Segunda a Sexta

  • "Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando."

    Pablo Picasso

    Tema do Mês: textos inspiradores

 

postFome…

Gazza

Comida pela vida
Corroída pelas mãos
Sobre um prato fundo
Pra toda fome que há no mundo
Em suas mãos
Devoras meu coração
Esse mundo cão
Um dia, pão
Outro, não
Comida pela vida
Sua boca, meu tempero
Me abre os braços
Eu mereço
Corroída pelas mãos
Farinha fina
Essa minha sina
Você em minha vida

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04.09.09 em: Sexta

postPapel manteiga para desembrulhar nosso amor

Raquel C. de Medeiros

 

Amor carnal

Prometo uma onda quente e incessante nos nossos corpos, na nossa vida, se você se abrir e provar todas as receitas do meu livro favorito: ‘Papel Manteiga para embrulhar segredos’, aquelas que um dia sonhei em preparar para o meu amor. Vai ser assim: vendarei seus olhos e dar-te-ei a primeira garfada na boca, depois de um beijo. Brincaremos aos sábados, sempre ao anoitecer. A minha casa estará toda apagada, apenas as velas e os nossos olhares a iluminar esses encontros. O perfume de segredos te embriagará ainda mais do que a bebida, que será sempre harmonizada com a receita do dia (eu tendo sempre a escolher um vinho tinto, mas, por você, eu prometo variar). A música pode ficar por sua conta, assim eu abro o seu paladar e você, os meus ouvidos para esses sons que você tanto ama e que desconheço. E nosso amor será cozido nessa penumbra de temperos e sons e bebidas e fogo. Descobertas. Caminhos inesperados se abrirão, prometo-te, você vai surpreender-se com desejos inimagináveis. Ferventes. E vai sorrir, porque o mel do amor é permitir-se mudar para receber os ingredientes do outro: o meu manjericão, a sua noz moscada. A integração das almas, dos sonhos. Da carne. E então você vai se lambuzar da pimenta que escorre dos meus poros e beber tanta água quanto eu. As madrugadas encharcadas nos recitarão as receitas proibidas de todos os cantos do mundo. Logo você estará pedindo temperos que estranhava no mesmo tom de quando quer carinho. E acordaremos doces como suspiros, embrulhados com o papel manteiga dessa ficção que deseja ardentemente nos jogar em sua panela mais fumegante.

 

PS:Se esse calor literário te sufocar, vou chorar gotas de limão para sempre.

PEITO DE PATO COM VIOLETAS

Do livro ‘Papel Manteiga para embrulhar segredos’*

2 peitos de pato grandes

Violetas cristalizadas para salpicar

1 colher de chá de sementes de cominho

1 micro pitada de canela

Raspas da casca de um limão

Raspas da casca de uma laranja

Azeite para untar

Sal e pimenta-do-reino preta

Prepare o pato fazendo cortes diagonais na gordura, para que os temperos cheguem à carne. Combine os temperos, exceto as flores e esmague-os bem. Unte a parte da carne com um pingo de azeite e disponha os temperos sobre ela. Coloque os peitos em uma assadeira, com a parte da gordura para baixo, e leve para assar em fogo alto por cerca de 10 minutos, virando no meio do tempo. Se preferir, frite a carne em frigideira em fogo bem alto. A carne deverá ficar tostada por fora e crua no meio. Sirva o pato cortado em lindas e pequenas fatias transversais, todo salpicado com violetas cristalizadas.

Para cristalizar violetas, misture uma xícara de açúcar em ½ de água e ferva por dois minutinhos, criando uma calda. Deixe esfriar, banhe as flores na calda e salpique com açúcar. Seque e pronto. Tenha certeza de que suas violetas são comestíveis e limpe-as antes de cristalizá-las. Se não tiver boas violetas, use outras flores.

Lembrança da Virgínia

Use roupas claras enquanto faz esta receita. E sirva com o melhor vinho tinta da adega mesmo que o cliente não possa pagar por ele. Quem escolhe pato com violetas, merece.

Observação importante:‘Papel manteiga para embrulhar segredos’ é um livro ficcional de cartas culinárias de autoria de uma moça muito talentosa chamada Cristiane Lisboa. As receitas são de Tatiana Damberg.

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03.09.09 em: Quinta

postEstômago

Aline Leal

Fizeram uma aposta e, quem vencesse, deveria preparar um jantar para os dois. Montar o menu, comprar os ingredientes, pilotar o fogão, colocar a mesa e, depois de tudo, deixar a cozinha um brinco. E a condição era que a refeição fosse à luz de velas, os pratos, finamente servidos, que o maître escolhesse também a bebida mais adequada à degustação, que houvesse entrada, prato principal e sobremesa, ao fundo tocasse uma música que estimulasse os sabores, enfim, que todo o programa remetesse a romantismo. Ah, era importantíssimo surpreender.

