Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postBeijo e cachaça…

Gazza

Da luz dos olhos seus
Das histórias de nós dois
Dos amores partidos
Das ruas da minha infância
Dos passeios de pijama
Do doce presente em cima da mesa
Do amanhecer no subúrbio
Do passeas de nossas mãos
Do beijo desejado
Do sabor da cachaça
E, de tudo, da imensa saudade que ficou….

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24.07.09 em: Sexta

postDançando no escuro

Raquel C. de Medeiros

 

beijo-blogQuando ele a viu ficou enlouquecido: parecia uma pin-up na pista de dança. Os cabelos curtos negros, a pele alva, o corpo longilíneo, o pescoço, ah, o pescoço. Linda de torcer as vísceras de qualquer homem, qualquer um. Ela dançava com os olhos meio fechados, mas vez-em-quando os abria e sorria, para ele?, sonhava. Usava uma sainha preta, tecido fino, que rodava e encantava todos os babões que estavam ali, ele percebeu. O sorriso meio sapeca meio sexy o alcançava para confidenciar que ela devia ser a mulher mais incrível com quem já cruzara. Por um segundo imaginou mil coisas felizes que viveria com ela e ficou quase sem fôlego quando começou a confirmar o que suspeitava: a moça olhava para ele. Aproximou-se devagar, com um pouco de receio, e de repente viu-se segurando aquela cinturinha idêntica as das princesas de desenho a animado. Primeiro beijou-lhe o pescocinho, o mais inspirador que já tinha visto. Disse-lhe ao pé do ouvido que a beijaria pelo resto dos seus dias e acordou no dia seguinte com a deusa nua esparramada em sua cama. Então, de repente, descobriu-se um pouco enjoado: o perfume da moça era doce demais. Também lhe incomodou a sensação de ver tantos fios de cabelo espalhados pela sua cama. Olhou para ela e notou que a maquiagem dos seus olhos, que estavam meio borrados, tiravam-lhe toda a ingenuidade: a moça agora parecia bem mais velha do que na noite anterior. Sua nuca continuava a provocar seus instintos mais selvagens, mas o desejo agora era desprovido de qualquer ternura. Então fez, mais uma vez, o que lhe cabia: arrancou-lhe mais cabelos, deixou escapar um ‘vadia’. Mas logo que aquilo terminou teve vontade de expulsar aquela musinha de sua cama, de sua casa, enquanto ela o abraçava e cobrava-lhe o prometido: você não disse que me beijaria pelo resto dos dias? Fechou os olhos e fingiu que estava com muito sono para não ter que responder. Ele só pensava em sua namorada, sua doce namorada e, com fé, pensava: vá embora, por favor, vá embora. Quando a moça finalmente entendeu que deveria partir, já não se agüentava de tanta saudade de sua amada. Ela tornara-se, novamente, a rainha de seu país e ele, um romântico incurável. Precisou de uns dias para sentir-se purificado e quando a encontrou pediu-lhe perdão com o olhar, com um abraço apertado e, ufa, correspondido. Te amo tanto, gritou para dentro e teve certeza que o coração dela ouviu. O beijo culpado tinha sabor de travessia. E, com fé, ele alcançaria a pureza dos olhos da amada, seu céu particular.

 

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23.07.09 em: Quinta

postBeijo

Aline Leal

Confessou, depois de muitos meses, que havia se apaixonado por ele naquele segundo encontro no bar do mercadinho, quando conversaram por um bom tempo sem se tocar, ainda desconfiados e cerimoniosos, e ele então se aproximou e ela aceitou o beijo que se mostrou tão confortável e excitante que queria dizer que estariam juntos por um tempo.

Confessou abraçando o seu pescoço enquanto estavam deitados na cama, já era noite e ele desistira de um programa com os amigos para ficar com ela, não resistira ao apelo de dormir ao seu lado, o que a impulsionou a declarar-se pela primeira vez de forma mais explícita, esperando que ele também estivesse sentindo e pudesse dizê-lo.

 Olhou para ele no escuro do quarto e estava sorrindo como quem tivesse gostado das palavras e estivesse sem graça e, como se procurasse mudar de assunto, ele abraçou-a e girou-a na cama, então ela mais uma vez olhou para ele que fizera cara de sério, ela não se abalou com a introspecção, mas pode ser que tivesse desenvolvido melhor o sentimento se tivesse sido retribuída em palavras.

Ela decidiu que queria falar de coisas sérias, que queria parar, pensar e falar, ou então falar sem pensar e ver a reação dele, não queria recitar o texto que escreveria com a habilidade de interagir socialmente: puxar assunto, comentá-lo, talvez porque quisesse compartilhar com ele as suas angústias, talvez porque achasse que ele podia sentir o mesmo. Porque queria uma resposta afirmativa enquanto expunha as suas dúvidas.

