Tiana Maciel Ellwanger
Por Carlos Drummond de Andrade
De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.
Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).
Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.
Mas de tudo fica um pouco.
Da [...]
09.03.10 em: Terça
Tiana Maciel Ellwanger
“Tudo é bom quando é excessivo”
Marquês de Sade
Era o terceiro e melhor e-mail que recebia depois do anúncio na Internet. Os erros de português quase anulavam os belos quadris da remetente, mas seus preciosismos não o impediriam de realizar fantasias. Respondeu:
“Gostei de você. Também adoro brincar com fogo e facas. Seus seios são lindos. Não [...]
02.03.10 em: Terça
Tiana Maciel Ellwanger
Paty do Alferes, 20 de fevereiro de 2010
Querida prima,
O Reinaldo morreu. Foi uma morte linda, não se preocupe. Quando eu morrer, quero que seja assim, sem muito sofrimento, sem dar trabalho, sem operação. Vou te contar. Acordamos às seis, como sempre fazemos aos domingos. Tomamos nosso café, ele lavou a louça e, às oito, [...]
23.02.10 em: Terça
Tiana Maciel Ellwanger
Botou a máscara e por momentos e cervejas teve a impressão de estar invisível. A sensação durou até o cara da cerveja oferecer, em voz alta, a mistura de álcool e cevada. Aceitou, mais uma vez. Riu das fantasias originais, achou mais lindo do que de costume o desfile daquele bloco tradicional. Quis subir na [...]
16.02.10 em: Terça
Tiana Maciel Ellwanger
Abri a porta, soluçando o soluço que estava engasgado desde o metrô. Chutei o jornal intacto. “Ele me deixou, me deixou”, chorei pro Bartô, que me olhava com cara de cachorro, miando. “Ele me deixou, Bartô, pra sempre. Você acredita nisso?”.
Abracei a almofada e as lágrimas caíam, numa intensidade que me fazia lembrar a [...]
09.02.10 em: Terça
Tiana Maciel Ellwanger
Olhos passavam pela rua, ligeiros, apressados. Cruzavam os meus, desconfortáveis. Talvez porque os encarasse. Ou me encarassem.
Ou não olhavam, mirando o chão e os próximos passos, os próprios passos.
Gostava dos olhares ansiosos, infantis, estupefatos com o mundo. Correndo, observando as pombas como se fosse a primeira vez. Estranhando o mundo como se fosse a primeira [...]
02.02.10 em: Terça