Segunda a Sexta

  • "Aí você vê como tudo é frágil. Uma coisinha pode derrubar tudo"

    Chiquinho, do Mombojó, para a TRIP

    Tema da Semana: FRÁGIL

 

postSete anos

Tiana Maciel Ellwanger

Foram sete anos intensos. Recheados de carinhos grudentos daqueles que só quatro paredes suportam, palavras alternadas entre candura e libertinagem, viagens que mudaram nossa alma, contratempos que nos uniram, nos afastaram e depois nos uniram novamente.

 

Mentiras doces permearam nossa história, até o finzinho dela. Promessas de amor eterno, fidelidade a qualquer custo, companhia em todos os momentos, bons e maus. A companhia, aliás, era a segurança a que nos agarrávamos, às vezes deliciosa, outras insuportável, mas sempre lá, mantendo o costume confortante.

 

Vieram os filhos, o cansaço, a realização pessoal em reproduzir, em formar um serzinho, dois serezinhos, três serezinhos.

 

Mas bastou um ano para tudo ir se desfazendo.

 

Foram-se o vigor, a beleza e a cintura fina. O sexo.

 

Os olhares em outras direções multiplicaram-se, primeiro da parte dele, depois da minha.

 

A família, o combinado era que ela teria papel secundário, sem interferências, depois passou a ser motivo de briga, de disputas bobas: quem visitar, quem convidar, quem presentear.  

 

As compras, antes difíceis por falta de dinheiro, agora eram difíceis pela falta de respeito.

 

E assim, sem que nós percebêssemos (mentira), o que parecia ser um edifício sólido, concreto e em permanente construção ruiu como uma casa abandonada, devorada por cupins.  

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31.08.10 em: Terça

postQuero ver o que você faz

Tiana Maciel Ellwanger

             Ela olhou nos meus olhos. Não olhou para mim, apenas, olhou dentro dos meus olhos, onde dizem que a alma se esconde. Ou se revela. Por alguns segundos que não sei contar, ela me despiu com o olhar e parecia, no semblante, que desconfiava dos meus planos. Do meu histórico.

             Durante anos, investiguei sua vida. Orkut, Facebook e twitter facilitaram minha rotina, mas também já bati muita perna atrás dela quando nada disso existia. Lembro de uma vez que, ridículo, me escondi atrás de uma, duas, três árvores, acompanhando-a pelo caminho até o ponto de ônibus. Encolhia a barriga atrás de cada tronco e até pensei em carregar um galho de como disfarce, inspirado nos desenhos do Pica-pau. Isso sem falar das incontáveis idas ao terceiro andar, só para vê-la, recepcionando a todos, sem me perceber. Da escada, ouvia sua voz e gargalhada; pela porta de emergência espiava todos os movimentos, até os que ela só fazia pela certeza de estar só.

             A verdade é que, na primeira oportunidade de conversa, falei que amava Los Hermanos e Fagner e que tinha adorado o livro ‘Múltipla Escolha’ da mesma forma que nutella e bolo-quente-de-fubá eram minhas paixões. Tudo estava no Orkut, eu não disse. Ela, que no início parecia encantada com nossas afinidades, passou a me olhar desse jeito que descrevi, profundo e desconfiado.

             Essa conversa foi na cantina da empresa, larguei o trabalho mais cedo para encontrá-la. O assunto começou com um “me passa o açúcar”, achei que ela poderia me reconhecer, mas, como dizem, ela me olhava (eu era segurança da firma), mas não me via. Nunca tinha me visto. Não me preparei o suficiente para aquele momento, eu sei. Não foi difícil para ela perceber que não era normal tantas intimidades vomitadas de uma só vez.

             Bom, essa história toda é para dizer: descobri que, na verdade, não queria ser notado por ela. Preferia observar de longe, anônimo, atrás de árvores ou pela tela luminosa do computador. Queria vê-la pelas fotos, através da fresta da porta de emergência, sorrindo do balcão para os homens e mulheres que não conhecia, dizendo ‘bom dia’ e ‘boa tarde’, simpática mesmo angustiada. E eu sabia quando estava angustiada. Sabia mais do que ela, talvez.

Gostava de vê-la se olhando no espelho depois do almoço, reclamando do salto alto e do cabelo impecável porque não tinha a opção de não estar impecável. Ajeitando a calcinha ou palitando os dentes quando não tinha ninguém na sala de espera. Acessando as redes sociais, escondida, viciada que era em se expor virtualmente. Gostosa.

