Tiana Maciel Ellwanger
Por Luis Fernando Veríssimo
Lembro-me como se fosse há oito bilhões de anos. Eu era uma célula recém-chegada do fundo do miasma e ainda deslumbrado com a vida agitada da superfície, e você era de lá, um ser superficial, vivida, viciada em amônia, linda, linda. Nós dois queríamos e não sabíamos o quê. Namoramos um milhão de anos sem saber o que fazer, aquela ânsia. Deve haver mais do que isto, amar não deve ser só roçar as membranas. Você dizia “Eu deixo, eu deixo”, e eu dizia “O quê? O quê?”, até que um dia. Um dia minhas enzimas tocaram as suas e você gemeu, meu amor, “Assim, assim!”. E você sugou meu aminoácido, meu amor. Assim, assim. E de repente éramos uma só célula. Dois núcleos numa só membrana até que a morte nos separasse. Tínhamos inventado o sexo e vimos que era bom. E de repente todos à nossa volta estavam nos imitando, nunca uma coisa pegou tanto. Crescemos, multiplicamo-nos e o mar borbulhava. O desejo era fogo e lava e o nosso amor transbordava. Aquela ânsia. Mais, mais, assim, assim. Você não se contentava em ser célula. Uma zona erógena era pouco. Queria fazer tudo, tudo. Virou ameba. Depois peixe e depois réptil, meu amor, e eu atrás. Crocodilo, elefante, borboleta, centopéia, sapo e de repente, diante dos meus olhos, mulher. Assim, assim! Deus é luxúria, Deus é a ânsia. Depois de bilhões de anos Ele acertara a fórmula. “É isso!”, gritei. “Não mexe em mais nada!”
— Quem sabe mais um seio?
— Não! Dois está perfeito.
— Quem sabe o sexo na cabeça?
— Não! Longe da cabeça. Quanto mais longe melhor! Linda, linda. Mas
algo estava errado. Não foi como antes.
— Foi bom?
— Foi.
— Qual é o problema?
— Não tem problema nenhum.
— Eu sinto que você está diferente.
— Bobagem sua. Só um pouco de dor de cabeça.
— No caldo primordial você não era assim.
— A gente muda, né? Nós não somos mais amebas.
E vimos que era complicado. Nunca reparáramos na nossa nudez e de repente não se falava em outra coisa. Você cobriu seu corpo com folhas e eu construí várias civilizações para esconder o meu. “Eu deixo, eu deixo — mas não aqui.” Não agora. Não na frente das crianças. Não numa segunda-feira! Só depois de casar. E o meu presente? Depois você não me respeita mais. Você vai contar para os outros. Eu não sou dessas. Só se você usar um quepe da Gestapo. Você não me quer, você quer é reafirmar sua necessidade neurótica de dominação machista, e ainda por cima usando as minhas ligas pretas. O quê? Não faz nem três anos que mamãe morreu! Está bem, mas sem o chicote. Eu disse que não queria o sexo na cabeça, Senhor!
— Nós somos como frutas, minha flor.
— Vem com essa…
— A fruta, entende? Não é o objetivo da árvore. Uma laranjeira não é uma árvore que dá laranjas. Uma laranjeira é uma árvore que só existe para produzir outras árvores iguais a ela. Ela é apenas um veículo da sua própria semente, como nós somos a embalagem da vida. Entende? A fruta é um estratagema da árvore para proteger a semente. A fruta é uma etapa, não é o fim. Eu te amo, eu te amo. A própria fruta, se soubesse a importância que nós lhe damos, enrubesceria como uma maçã na sua modéstia. Deixa eu só desengatar o sutiã. A fruta não é nada. O importante é a semente. E a ânsia, é o ácido, é o que nos traz de pé neste sofá. Digo, nesta vida. Deixa, deixa. A flor, minha fruta, é um truque da planta para atrair a abelha. A própria planta é um artifício da semente para se recriar. A própria semente é apenas a representação externa daquilo que me trouxe à tona, lembra? A semente da semente, chega
pra cá um pouquinho. Linda, linda. Pense em mim como uma laranja. Eu só existo para cumprir o destino da semente da semente da minha semente. Eu estou apenas cumprindo ordens. Você não está me negando. Você está negando os desígnios do Universo. Deixa.
— Está bem. Mas só tem uma coisa.
— O quê?
— Eu não estou tomando pílula.
— Então nada feito.
Mais, mais. Um dia chegaríamos a uma zona erógena além do Sol. Como o pólen, meu amor, no espaço. Roçaríamos nossas membranas de fibra de vidro, capacete a capacete, e nossos tubos de oxigênio se enroscariam e veríamos que era difícil. Eu manipularia a sua bateria seca e você gemeria como um besouro eletrônico. Asssssiiiim. Asssssiiiiim.
