Segunda a Sexta

  • "Quando ela mente/ Não sei se ela deveras sente/

    O que mente para mim"

    Chico Buarque, em 'Ela faz cinema'

    Tema da Semana: CINEMA

 

postPaisagem…

Gazza

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 Quando havia o nada
 A nostalgia tomou conta de mim

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22.10.09 em: Sexta

postTempo de pensar

Raquel C. de Medeiros

Todos os amores dele haviam escolhido outro. E essas mulheres amaram mais a ele, que as tirava do tempo, o tempo dos ponteiros. Quando estavam com ele, ah, quando estavam com ele, o tempo era outro, paralelo aos segundos, um tempo a parte, como se não existisse tempo. Porque tudo parecia mais lento, ou mais rápido, e tão eterno! Como se cada momento fosse uma vida inteira. Cada momento.

Ele fora o homem que apagava o passado das moças. Estar com ele era tão bom e tão forte que todas as outras lembranças de felicidade e de tristeza perdiam as cores e iam sumindo, sumindo, até perderem a profundidade. Então as moças deixavam de sentir o passado e só sentiam a ele.

O que esse moço tinha de especial? Não-se-explica. Era um dom, um talento para amar e construir o tempo do amor. Uma vocação que fazia as moças voarem.

O problema é que quando sentia que elas haviam aprendido a voar e que haviam se tornado sublimes como ele, o moço sentia medo. E o medo desestruturava o mundo perfeito que ele esboçara. O tempo então voltava a se manifestar mais forte, assustador. E as moças, acostumadas ao sonho, à leveza da falta de tempo, voavam para longe dele, em busca dele.

O moço, agora já-quase-homem-de-meia-idade, não entendia por que elas haviam escolhido outros. Todas elas. O que ele não sabia é que elas ainda pensavam nele. Mas pensavam naquele que outrora sugeria arrepios eternos, lealdade, um céu aberto, e não esse que se congelara no medo de não-conseguir-ser-brilhante-para-sempre. No fim de tudo, as moças não o encontraram nos outros. O tempo nunca mais havia parado, ah, tudo tão rápido! Ele também não mais encontrava seu vigor. E o passado de todos era tão colorido que quase apagava o presen…

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22.10.09 em: Quinta

postConvite

Aline Leal

Convidou-me para fumar um cigarro. Um de seus cigarros, há tempos parei de fumar e só venho filando. Eventualmente, quando vou beber e já estourei minha cota entre os fumantes do grupo, compro um Malrboro Light. Ofereço dos meus a todos, sem nenhum egoísmo, de verdade. A fim de pagamento, e para não voltar com cigarros na bolsa e fumar sozinha depois.

Os fumantes ocasionais aumentaram desde que compramos a cafeteira para a copa. É sempre uma boa desculpa para sair do ambiente frio e amarelado da sala. Tomar um cafezinho fumando um cigarrinho.

Ter dado um apertãozinho em sua barriga e um tapinha na lateral do seu quadril quando estava na minha frente, eu, sentada, ele, de pé, com certeza estimulou-o a fazer o convite do cigarro. Não acho que tenha pensado que eu estava dando mole, só gostou de eu o ter tocado.

Ele, como homem, não desperta o mínimo do meu interesse. Apesar de gostar de seu humor, de sua conversa e de ele ser um rapaz bem entendido em informática e tecnologia, um nerd virtual, o que é muito interessante para os tempos de hoje. O conjunto, simplesmente, não me atrai.

É certo que é por sua aparência. Outro dia, um cara entrou na sala perguntando pelo Paulo, eu disse que era um menino magrelo e feioso que ele encontraria fumando um cigarro no corredor. O Paulo fuma. Muito, tanto que tem os dentes e unhas amareladas e fede a fumaça mofada. Toma muito café e treme demais. Não acho que vá viver para usufruir do dinheiro que pode ganhar com a informática.