             Agora que ela tinha me olhado nos olhos, eu não mais tirava os óculos escuros, virava quando ela passava por mim e depois olhava para seu vestido como se ele não existisse, como se pudesse ver cada curva. E via. Preferia tê-la assim de longe, de vista, sem toques ou olhares que despem e descobrem que nada sou além de um potencial psicopata.

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24.08.10 em: Terça

postPudim

Tiana Maciel Ellwanger

Olhando aquela foto antiga, não conseguia lembrar de nada. O momento, congelado no papel, não fazia mais parte das minhas lembranças. A não ser pela memória do gosto, pudim. Na foto, ele nem tinha tanta importância: repousava, pela metade, num pires antigo. Em frente a uma pessoa, que, no geral, não trazia sorrisos. Eu ria para a câmera, ele não gostava muito da vida.

Foi a primeira vez que comi aquela sobremesa de ovos e só disso lembrava. A textura era estranha, no início, bem amarela. Depois, ao senti-lo sem expectativas, achei interessante. O céu da boca recheado, a língua quase formigando de ovo doce, a casquinha crocante no final.

Engraçado lembrar disso e só disso.

Nunca mais comi pudim. Talvez porque não quisesse relembrar de nada além do gosto doce daquele jantar indevidamente fotografado.

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17.08.10 em: Terça

postMãos

Tiana Maciel Ellwanger

Minhas mãos sempre disseram muito sobre mim, agora eu sei.

Dedos gordos aos treze, inchados de violão aos quinze, magrinhos aos vaidosos dezoito.   

Unhas perfeitas quando me importava com os patrões. E com o metrossexual do Jorginho. Vermelhas, vinho e até verdes.

Mal feitas unhas, tamanhos diferentes, sem esmalte, cutículas pululando, quando não estava nem aí para as convenções. Ou dizia que não estava.  

Mãos lanhadas de acidente um pouco depois. Foi quando parei de me preocupar de vez com julgamentos ao ver o quanto a vida era frágil.

Mãos ao alto nos shows de rock, dadas nas viagens à praia com Bruno, tensas com Loir.

Lembro quando Fernando nasceu, lindo, mãos perfeitas: foi a primeira coisa que chequei. Horas admirando suas mãozinhas enquanto amamentava. Mãos de homem em miniatura.  

Engraçado que agora, vendo os álbuns de fotografia, isso das mãos me veio à cabeça; nunca tinha pensado no assunto.  

Depois, vieram as rugas. Muitas. Dei uma recauchutada no rosto e pescoço, até nos braços. Mas as mãos não deixam que eu esconda cada um dos meus bons anos vividos. E sabe que as acho bonitas?

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10.08.10 em: Terça

postDiário

Tiana Maciel Ellwanger

Estou nervosa demais, não consigo pensar em nada além do meu diário. Desde que mamãe casou com esse depravado do Ferdinando, o diário é minha válvula de escape, onde extravaso minha raiva.

E onde mantenho meus sonhos.

 Se não tivesse escrito nele o que quero (quero ser aeromoça, daquelas de coque no cabelo, batom rosa e salto alto), acho que já teria esquecido, porque a vida tá pior do que nos pesadelos em que acordo suando.

Quero sair dessa favela, estudar inglês, alemão e francês, viajar por aí, até o Japão. Empurrar o carrinho com comidas pra lá e pra cá no avião, como nos filmes. E nunca mais ver o Ferdinando, idiota.

Mas ontem, quando cheguei de viagem (estava na casa da minha tia, lá no interior fofoqueiro de Bom Jesus), tinha um muro separando nossa casa da mata. Separando a favela toda da mata. E como o imbecil do Ferdinando mexe em todas as minhas coisas, guardava o diário lá. Embaixo da mangueira, dentro de um saco plástico, num buraco secreto. Agora, não sei como ir lá, nem sei se o buraco continua secreto. Será que o pessoal que fez o muro achou meu diário?

Mamãe diz que foi pra evitar que a comunidade crescesse, para preservar a floresta. Balela. E tem gente aqui que ainda apóia esses políticos que não gostam de favelado. Até eu consigo ver no Google Earth se a favela tá crescendo ou não.

Falei com a professora sobre isso, ela disse que esse muro era um absurdo mesmo. Disse que o Saramago, um escritor português muito famoso, criticou o muro. Ela também falou do Muro de Berlim, que as pessoas faziam de tudo para passar de um lado para outro quando ele existia e muita gente morreu tentando passar o muro. Uma história horrível.

Bom, agora to mais calma, escrever é tão bom pra isso. Mas queria muito meu diário de volta, com laço rosa.  Será que terei que começar outro?

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03.08.10 em: Terça

post?

Tiana Maciel Ellwanger

E você, está no mundo para quê?

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27.07.10 em: Terça
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