Gazza
Esses olhos tão pesados
Esse coração desacelarado
Essas mãos enrugadas
Essa cara enferrujada
Esse corpo aos pedaços
Essa alma tão embaçada
Essa boca seca
Essas pernas já delicadas
Esses ombros arcados
Em todo caso
Vida
09.10.09 em: Sexta
Raquel C. de Medeiros
Cansada do tempo
Que me ultrapassa
E que me falta
Cansada de ser prosadora
Sem manhãs férteis
Cansada das histórias que escrevo
Na memória cambaleante
Dos segundos que as levam
Cansada das noites tomadas pela preguiça
Das horas que deveriam nascer
Para deleite dos meus solos
Úmidos
Cansada de ser vagarosa nesse mundo
De sapatos altos e apressados
Extenuada pelas demandas virtuais
Pelas ventanias de notícias que machucam meus olhos
E abortam tanta poesia
Cansada de não escrever
Cada página dos 184 dias com você
08.10.09 em: Quinta
Aline Leal
“Escrevo porque não me considero um homem feliz, um homem feliz não pode produzir arte. O homem com mulher em dia, assunto para dividir com os amigos numa mesa de bar, com dinheiro para comprar sapato novo, uma boa relação com a família não tem porque remoer angústia. A literatura é a arte que pressupõe, necessariamente, uma insegurança em relação à vida. Quando está feliz, quando não tem angústias, o homem vive. Mas um dia a felicidade, que nunca se disse longeva, acaba e esse mesmo homem se proclama, orgulhoso, um escritor. Volta, solitário, para seu mundo particular e ingrato.”
Tomou o último gole da sua taça de vinho branco e acompanhou os outros que aplaudiam o escritor ao final da palestra. Se a lei permitisse, estaria com um cigarro entre os dedos e teria de repousá-lo no cinzeiro para realizar a ação que agora ocupava as mãos enquanto o pensamento se perdia numa solitária obsessão: Suzanna.
Joyce veio recebê-lo na porta como se sentisse saudade. Ele atirou o molho de chaves em cima da cômoda e, obediente, completou a tigela de ração e a de água para a gatinha que se enroscava em meio a suas canelas. Acariciou-lhe o pelo e desejou torcer-lhe o pescoço para eliminar o modelo de independência e segurança. Joyce era um bichano desprezível sem a presença de Suzanna, que catou-a no Campo de Santana e a trouxe para o apartamento filhote sob intuito provocador e travesso de atiçar-me a reprovação.
Mantendo esta posição, tranquei-me no escritório naquele dia e concentrei-me nos textos que tinha de escrever para alcançar aquilo que eu afirmava repetidas vezes para mim mesmo que desejava — um reconhecimento enquanto escritor. Desinteressando-me do mundo para construir um mundo. A vida que esperasse.
Deito-me no sofá, cansado, e Joyce vem acomodar-se no meu colo, sua presença causa-me repulsa agora, como se ela fosse a dona do apartamento: a patroa a ostentar seu bem-estar ao criado, à minha degradação.
Se Suzanna incitava-me à vida, atrapalhava-me os planos e eu sabotei-a por uma atitude mesquinha, por que agora que eu me encontrava realmente só, não recolhia matéria para melancolia que eu buscava então? Sento-me em frente ao laptop com a calça de brim preta salpicada de pelo de gato. Digito o nome dela no Google:
Suzanna Albatroz, 37, morreu na tarde de ontem ao salvar sua gata de estimação de um atropelamento, segundo testemunhas, na pacata Conde de Papiro, em São Cristóvão, Zona Norte do Rio. O carro não parou para socorrer a vítima, que morreu antes de chegar ao hospital. A polícia não tem qualquer informação sobre o veículo envolvido
07.10.09 em: Quarta
Tiana Maciel Ellwanger
Quando a raiva chega
repentina, arrebenta
Doi no peito, lágrimas
de fúria, vontade de acabar
com quem está perto, com ele
Faço planos, nunca mais
Nunca mais. Vou embora,
vai você, some, morre, chega
Para de falar, não quero ouvir
Silêncio, por favor.
Quero fugir.
Deitar e dormir
Acordar amanhã
Com o peito sem dor
Sem mágoas, calor
Durmo bem, quem diria
Acordo melhor, olho inchado,
Sem ódio, vontade de abraço
A raiva se foi, ficou o cansaço.
06.10.09 em: Terça
Luciene Braga
Mesmo cansada de chorar, ela sabia que precisava mais.
Não havia lugar melhor para ir ao extremo que o chuveiro.
Água quente caía sobre ela, derramada em abraços. Abria a boca e chorava. Quanto menos forças para parar, mais ia parando.
Maluca de manias, acendeu três incensos, que se misturavam ao vapor e a transportavam para uma alucinação de ritual que recobrou suas células.
Pensou mil cenas, teceu erros, fechou os olhos e enfim, olhou para o alto. Antes, a cabeça pesava.
Chorou, chorou, inchou os olhos. Olhou-se no espelho e achou os olhos sofridos bonitos. Fez uma foto mental para perder.
Saiu enrolada na toalha, pés e cabelos aquecidos, preparou uma taça de vinho e bebeu lentamente, brincando de admirar o conteúdo.
Sentada sobre o sofá, não sentia mais o cansaço das coisas todas.
Não era bem esperança. Era uma sensação de fotógrafo.
Recostou-se sobre um ombro imaginário e esperou o dia seguinte chegar.
05.10.09 em: Segunda