Então, apresentaram suas restrições:

Juliana disse que por favor ele não viesse com a idéia de apresentar um cardápio japonês, peixe cru, frio, fedorento, todas aquelas coisas nojentas e gelatinosas: sushi, sashimi, urakami, temaki. Ele sabia muito bem que ela não curtia japonês, que não havia entrado nessa modinha de “fracassados”  e, embora Heitor tivesse hesitado torná-la sua namorada após ter tomado consciência disso, a recusa já era um fato consumado. Aliás, nada de carne crua (kibe cru, carpaccio)— já inventaram o fogo, a conta de gás está em dia, e você tem panelas suficientes para  o serviço.

Heitor, por sua vez, exigiu que Juliana não lançasse mão daquilo que chamava de “minhas especialidades”: macarrão (cortado) à primavera; fritada de queijo, abóbora, tomate e salsicha (nem tudo que é gostoso combina); miojo com todo o requeijão que resta na geladeira, ovos e bacon (dias inteiros de flatulência).  Não queria ser chato, mas esperava um jantar requintado, feito com amor, e não a gororoba sem classe que ela costumava comer. Chegava a achar que se dera mal na aposta, mesmo assim não aceitaria que Juliana encomendasse uma comida ou lhe pagasse um jantar: queria vê-la com a mão na massa.

Juliana refletiu sobre qual seria seu trunfo caso perdesse a aposta (o que achava pouco provável). Entrada: ovinho de codorna com molho rosê e tirinhas de frango à milanesa (para chafurdar no mesmo molho). Prato principal: arroz à grega, bife à milanesa, tutu de feijão, molho vinagrete e salada de batata. Sobremesa: brigadeiro com biscoito de maisena  e marshmallow. Para ajudar a descer a comida: sangria.

Heitor, após maquinar sobre o assunto, chegou ao seguinte cardápio: para começar mini-quiche de queijo brie com geléia de damasco. Como prato principal: risoto ao funghi, fricassê de camarão e purê de batata-baroa. Grand Finale: crème brûlée e galletitas de nozes. Para ser degustado com: vinho do Porto branco (aperitivo);  vinho tinto vintage (ao longo da refeição), passando para prosecco chegado o momento da sobremesa. 

A aposta residia na seguinte questão etimológica: a origem da palavra “enfezado”. Segundo Juliana, na época colonial os escravos carregavam barris de fezes dos seus senhores e, volta e meia, eles rompiam despejando todo o seu conteúdo nesses pobres homens que ficavam putos da vida, portanto, enfezados. Já Heitor achava que a Ju estava viajando e tinha a seguinte explicação: literalmente, enfezado quer dizer cheio de fezes, aquele sujeito que está com constipação intestinal, prisão de ventre e, assim, desenvolve um comportamento irritadiço.  

Mas então chegaram ao veredicto: enfezado origina-se do verbo latino “infenso”, que significa “ser hostil a”; “fezes” vem do substantivo “faex”, “faecis”, que significa “lama, resíduo, sedimento, fezes”. Sendo assim, Juliana faz o mercado, Heitor cozinha e dividem a louça.

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02.09.09 em: Quarta

postO jantar

Tiana Maciel Ellwanger

            Sentou-se à mesa do restaurante tensa com o primeiro encontro e com as regras de etiqueta. O guardanapo, pôs no colo, imitando aquele homem com quem não se sentia à vontade. Olhou o cardápio e, ao ver os preços, perguntou (para se arrepender em seguida), se os pratos serviam duas pessoas. “Não, são individuais”, ele respondeu, sugerindo caprese vertical com mussarela de búfala e tomates secos de entrada. Achou que poderia gostar e aceitou, assim como aceitou o vinho argentino que o sommelier provara antes de servir. “Nada mal esse emprego de provador de vinhos caros e dos outros”, pensou para rir com os olhos enquanto bebia água.  

          Na segunda taça de vinho, agora mais relaxada, leu e releu o prato mais diferente do cardápio: “rosbife de cordeiro assado e desossado por seis horas com especiarias, sobre ravioli recheado de purê de baroa trufado no molho de iogurte, hortelã e amendoas crocantes”. Era esse que queria, decidiu e comunicou a ele, que falava sobre o restaurante que frequentava em Nova York. “Era até melhor não poder contar nenhuma experiência parecida”, pensou ao sorrir com cara de paisagem, concentrada na textura do queijo que quase derretia em sua boca. “Uma delícia esse caprese”, fingiu conhecimento; nenhum assunto além da comida apetecia.

            O cheiro de hortelã quente devia ser melhor do que o arroz que acompanhava o prato dele. Com os olhos fechados (as especiarias? eram estímulo demais para abri-los) sentiu a mão quente dele sobre a sua, impedindo que continuasse girando a taça de vinho como nos filmes. “Vai derramar assim”, disse ele sorrindo. “Meu prato está maravilhoso, maravilhoso, quer provar?” Ele aceitou e concordou com a sua avaliação. Paulo estava longe de ser tão atraente quando a comida.      

