Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postTodo tempo…

Gazza

Esses olhos tão pesados
Esse coração desacelarado
Essas mãos enrugadas
Essa cara enferrujada
Esse corpo aos pedaços
Essa alma tão embaçada
Essa boca seca
Essas pernas já delicadas
Esses ombros arcados
Em todo caso
Vida

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09.10.09 em: Sexta

postPonteiros modernos

Raquel C. de Medeiros

 

Cansada do tempo

Que me ultrapassa

E que me falta

 

Cansada de ser prosadora

Sem manhãs férteis

 

Cansada das histórias que escrevo

Na memória cambaleante

Dos segundos que as levam

 

Cansada das noites tomadas pela preguiça

 

Das horas que deveriam nascer

Para deleite dos meus solos

Úmidos

 

Cansada de ser vagarosa nesse mundo

De sapatos altos e apressados

Extenuada pelas demandas virtuais

Pelas ventanias de notícias que machucam meus olhos

E abortam tanta poesia

 

Cansada de não escrever

Cada página dos 184 dias com você

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08.10.09 em: Quinta

postAlbatroz

Aline Leal

“Escrevo porque não me considero um homem feliz, um homem feliz não pode produzir arte. O homem com mulher em dia, assunto para dividir com os amigos numa mesa de bar, com dinheiro para comprar sapato novo, uma boa relação com a família não tem porque remoer angústia.  A literatura é a arte que pressupõe, necessariamente, uma insegurança em relação à vida. Quando está feliz, quando não tem angústias, o homem vive. Mas um dia a felicidade, que nunca se disse longeva, acaba e esse mesmo homem se proclama, orgulhoso, um escritor. Volta, solitário, para seu mundo particular e ingrato.”

              Tomou o último gole da sua taça de vinho branco e acompanhou os outros que aplaudiam o escritor ao final da palestra. Se a lei permitisse, estaria com um cigarro entre os dedos e teria de repousá-lo no cinzeiro para realizar a ação que agora ocupava as mãos enquanto o pensamento se perdia numa solitária obsessão: Suzanna.

            Joyce veio recebê-lo na porta como se sentisse saudade. Ele atirou o molho de chaves em cima da cômoda e, obediente, completou a tigela de ração e a de água para a gatinha que se enroscava em meio a suas canelas. Acariciou-lhe o pelo e desejou torcer-lhe o pescoço para eliminar o modelo de independência e segurança. Joyce era um bichano desprezível sem a presença de Suzanna, que catou-a no Campo de Santana e a trouxe para o apartamento filhote sob intuito provocador e travesso de atiçar-me a reprovação. 

            Mantendo esta posição, tranquei-me no escritório naquele dia e concentrei-me nos textos que tinha de escrever para alcançar aquilo que eu afirmava repetidas vezes para mim mesmo que desejava — um reconhecimento enquanto escritor. Desinteressando-me do mundo para construir um mundo. A vida que esperasse.

            Deito-me no sofá, cansado, e Joyce vem acomodar-se no meu colo, sua presença causa-me repulsa agora, como se ela fosse a dona do apartamento: a patroa a ostentar seu bem-estar ao criado, à minha degradação.

            Se Suzanna incitava-me à vida, atrapalhava-me os planos e eu sabotei-a por uma atitude mesquinha, por que agora que eu me encontrava realmente só, não recolhia matéria para melancolia que eu buscava então? Sento-me em frente ao laptop com a calça de brim preta salpicada de pelo de gato. Digito o nome dela no Google:

 Suzanna Albatroz, 37, morreu na tarde de ontem ao salvar sua gata de estimação de um atropelamento, segundo testemunhas, na pacata Conde de Papiro, em São Cristóvão, Zona Norte do Rio. O carro não parou para socorrer a vítima, que morreu antes de chegar ao hospital. A polícia não tem qualquer informação sobre o veículo envolvido

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07.10.09 em: Quarta

postRaiva

Tiana Maciel Ellwanger

Quando a raiva chega

repentina, arrebenta

Doi no peito, lágrimas

de fúria, vontade de acabar

com quem está perto, com ele

 

Faço planos, nunca mais

Nunca mais. Vou embora,

vai você, some, morre, chega

Para de falar, não quero ouvir

Silêncio, por favor.

 

Quero fugir.

Deitar e dormir

Acordar amanhã

Com o peito sem dor

Sem mágoas, calor

 

Durmo bem, quem diria

Acordo melhor, olho inchado,

Sem ódio, vontade de abraço

A raiva se foi, ficou o cansaço.

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06.10.09 em: Terça

postOmbro

Luciene Braga

Mesmo cansada de chorar, ela sabia que precisava mais.
Não havia lugar melhor para ir ao extremo que o chuveiro.
Água quente caía sobre ela, derramada em abraços. Abria a boca e chorava. Quanto menos forças para parar, mais ia parando.
Maluca de manias, acendeu três incensos, que se misturavam ao vapor e a transportavam para uma alucinação de ritual que recobrou suas células.
Pensou mil cenas, teceu erros, fechou os olhos e enfim, olhou para o alto. Antes, a cabeça pesava.
Chorou, chorou, inchou os olhos. Olhou-se no espelho e achou os olhos sofridos bonitos. Fez uma foto mental para perder.
Saiu enrolada na toalha, pés e cabelos aquecidos, preparou uma taça de vinho e bebeu lentamente, brincando de admirar o conteúdo.
Sentada sobre o sofá, não sentia mais o cansaço das coisas todas.
Não era bem esperança. Era uma sensação de fotógrafo.
Recostou-se sobre um ombro imaginário e esperou o dia seguinte chegar.

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05.10.09 em: Segunda