Um dia estaríamos velhos. Sexo, só na cabeça. As abelhas andariam a pé, nada se recriaria, as frutas secariam. Eu afundaria na memória, de volta às origens do mundo. (O mar tem um deserto no fundo.) Uma casca morta de semente, por nada, por nada. Mas foi bom, não foi?
* Estamos de férias, postando um pouco do que nos inspira
16.03.10 em: Terça
Tiana Maciel Ellwanger
Por Carlos Drummond de Andrade
De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.
Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).
Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.
Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço de cigarros, ficou um pouco.
Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.
Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?
Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil…
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver… de aspirina.
De tudo ficou um pouco.
E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.
* Estamos de férias, postando nossos textos, vídeos ou poemas favoritos.
09.03.10 em: Terça
Tiana Maciel Ellwanger
“Tudo é bom quando é excessivo”
Marquês de Sade
Era o terceiro e melhor e-mail que recebia depois do anúncio na Internet. Os erros de português quase anulavam os belos quadris da remetente, mas seus preciosismos não o impediriam de realizar fantasias. Respondeu:
“Gostei de você. Também adoro brincar com fogo e facas. Seus seios são lindos. Não se preocupe que será tudo consensual”, mentiu.
A resposta veio em menos de um minuto: “Vc não está entendendo. Quero ser sua, sem amenidades, gosto de exageros, muitos, todos, senpre”.
O erro no fim do texto não foi capaz de irritá-lo: conseguiu a mulher perfeita? Era ela, era Lea. Lea gostosa, Lea onírica, Lea bela. Ela.
Trocaram vários e-mails excitantes, enfim realizaria suas fantasias com uma mulher que gostasse, gozasse, que não exigia dinheiro, apenas prazer e dor. Muita dor.
Marcaram o encontro para o fim-de-semana. Os dias passaram lentos, ansiosos, excitados e receosos. Receosos com o que estava por vir, sofria e odiava o sofrimento. Nunca seria como Lea, pensou.
Na hora marcada, entrou no banheiro do shopping Butantã. O masculino, porque Lea assim exigira. Entrou na segunda porta da direita para a esquerda e esperou. Esperou. Quando, mais de longos quinze minutos após o combinado se passaram, ouviu as três batidas na porta, abriu-a. O éter no rosto e a voz grossa ordenando o silêncio eram as últimas coisas que lembrava antes de acordar naquele quarto largo e branco.
O prazer com o sofrimento alheio vertia do sorriso das mulheres ao seu redor. Eram três, todas ruivas e pálidas. Apresentaram-se como as sádicas que gostam de fazer os sádicos sofrerem. “Hein?” Isso mesmo: sádicas que gostam de sádicos não masoquistas.
Acenderam velas e, a cada pingo quente no seu corpo peludo, amarrado na cama com cordas agressivas, elas faziam uma revelação.
O grupo, todo reunido pela Internet, já somava vinte e cinco fêmeas realizadas, que riam para seu pavor. Como num filme de terror B. Foi a revelação do primeiro pingo, que pareceu furar a pele do pé com o calor. Gritou.
Tinham homens masoquistas que trabalhavam para elas, como o que o imobilizara com ajuda do éter no banheiro do shopping. Mais uma gota fervente.
Aquela casa ficava na periferia de São Paulo e ele só seria solto quando elas quisessem. Se tentasse fugir, a brincadeira passaria a ser com estiletes, disse a ruiva que parecia ser a líder.
Outra gota branca no antebraço, doeu menos. Construíram a fantasiosa Léa a dez mãos, quando o grupo foi formado, há seis meses. Desde então, divertiam-se ao caçar sádicos na rede, interpretando a Léa, burra e gostosa.
Na décima gota, parecia ter se acostumado com o ritual da dor, pelo menos o das velas. Foi quando elas falaram, gargalhando, o que fariam com aqueles músculos no dia seguinte. A noite foi longa, quase tão sofrida quando a tortura que viria.
Rastejou, foi chicoteado, apanhou com toalha molhada. E assim, sofreu por dias, semanas, como nunca achou que aguentaria. Na sétima semana, passou a ficar excitado, mas ainda chorava com as humilhações, chicotadas e com a obrigação de só comer se rastejasse.
Até começar a sentir prazer com a falta de autoestima.
E elas se desinteressarem.
Foi libertado. “Vá embora, seu idiota, não queremos mais você aqui”, ouviu por vários dias variações dessa frase até se convencer de que a insistência o levaria à morte. Quando chegou em casa, colocou outro anúncio no mesmo fórum.
“Procuro mulher sádica, com exagero, muitos, todos. Sempre”.
