Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postAzul e branco…

Gazza

Palavras azuis
Sobre esse imenso e vasto branco
Um território livre
Sentimentos francos
Amores partidos
Desabafos profundos
De queridas passadas
Dores vividas
Em cada traço da tinta azul
Percorre-se uma vida
Pinga a alma a clara lágrima
Enxágua essa pele alva
Tormentas, sussurros
Chegadas e partidas
 Dias, dias e dias
Madrugadas vivas
Viagens infinitas
Eu, metade aqui
A esperar
Minha outra metade chegar

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25.12.09 em: Sexta

postDoux géant,

Raquel C. de Medeiros

 

Anais Nin

Outro dia, dirigindo, tomando vento no rosto, ouvi uma música que me trouxe você. E essa lembrança desencadeou outras lembranças, de acontecimentos importantes da minha vida que tiveram, indiretamente, a sua participação. Acontecimentos que não teriam ocorrido ou eu não teria deixado acontecer se eu não tivesse te conhecido. Então, de repente, me dei conta que talvez você não soubesse o quanto foi importante para mim. E pensar que saber disso talvez lhe fizesse muito feliz me deixou ansiosa.

Então, D. G, cheguei em casa e corri para lhe escrever essa carta. Eu me expresso melhor escrevendo, você sabe disso. Todos deveriam ter a consciência do quanto é importante e generoso dar o crédito a quem merece. A gente precisa deixar de ser egoísta e reconhecer o outro. Se você também se lembrar de alguém que tenha sido importante para você e que talvez não saiba a proporção disso, faça o mesmo: escreva para ela. Quem sabe a gente inicia a corrente do agradecimento nesse fim de ano? Não seria bacana?

D.G, você foi a primeira pessoa em quem encontrei tudo o que eu queria gostar e não tinha companhia. Antes de te conhecer, eu era tão sozinha nas minhas vontades que acabava as deixando de lado. Então, sem querer, você me legitimou como pessoa, como mulher. Senti-me tão feliz que você existia que me apaixonei da forma mais romântica possível, mesmo sabendo que isso não combinava com você.

A sua companhia me deu auto-estima para ser do jeito que sempre quis, mesmo que fosse diferente de todos que me rodeavam. Você me descobriu como escritora, me presenteou com os elogios que eu precisava para desenvolver o meu dom. Por causa de você li Rubem Fonseca, Jung, Nelson Rodrigues, Henry Miller, Anais Nin e me permiti ser influenciada por todos. Reneguei meu romantismo para viver nossa história de amor e transgredi em vários sentidos, ah, como transgredi. Adentrei em desejos secretos, sujei poemas e prosas, aprendi a suspender jardins, vivi como as suas personagens favoritas, só para te impressionar.

Tosei o cabelo, dancei rock n’ roll nua na sua sala, fumei cigarrilhas e bebi coca-cola light para te fazer companhia. Fingi não ligar para coisas que eu gostava e, depois da euforia inicial, sofri até adoecer.

Eu só amei e fui amada pelos amores seguintes porque tinha te amado. Isso porque te amar marcou profundamente a minha personalidade. Depois desconstruí tudo aquilo, adocei os sentimentos, revi meus então novos conceitos e encontrei um equilíbrio sadio entre o que eu era antes de te conhecer e o que me tornei depois. Mas passar por tudo aquilo foi tão importante como nascer. Então, D.G, apesar da distância, aquele tempo ainda se faz presente na minha vida hoje e fará sempre. Porque a força daquilo que nos transforma é indissolúvel, eterna.

Com amor,

Da eterna funny valentine

PS: A música que eu ouvia no carro era ‘Water of Love’.

Ainda sinto o seu cheiro por aí e não deixo de curvar o pescoço.

 

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24.12.09 em: Quinta

postCara,

Aline Leal

Nunca ninguém me perguntou o motivo de eu escrever. Mas, se perguntassem, responderia (sendo imprecisa) que é para soletrar o indizível dentro de mim. Ora, não faço análise através da escrita, tampouco me curo através dela e, ainda que eu me exprima por seu meio, não posso dizer que ela me exprima. Acho que talvez daria outra resposta, uma mais terrena: porque tenho vontade, porque acho bonito, porque não faço bom uso das palavras quando estas saem pela boca. Mas, serão mais puras quando escritas? Do mesmo modo minto, do mesmo modo me complico e sou hipócrita quando uso a palavra escrita, com um porém: perco a espontaneidade. Mas, da mesma forma, escrevo na mente a palavra falada, demorando-me no caminho entre a mente e a boca.  Muito se especula sobre o personagem do autor na obra de ficção. Ora, eu sou todos os meus personagens. Sua tristeza e sua alegria; sua loucura e sensatez; seu mau-humor e empenho. E, assim como a transpiração poliu alguns de meus textos, a inspiração abriu o caminho para o meu inconsciente mais interessante. Agradeço à palavra escrita e peço perdão por minha displicência e mau uso, com desejo de empenhar-me mais nos caminhos que ela já me mostrou. Agora, toda culpa e mérito é meu.

