apaixonados, em um momento muito especial de nossas vidas. E foi nessa viagem que eu reencontrei o Gabriel.
- Não acredito! – exclamou Sara.
- Acredite. Fomos a um restaurante em Florença onde ele estava trabalhando como garçom. O meu marido acabara de me dar uma flor e eu estava olhando para ele com uma cara abobalhada de paixão quando avistei o Gabriel atrás dele. Por um segundo achei que fosse sombração.
Todos riram.
- Ele serviu vocês? – perguntou o Laurentino.
- Não, ele não era o atendente da nossa mesa. Graças a Deus! Aqueles sentimentos ruins já tinham passado e eu estava tão feliz que não desejaria uma situação tão constrangedora. Mas ele me viu, nos falamos de longe e percebi que ele ficou muito mexido. Não tirava os olhos de mim. O meu ex-marido até comentou que ele estava olhando muito para a nossa mesa. Eu ria por dentro, lembrando dos tempos em que eu cantava ‘olhos-nos-olhos, quero ver o que você faz ao saber que sem você eu passo bem demais’. Naquele momento eu soube que aquela história estava resolvida dentro de mim. Me senti completamente feliz, como se tivesse recuperado um pedaço das minhas asas que ele tinha levado.
Quando Maria Flor terminou de contar sua história, todos estavam pensativos. O silêncio foi cortado pela própria.
- Eu tenho um retrato daquela noite, fantasiada de vaga-lume. Vocês querem ver?
E todos os olhos da sala brilharam, como se ela tivesse ligado o pisca-pisca de suas anteninhas daquele carnaval.
18.02.10 em: Quinta
Raquel C. de Medeiros
A alegria das Carlitas
É ele, é ele! O samba que só tem refrão
Até aquelas mais contidas
É ele!, o bamba que não faz senão.
E tem as rimas tão compridas
Que vão alto, voam alto até Plutão
No Rio, em Londres, as Carlitas
Só querem o samba do colchão
Tem olho grande nas Carlitas
É ele, é ele,
Cuidado com esse refrão.
E a vida pode ser, ô Carlitas
Cantada até na contramão
No Rio, em Londres, as favoritas
É ele, é ele!
E quem não sabe, senoritas
O samba sem explicação
E a vida pode ser, Carlitas
Um verso que não faz canção
E o segredo das Carlitas
É ele, é ele!
Até aquelas mais aflitas,
Sossega, num conto não
No Rio, em Londres, as Carlitas
Vão alto, vão alto
Em sua direção
Até as mais enrustidas
Derrubam qualquer refrão
E o segredo das carlitas
Tesouro, num conto não
* Para as Carlitas inglesas, irresistivelmente bobas, que me inspiraram.
Outras bobagens
Ser feliz é dar significado às bobagens. Aproveitá-las.
Ser escritor é reconhecer os significados das bobagens e aplaudi-las com as letras.
E andiamo até a próxima bobagem.
11.02.10 em: Quinta
Raquel C. de Medeiros
Olharam-se e ela se espantou ao perceber onde aquele olhar tão decidido poderia chegar. Mas continuou firme, olhando. Sorriu, sem saber bem o que aquele sorriso significava. Depois mexeu as mãos, enrolou a ponta do cabelo, tentou disfarçar o desconcerto. Hã? Lavínia, meu nome é Lavínia. Prazer também, e o olhar lá, resoluto, sem derrapagens. Conversaram sobre o lustre démodé daquele saguão e riram com a alegria incontida de quem acaba de reconhecer uma grande afinidade. Na troca de olhares, o movimento de um sopro arrebatador. Inesperado. Ao mesmo tempo, uma repentina certeza de que aquele encontro estava bordado nas nuvens disformes de um perdido quebra-cabeça. Qual mesmo?
A cada palavra trocada, familiaridade e estranhamento. Risos desorientados interrompiam as letras que em poucos segundos adivinhariam a gramática de um idioma distante. Delírio? Lavínia sentiu calafrios ao perceber que seus olhares afundavam cada vez mais um no outro.
Ficou sem ar. Com licença, disse Lavínia e ia fugir daquela cena, flanar pelas ruas desconhecidas daquela cidade quando foi puxada pelas mãos. Posso ir com você?, ouviu. Hã?, tentou despistar, afastando o corpo. E o olhar, aquele olhar que ela não sabia bem o que queria alcançar continuava a inibi-la. Revirava suas órbitas. Mas eu nem sei aonde estou indo, Lavínia respondeu, desassossegada. Melhor assim, disse a outra menina, antes de acompanhá-la. E mesmo sem saber aonde iam, elas foram: seguiram o bordado daquelas nuvens até encontrarem um ventilador antigo e gigantesco, que ventava ao contrário, ventilava histórias narradas em castelhano por inofensivos dragões. E Lavínia gargalhava como uma criança quando acordou sobre as nuvens bordadas em seu lençol lilás.
04.02.10 em: Quinta
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