02.03.10 em: Terça
Tiana Maciel Ellwanger
Paty do Alferes, 20 de fevereiro de 2010
Querida prima,
O Reinaldo morreu. Foi uma morte linda, não se preocupe. Quando eu morrer, quero que seja assim, sem muito sofrimento, sem dar trabalho, sem operação. Vou te contar. Acordamos às seis, como sempre fazemos aos domingos. Tomamos nosso café, ele lavou a louça e, às oito, saímos para a Reunião. Conversamos com os vizinhos, ele contou pra todo mundo da Igreja que completávamos 51 anos de casados naquele dia, disse que o amor que tinha por mim era o mesmo do início do nosso namoro, quando me viu na escola de sainha. Ele não era fácil, né?
Mas então, como eu ia dizendo, voltamos da Reunião devagar e fui preparar nossa comida. Estava fazendo aquele bife de fígado que ele gosta, com bastante cebola. Ele bateu a porta dizendo que ia comprar um guaraná e voltou jurando que a Fanta estava mais em conta. Fiz cara feia, porque a Fanta que vendem aqui faz mal pro fígado, mas ele nem viu. Estava indo ao banheiro. Acho que foi lavar a mão. Ouvi um gemido baixo e fui ver, já sentindo que o pior estava por vir, sabe quando a gente sente?
Ele estava caído no chão, com a mão no peito, cara de dor, queria dizer alguma coisa com os olhos, me olhava meio desesperado (mas não conseguia falar), parecia que sentia que dessa não ia escapar… Ou não. Acho que acabei assustando mais ele, aquela cena do outro enfarte me veio à cabeça, Joelma, não consegui disfarçar meu estado de choque ao ver aquele homem me olhando daquele jeito. De novo. Gritei pelos meninos, o Ronaldo e o Supimpa estavam, ainda bem, na varanda, e me ajudaram a levá-lo pro hospital. Pegamos carona com o vizinho, aquele que eu chamo de rico pobre, porque é rico, mas é simples, entende?
Eu segurei a mão do Reinaldo o tempo todo, ele me olhava como se dissesse adeus. Ou não. Parecia que queria dizer alguma coisa, mas não conseguia, sabe? Até sonhei com isso ontem, que ele estava do meu lado e dizia “Wilma, eu preciso te contar um troço (ele adorava essa palavra)…”, mas quando ia contar, eu acordei. Droga!
Quando chegamos no hospital, não deixaram mais eu ver ele, foi a pior parte. Antigamente quando a gente morria, a família estava sempre ali do lado, o doente tinha chance de contar segredos, dar conselhos, passar seus ensinamentos, e pedir desculpas pelos pecados dessa vida. Lembra do vovô? Aqui não é assim não, Joelma, eu acho muito ruim, sabe, pior ainda pra quem tá morrendo, passar os últimos minutos da vida sem poder falar com quem gosta, só olhando aquelas caras de médico que são todas meio indiferentes, sem amor.
No enterro, apareceu aquela mulher que te falei. Acho que eles foram amigados um tempo. Acho tanto que quase sei. Ela estava com o garoto que deve ter a idade do Waltinho, mais ou menos. Eu tentei não olhar pra ela, mas não conseguia. Até ali, ela atrapalhou a minha vida, como se me obrigasse a dividir a dor que era só minha. Ela estava de óculos escros, mas dava pra ver que chorava um bocado. Antes de entrar pra Igreja, você sabe como eu odiava ela, né? O Eriberto, do bar, disse que ela quer falar comigo, que vai falar tudo que eu devia saber. Eu nem quero saber, na verdade. Se quiser dinheiro, coitada, mal sabe que o Reinaldo só deixou conta pendurada por aí.
E saudade. Imagina, passar cinquenta anos com uma pessoa e, de repente, ela não estar mais dormindo do seu lado, brincando com os netos, reclamando que a comida tá sem sal… Ele sempre reclamava que a comida tava sem sal, por ele, era sal puro. Mas o que mais eu sinto falta, Joelma, é de andar na rua de mão dada. A gente sempre andou de mão dada, desde o primeiro beijo até o caminho do hospital. Quando fecho os olhos, consigo sentir o calor dos dedos dele…
Na hora em que o médico me falou que eu precisava ser forte, a ficha ainda não tinha caído: ia precisar mesmo. Eu reclamava do Reinaldo, mas ele era quem tava sempre presente, que dividiu vida comigo, você teve isso com o Jô também. Mesmo tendo os meninos, os netos e bisnetos, companheiro mesmo a gente só tem um, né?