Fumamos o cigarro, Paulo e eu no corredor. Nada demais, nenhum assunto novo que nos interessasse. Talvez ele esteja arrependido por ter perdido um cigarro para mim, está duro de grana, me contou.

Sento na cadeira e entro na máquina. Login: jéssica. Senha: tonaglobo. Na internet, começo a navegar por sites tão desinteressantes quanto a minha vida, faço eu essa analogia mental enquanto vou descendo em uma postura cômoda que prejudica a minha coluna. Alberto chega ao meu lado. Funcionário público é foda, nunca há muito que fazer, a gente sempre pode apresentar um trabalho porco e esticar os prazos, acaba nos restando muito tempo ocioso. Diz que quer falar comigo lá fora, porque não tá afim que a sala inteira ouça.

Vamos ao corredor e, na sala ao lado, a mulher que apelidamos de Arlindenor está falando merda no telefone. Temos a teoria de que a sala onde trabalha ficou fechada por tempo demais na gestão anterior, e o cheiro forte de mofo acabou afetando suas faculdades mentais. Fala, ou melhor, grita para a pessoa do outro lado da linha que não a trataria assim se soubesse que, no planeta de onde veio, as mulheres têm três bucetas. Interessante, concordamos eu e Alberto.

O motivo de ter me chamado para fora da sala era convidar-me à sua casa depois do expediente. Já tinha falado com a Joyce e ainda restava o Paulo e o Rossi, uma coisa pequena para se fazer numa quarta-feira à noite. Vou, disse, ao que me contou que faria pimentões recheados de ricota temperada, e eu fiz cara de estômago feliz.

  

Porra, eu falei para o Paulo quando ele deixou derramar o copo de vinho no meu colo. Não sou de grosserias e até dei um sorrisinho meio de lado para desculpar-me por ter estourado, mas a minha calça jeans estava molhada e eu estava puta. Fui ao banheiro jogar um pouco de água para não ficar toda melada. Me sentia um pouco mal, tínhamos tomado muito vinho e metido o sarrafo no pessoal sonso do trabalho. Ter levantado rápido depois de comer os pimentões recheados de ricota temperada fez a minha pressão baixar e eu enxergava tudo escuro.

Sentei-me no vaso com a cabeça pra baixo, tentando fazer com que oxigênio subisse à minha cabeça. De repente, vejo um vulto na minha frente, era a porra do magriça feioso; saco. Tudo bem? Perguntou Paulo. Tudo, respondi sem nenhum sinal de revolta, apesar do meu mau-humor interno. Só me sinto um pouco fraca, ao que o magricelo colocou a mão na minha cabeça como que fazendo um cafuné. Apesar de não ser adepta a carinhos físicos e raramente tratar os meus verdadeiros amigos com toques e abraços, teria sido bom se fosse cafuné o gesto do vareta.

O corno empurrou a minha cabeça pra baixo com uma força surpreendente para aqueles braçinhos minguados e foi me arrastando para a sala, de onde vinha um som que Rossi tocava no violão, um rockzinho chulé da sua banda alternativa.

Arranhava a minha boca deslizando pelo carpete sujo da casa do Alberto. Qual a minha surpresa quando chego à sala e me deparo com o que havia se tornado a reunião dos funcionários públicos do patrimônio histórico do Tribunal de Contas da União: um culto, no mínimo, diabólico, e meus colegas de trabalho, no mínimo, exóticos e de cabelos exaltados.

Joyce, que nunca foi nenhuma santinha e gostávamos dela justamente por seus comentários distintos e liberais, estava uma verdadeira devassa. Com seus cabelos louros, cacheados, rebeldes e despenteados, estava deitada na mesa da sala, nua, apenas com a canoinha de um pimentão cobrindo a sua parte pubiana e lambuzada de ricota temperada. O maior espanto da noite ainda estava por vir quando Joyce tira a canoinha e, benza deus misericórdia, exibe exatas três bucetinhas. Perfeito para os três homens dessa casa, pensei, pela primeira vez estava feliz que não ia sobrar nada pra mim.