Um feliz ano-novo,

Raul

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23.12.09 em: Quarta

postA nova casa de Papai Noel

Tiana Maciel Ellwanger

Querido Papai Noel, 

Sei que este ano deve ser um dos últimos que poderei te escrever se você não aceitar o que quero te dar. Minha vó disse que o gelo do mundo vai derreter e, assim, você vai ficar sem casa. Por isso, eu já falei com a minha vó: você pode morar na nossa casa. Você já me deu tantos presentes, peço que aceite esse. Minha casa é pequena, mas é uma das melhores da favela. Os meninos do colégio vão querer me visitar sempre. Mas se você só quiser aparecer no Natal, tem também o quarto do irmão do meu amigo que morreu, lembra que te contei? Ninguém vai lá há muito tempo. Levo comida pra você todo dia, prometo. Também levo chocolate e pudim. Minha vó falou que você gosta. Ah! E aqui não tem problema nenhum, mesmo se o mar subir, estamos tão alto, mas tão alto que não vai alcançar nossa casa.

Papai Noel, peço que saia desse Pólo Norte, antes que ele acabe e você fique boiando com frio por aí num iceberg perdido. E se as renas morrerem como vão morrer quase todos os animais? Não, Papai Noel, não quero ficar sem presentes, não quero meus amigos sem presentes. Não quero as crianças todas sem presentes. O mundo será triste sem você. Por isso, aceite o que quero te dar. Se sentir muito calor, nós podemos ir patinar no gelo no shopping, dizem que tem. Eu nunca fui. Podemos fazer uma casinha de Verão pra você lá, o que acha?

E se as renas morrerem mesmo, podemos pedir uma asa-delta emprestada para distribuirmos os presentes. Meu tio tem uma beeeem grande. Aqui, quase nada tem chaminé, mas tem bondinho, no Pão de Açúcar e aqui no morro também. É mais legal, né? Dá para jogar os presentes lá de cima. Você vai poder ver a Copa e as Olimpíadas, já pensou? Eu já vou estar grande, grande e vou sim estar batendo no Beto. Ele me deu um soco na cara e quebrou o dedo do My Love, meu amigo. Mas tirando isso, vou me comportar. Minha vó diz que eu tenho que aprender a me defender também.

Sei que essa não é uma carta como as outras que devem estar recebendo. Mas aceite meu presente, por favor.

Beijos,

Jonas

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

Oi Jonas,

Presente aceito. Você não imagina como foi a disputa por aqui para morar na sua casa. É que somos vários Papais Noéis, você não achou que era um só, né? Então, chego semana que vem. Pode falar com seu tio sobre a asa-delta e com sua avó. Ah! Não gosto de chocolate branco.

Um grande abraço e até breve,

Ho Ho Ho

Papai Noel

 

 

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22.12.09 em: Terça

postSe eu quiser falar com Deus

Luciene Braga

GorillaOnRock

Caro amigo Gil,
Eu estou tentanto falar com Deus, mas confesso que calar a voz não é o meu forte.
Você, que acolheu a porção mulher deve compreender bem. Também fala pelos cotovelos.
Apaguei a luz, folguei o nó de tudo, até da coleira do cachorro amarrado à porta do mercado. Ele me agradeceu com uma babada.
Segui meu caminho e seu conselho e comi o pão que o diabo amassou. Duro, viu?
Dei as costas, caminhei e encontrei uns centos rostos com caras de ao findar não dar em nada.
Fiz umas ligações, uns olhares diretos, curiosos, maldosos, perdidos, disfarçados e desumanos.
Eu, sim, eu me achei medonha.
Algo me fez parar na banca de jornal.
O jornaleiro falador até me fez uma bênção. Será que vale? Podecê.
O cachorro poodle da banca me cumprimentou como se falasse.
E eu, enfim, saquei.
Parada forçada, Gil.
Não era o que eu esperava encontrar. Sem banca.

Acataremos seu ato, com gandaia e com fé eu vou tentar outra canção.
Palco.
Subirei e renovarei a alma.
Kaya e aquele abraço!

(Escrever uma carta nos dias de hoje, com caneta e papel, parece até coisa de falar com Deus. Não se usa mais. A gente senta, tenta, vê que perdeu a intimidade com a coisa e fica incomodado, porque está cada vez mais difícil enviar e receber uma mensagem que não seja virtual. E a primeira virtualidade, Gil, era papo de Deus)

 

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21.12.09 em: Segunda