Ah! Nem te contei: pior foi a enfermeira dizendo que eu tinha que sair dali, que eu tinha que me conformar sem atrapalhar o trabalho dos outros. “Eram nada mais nada menos do que 17 óbitos por plantão”, dizia. Disse que eu tinha dado azar, que no Carnaval os médicos não gostam muito de trabalhar, sempre falta um ou outro. A garota era novinha e com aquela arrogância toda…
Eu tentei te ligar pra ver se você conseguia vir pra cá, sabe? Sinto saudade das nossas conversas até de madrugada. Mas seu telefone não tá chamando mais. De qualquer forma, escrever essa carta me fez um bem que você nem sabe, e eu te agradeço por isso. No mais, tá tudo bem, o Jorginho, que desde pequeno gosta de um livro, passou pra faculdade, você acredita? Vai fazer Química, disse que quer trabalhar pensando nos melhores biscoitos. Acho que vai longe. Ah! A Verinha ta grávida, mais um moleque pra família.
Aguardo sua ligação. Amo você, viu?
Beijos da sua prima,
Wilma
23.02.10 em: Terça
Tiana Maciel Ellwanger
Botou a máscara e por momentos e cervejas teve a impressão de estar invisível. A sensação durou até o cara da cerveja oferecer, em voz alta, a mistura de álcool e cevada. Aceitou, mais uma vez. Riu das fantasias originais, achou mais lindo do que de costume o desfile daquele bloco tradicional. Quis subir na estátua. Sentiu a música e a bateria no peito, vibrante.
Ao levantar a cabeça, avistou-o. Delicioso, fantasiado de Jesus. Aproximou-se e pediu a bênção. Haviam se conhecido há pouco tempo, suficiente para sentir-se envolvida. O pensamento, libertino, seguia lógica do Carnaval e, na primeira abertura em forma de sorriso, beijou-o. Não se desgrudaram até irem parar numa vila nada escondida. O suor dos dois misturou-se, assim como os gemidos baixos.
Voltaram para o bloco exaustos. Com cara de contentados e cheiro de tranquilidade. Falaram de vidas, Deus e atentados, hábitos de café-da-manhã e poesia. “Vamos embora?”, ele sugeriu; ela concordou.
Subiu no ônibus e rodopiou piando, incorporando a fantasia de passarinho. Sua animação acabou com os chatos, aos gritos. Chegava quase, faltava, mas só pensava em chegar. O cheiro de carne a apetecia. Enquanto a maioria a sua volta buscava a folia sem regras, ela só pensava, agora, em deitar ao seu lado, com prazer ou sem.
Ainda sentia o cheiro de Carnaval, cheiro de água molhada, água molhada. Água de todas as origens, menos da chuva. Pela janela do ônibus, passou por mais bêbados e blocos. Admirou o Pão de Açúcar, depois os prédios do antigo Centro e imaginou como seria se tivesse nascido há 60 anos. Não teria se entregado daquela maneira?
Na primeira freada brusca, lembrou, que em um dos blocos leu o conselho: Viva cada dia como se fosse o último. Um dia você acerta. Fez pensar. Dois passageiros pediam para que o motorista corresse mais e não pegasse mais gente. Danem-se todos, exprimiam com outras palavras. O sinal está verde motorista, “avança!”, ouvia enquanto segurava a cabeça dele, dormente. Ao ouvir Aurora pela vigésima vez, as pessoas com o mesmo entusiasmo da primeira, leve irritação.
Nove meses depois, nasceu Lucas, lindo, cabeludo, e com as mãos perfeitas.
16.02.10 em: Terça
Tiana Maciel Ellwanger
Abri a porta, soluçando o soluço que estava engasgado desde o metrô. Chutei o jornal intacto. “Ele me deixou, me deixou”, chorei pro Bartô, que me olhava com cara de cachorro, miando. “Ele me deixou, Bartô, pra sempre. Você acredita nisso?”.
Abracei a almofada e as lágrimas caíam, numa intensidade que me fazia lembrar a época em que tinha espinhas na cara e vergonha de ser magra. Bartô esfregava-se na minha perna, consolando-me em vão, eu ficava mais melancólica, soluçante.
Esforçava-me pra pensar no mal que ele me fez, indecisões, egoísmo, falta de entrega. Mas só os longos beijos e as gentilezas me vinham à mente. Chorava mais, copiosamente.
Respirei fundo, liguei o som, Elvis, me pus a dançar, pra esquecer. Ou pra lembrar.
Peguei o Bartô a contragosto (ele não gostava de colo). Fechei os olhos e ele me disse: “Esquece isso, darling, bobagem”. Abri os olhos assustada com a voz felina. Bartô me fitava, quase sorrindo. “Pardon me. If I’m sentimental when you say goodbye”, dizia Elvis. “Ah! Elvis e Bartô, vocês me enlouquecem. Bobagem”.
09.02.10 em: Terça
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