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22.07.09 em: Quarta

postÚltimo Beijo

Tiana Maciel Ellwanger

Falava alto tentando demonstrar raiva, mas sua boca me chamava para a paz. Mirava seus olhos, mas eles seguiam para os lábios, pescoço, vontade de arrancar sua camisa, de parar de falar.

“Flores não saram”, eu dizia, chorando, mas com vontade de ser sua como há meses não queria. Por Deus, que sentimento era esse? Vem aqui, me abraça, pensava enquanto pedia para você ficar longe, pra sempre! 

“Perdão? Não depois disso”, eu dizia para me convencer. E lembrava do beijo, do seu, do nosso e também do que deu nela, do que eu não vi, mas virou memória. E ficava com mais vontade de te devorar ao pensar no toque, nas peles de vocês em contato, melhor do que o nosso?

“Ela é melhor? Hein, fala”, eu gritava sem querer sua voz. Entende de uma vez que só quero seu desejo, como antes. Afoito, impaciente, a me consumir. Imagens me enlouqueciam, corpos, você.

“Isso não é amor”, desviei o olhar para não te puxar contra meu corpo e me perder. Mas seu cheiro molhado continuava a me perseguir, mais perto. “Não encosta”, gritei longo.  O seu perfume ficou mais longe, mas sentia, de olhos fechados, sua respiração na minha nuca, pelas costas, descer.

“Vem, me beija”, disse pra me entregar. Você me tocou com suas mucosas confusas, as mesmas que tocaram nela. Arranhei suas costas, puxei seu quadril, tapei sua boca quando quis falar. Ela, vocês, perturbavam minha mente, fizeram isso a noite toda enquanto me beijavam.

“Não, não volto”, disse, de manhã, certa de que não teria outro amor (e ciúme) em breve. Mas traição, uma vez descoberta, acaba com a paixão. Ou não? Te odiava para não te desejar, pra tentar esquecer o último beijo, da última noite, em que ela esteve presente na minha fantasia. Foi incrível e eu ainda não sei explicar o porquê.

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21.07.09 em: Terça

postDia de sorte

Luciene Braga

Bateram sua carteira, e o celular estava quase sem bateria. Mas ficou tão puto que resolveu ignorar a sorte e seguir em frente. Era sexta-feira, afinal. Teve que andar a pé até a casa de Júlia. Viu que a luz estava acesa e tocou a campainha. Ninguém atendeu. Entrou, sobressaltado, e recusou-se a ver mais do que estava claro, pelo rastro de roupas, sapatos e pizza. “Pizza?!! Caralho, comigo isso nunca aconteceu”, foi o que conseguiu pensar por último. Deixou no sofá o livro que ela havia emprestado e saiu batido. Para casa, um tom acima de apressado. No fundo, até queria isso. Há muito tempo não sentia mais que ela poderia ser a mãe de outros filhos seus. Pegou o ônibus e viu um outdoor que falava de um certo show na Casa de Shows Zona Sul. Nome esquisito o da banda para aquele dia, mas algo dentro dizia para ir. Sem dinheiro, sem cartão e sem celular, pensaria em alguma coisa até chegar lá. Avenida Brasil, Perimetral… “Urca, Praia Vermelha!”, cantou, na cabeça. Pelo menos o Rio Card ficou no bolso. Aí foi. Dormiu no trajeto, tentando imaginar o que seria o tal grupo. Chegou, enfim, e propôs à moça do guichê um acordo: deixaria com ela o celular, em troca da entrada. Ela, de cara, recusou. Escambo não era lá muito praticado por ali. Ele contou, então, tudo o que lhe acontecera nas últimas três horas. Ela olhou, espantada, e pediu que esperasse. Moça decidida. Voltou com um ingresso, desses de mesa vip, mas no fundo. Ele agradeceu, beijando o alto das mãos dela. Disse que nunca esqueceria. Ela sorriu, satisfeita. E liberou o celular, mas ele resolveu deixar mesmo assim. O show foi mágico. Parecia que todas as músicas tinham sido cuidadosamente selecionadas para aquele seu dia atípico e desonesto. Cantou, levantou os braços e nem reparou o quanto era observado. Sozinho, ele se divertiu como poucas vezes na vida. E serviram champagne, salgadinhos fritos na hora. Tudo por conta da mocinha da entrada. “Que garota”, pensava. Chegou a se empolgar com uma das garçonetes de saia justa e gravatinha. Ela ajudou. Rebolava. Com tantos estímulos, quando viu, estava no palco, cantando ao lado do vocalista, que sorria para ele. Feliz, tascou-lhe um beijo na boca. O cantor não recuou, pelo menos naquela hora. Caíram os microfones e os queixos. Sussurou em seu ouvido que Célia havia falado dele e que sabia que se encontrariam. Não era mais dia de se espantar com homens e mulheres, e ele desceu do palco suado, ovacionado e fotografado, com um telefone escrito na nuca. Nunca viu isso. Artista tem cada uma…

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20.07.09 em: Segunda