Quando se recobrou da visão fantástica, o magüinits se voltou contra mim com toda a agressividade que havia desenvolvido e empurrou minha cabeça para o chão como se realmente tivesse raiva da minha raça. Alberto serviu uma fina taça de líquido verde, diferente daqueles copos de requeijão em que tomamos vinho. Veio em minha direção.

Rossi, impassível ao espetáculo, tocava sua música tosca, é claro que tinha um papel naquilo tudo. E, apertando minha garganta com uma mão, e esmagando os meus lábios com a outra, Paulo preparava para Alberto o recipiente para despejar o líquido verde: minha garganta! Ferrou, pensei: reuniãozinha de funcionários públicos uma ova!

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21.10.09 em: Quarta

postApelo pelo Rio

Tiana Maciel Ellwanger

Quero ter cabelo verde.
Botar o fone, sair por aí.
Ficar invisível, sem carimbos.
Ir sem hora pra decidir.

Deixarei as plantas secas
O gato, com a vizinha
Comida, na geladeira
Não ouvirei mais campainha

Pelo mundo vou andar
A hora é mesmo de partir
Em Passargada, vou caminhar
Brisa fresca quero sentir.

Adolescente, deixa disso.
O problema é teu também
Teu futuro está em jogo
Ou serás mais um refém?

Fica, muda, briga e chora
Não vem com essa de fugir
Se não cuidar de onde mora,
Nossa cidade vai ruir
E aí, vamos agir?

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20.10.09 em: Terça

postO carrinho

Luciene Braga

Tudo o que dizia era o contrário. Ao filho, ao marido, ao chefe. Especialmente, quando dizia “não”. O sim era questão de (pouco) tempo.
Saía pelas ruas apressada, tentando dar conta dos desejos de todos. Naquele dia, em especial, procurava o sapato perfeito para o marido, que tinha um jantar importante naquela semana. O dela apertava, e rodar pela cidade era tarefa de atleta em fim de maratona. Mas ela resistia. “Não é nada”, dizia, enquanto virava o peito do pé na calçada irregular. Carregava a pasta pesada, com livros que deveria ler, incansável, e virar a noite, para montar o projeto que, segundo o superior direto, tiraria a firma do fundo do poço. O filho pediu sorvete. Choco Chips. “Mais tarde. Esse sabor só tem do outro lado do centro”, ela dizia mentalmente, enquanto ouvia o celular tocar insistentemente. Era a mãe. “Cacete, esqueci que ia levá-la ao médico”, lembrou. Não viu um carrinho vermelho que cruzou o seu caminho e acabou atropelada pela geringonça de controle remoto. Tudo o que carregava se espalhou pela rua, e ela, entregue, também se espatifou com vontade. Pernas para cima, sapato voando e uma velhinha tropeçante assustada, que caiu no colo do pipoqueiro que aceitava cartão de crédito.
Pensou em chorar, mas em vez disso soltou uma gargalhada sonora. Ria, sem se preocupar com as bolsas, com os cartões de crédito ou o com o maldito celular smartphone. Sentou-se, desajeitada, e deu de pisar nas coisas. Pisou e brincou de amassadora de uvas. De pé.
O celular foi o primeiro.

Ninguém ousou se meter. Ela estava linda brincando de desfazer.

Em vez de ir para casa, foi ao cinema. Escolheu o filme e a cadeira.
Saiu de lá, entrou em uma lan house e acessou algumas pessoas da antiga. O tempo corria, e ela seguia.
Seu coração palpitou, e ela sorriu enrubescida, tomada de vergonha dela mesma. As duas se encontraram: ela e o que era.
Bendito carrinho vermelho, operado por um moleque brincalhão, às 15h, em pleno centro da cidade.
Já eram 6h e ela não tinha sono.

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19.10.09 em: Segunda