           Para escolher a sobremesa, as combinações eram promissoras. Ao percorrer o cardápio, quis todas, e lembrou do desejo de churros na infância. Não era para menos:

 - Brownie morninho servido com sorvete de baunilha, calda de chocolate e gengibre cristalizado

 - Rolinhos crocantes com Nutella derretida por dentro e sorvete de mel de abelha com calda de chocolate. (é assado, não é frito!) 

 - Carpaccio de banana brulée
Sobre creme de ovos moles e canela com sorvete de tapioca (imperdível! Dá pra dois)

 - Delícia Magrinha… Cubinhos de manga marinados com gengibre, hortelã e limão, com farofa super crocante de amêndoas e calda caseira de frutas vermelhas

         Com a lembrança inventada dos sabores que tentou combinar na memória, a sensação ao imaginar o sabor foi a mesma que teria ao pensar numa noite de amor com Fábio.

          Pediu a degustação de todas as sobremesas do cardápio em porções reduzidas, genial. Surpreendeu-se e quase chorou de prazer, enquanto gemia devorando o recheio doce dos vidrinhos.

          Ao ser deixada em casa, buscava na língua de despedida de Paulo o sabor da noite. Ele – ela não sabia – fazia o mesmo ao beijá-la. Foram dormir, cada um em sua casa, plenos de amor, à comida.

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01.09.09 em: Terça

postO banquete

Luciene Braga

goiabadaO Criador, ao obrigar o homem a comer para viver,
o incita pelo apetite, e o recompensa pelo prazer.
Brillat-Savarin

 

 

 

 

 

         Preparou a mesa, com requinte que jamais fez parte de sua educação, mas a ocasião, para a revelação que estava impelida a fazer, pedia requinte.
Toalha branca, velas, talheres diversos bem dispostos, louça branca e taças. Velas brancas. Castiçal idem.
         Vinho branco, tinto e água. “Só quem não tem amor bebe vinho sem água”, disse, no mesmo tom que ouvira da personagem de um filme antigo. “É o segredo do equilíbrio de duas coisas difíceis de equilibrar: amor e vinho”, dizia Mme Soireé. Azeite e pão de nozes para abrir o apetite. Provou várias partes. Folhas de hortelã enfeitavam a mesa.
          Ela mesma fez o jantar. Salada de orelha de porco, para começar, que comera em encarnações passadas em uma tasca de Lisboa. Isso porque nunca foi a Lisboa, mas era praticamente uma lembrança esse prato na Tertúlia dos Sabores.
          Precisava agora cuidar do arroz de castanhas e do assado de vitela ao molho de ervas. “O cheiro é só o começo”, disse, em voz alta, sorrindo. Ela, que já trabalhara em lanchonetes 100% óleo de soja. “Condizia com meus desejos à época”, pensou.
          Tudo pronto, faltava ela, o desvelado prato principal, tomar um banho e vestir-se à moda. Prendeu os cabelos para o alto, usou um vestido âmbar e um perfume discreto. Masculino, que descobriu que os homens gostam de perfume de homens. Testou, em seus tempos da casa de favores sexuais. Isso valia para os pobres e endinheirados. Um segredo que guardava.
          Quando o marido chegou, ficou encantado com as folhas de hortelã, com a luz e, principalmente, com ela, que combinava perfeitamente com a casa. “Você consegue ofuscar a vista daqui. Pouco consigo prestar atenção na paisagem”, disse, inteiramente excitado. “Sei que tem fome. Terás o que mereces”, disse, com voz de feiticeira. Orgulhou-se dela, que o sentou, aos beijos. E sorria, como poucas vezes viu. Serviu e comeram, cada parte do jantar. Calmos e seduzidos entre sabores tão ativos.
          Quando ele terminou a sobremesa de sementes de amboranas, ela então se sentou mais perto e… sentiu uma vertigem tão intensa que perdeu todos os sentidos. Queria gritar, mas não conseguia. Desfaleceu.

          Acordou com gosto de calda do tacho, ofegante, em seu quarto escuro, estremecido pela passagem do metrô.
          Suava. Jurou que compraria um ventilador novo. 
          Sentia fome. Correu até a geladeira e lá estava a solução: angu e miúdos. Para finalizar, romeu e julieta. Chegou a sorrir.
          “Tudo bem, minha paçoquinha?”, gritou o marido, lá de dentro, do quarto.
          “Tudo, meu quindim. Já volto pra cama. Só deu uma fomezinha”. E se foi, levando, com olhar de quem ainda queria mais, morangos da promoção, lavados, que deixou ali, para a hora certa de despertar o marido, como fazia todos os dias, antes de caírem na labuta.
          ”Ah”, ele gemeu. “Esse perfume me enlouquece”, admitiu, com uma voz que a deixava mais derretida que calda de caramelo e puxou-a para a cama, mal conseguia conter a fome. “É de homem”, brincou, divertindo-se.
          O banquete estava servido.

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31.08.09 em: Segunda